Índio colorido em selva de pedra


Em Fernando Ammon Valle, a literatura transborda sobre a vida e funde-se a ela como uma mancha indelével. Conheça o trabalho do escritor e leia trechos inéditos de seu novo livro.

Queria ser jornalista. Ou fazer alguma coisa que envolvesse escrita. De Humanas. Acabou sendo encaminhado pela área de Exatas, virou Analista de Sistemas com uma carreira sólida em multinacionais e grandes empresas brasileiras. Mas a engenharia não sufocou a literatura. Pelo contrário: o lado artístico sobrepujou o lógico, e mesmo quando escreve linhas de código, Fernando Ammon Valle se imagina criando uma história. "Faço muita análise semântica, muita modelagem de dados, como gosto de dizer, transformo informação em conhecimento. Considero-me, às vezes, um "escritor" de sistemas", conta. "Não está tão distante assim do mundo das palavras".
O primeiro livro foi escrito quando o autor tinha 14 anos de idade. Foi publicado na biblioteca do colégio onde estudava, coisa pequena, simples. Índios Coloridos veio pouco mais de uma década depois, e foi distribuído em todo o Brasil. O pequeno livro de contos reúne historietas escritas em vários momentos na vida do escritor, desde seus sete anos – o simbólico Minha Rua – até a vida adulta. Mais dezesseis anos separam Índios Coloridos do seu segundo e, até agora, último livro, o romance O Caminho do Pólen. O teor existencial está presente em ambos.

Em entrevista concedida por e-mail, Fernando fala sobre a divisão entre trabalho e escrita, suas influências literárias e compartilha versos inéditos que serão publicados no livro Colheita, ainda sem data prevista para chegar às prateleiras. No final, ele compartilha sua visão sobre o ofício da escrita em um depoimento pungente.

Livreiro Fale um pouco sobre sua formação pessoal, como leitor e escritor, e por que você decidiu se tornar administrador de sistemas.

Fernando Ammon Valle – Minha formação como leitor e escritor começou nas salas de aula do Colégio Nossa Senhora do Rosário, em São Paulo, onde estudei treze anos. Ao terminar o primeiro colegial, pensava em ser jornalista e, naturalmente, fiz a opção pela área de Humanas. Já naquela época, gostava muito de ler, escrever, filosofar... Como as turmas eram pequenas e apenas dois colegas haviam manifestado interesse pela mesma área, a turma de Humanas foi cancelada, obrigando-me a escolher entre Exatas e Biológicas. Sair do colégio não estava nos planos. Anos antes, meu pai contraíra Alzheimer e, para que meu irmão mais novo e eu continuássemos no colégio, minha mãe pleiteou meia bolsa de estudos. O Rosário aceitou. Quando meu pai faleceu, o colégio nos acolheu como uma família. Saí do Rosário diretamente para a faculdade de Processamento de Dados. A partir daí, pouco a pouco, construí minha carreira na área de Informática, exercendo as funções de Programador, Analista de Sistemas e Arquiteto de Informação. Atualmente, trabalho como Especialista de Dados em uma empresa multinacional. Apesar do trabalho, nunca parei de escrever. Ainda jovem, fui muito incentivado por minha mãe, por meus irmãos e por um grande amigo que também escreve e que chegou a me emprestar seu computador pessoal para que eu digitasse e imprimisse meus primeiros poemas. Sobre minha relação com computadores, costumo dizer que não está tão distante assim do mundo das palavras. Trabalhando em minha área, faço muita análise semântica, muita modelagem de dados, como gosto de dizer, transformo informação em conhecimento. Considero-me, às vezes, um "escritor" de sistemas.

Índios Coloridos, teu primeiro livro, foi uma experiência literária, um conjunto de exercícios criativos? Como foi o processo de desenvolvimento dos contos e como você identificou uma temática que ligasse todos?

Na verdade, o primeiro livro que escrevi, com começo, meio e fim, foi um romance infanto-juvenil, publicado em capítulos semanais na biblioteca do colégio. Concluí o livro aos 14 anos, época em que comecei a reunir exercícios de língua portuguesa feitos durante as aulas – incentivados, aliás, pela professora que me acompanharia até a publicação de Índios e que, anos mais tarde, faria a revisão técnica de O Caminho do Pólen. Guardava todas as redações – com muitos conselhos e correções de estilo – em uma pasta de plástico, junto com alguns desenhos e vários textos livres, escritos à mão ou datilografados. Um dia, não me pergunte como, os textos emergiram da pasta para o livro de contos, um após o outro, em ordem cronológica. Além da intenção de produzir a coletânea, acredito que o que liga os contos é, simplesmente, a maneira como cada um se destacou do conjunto da pasta para compor o subconjunto. Quando, anos mais tarde, fui convidado para participar da coleção Novos Caminhos, da Editora Didática Paulista, apresentei a coletânea de contos e também o romance infanto-juvenil. Para minha surpresa, o editor gostou dos dois e permitiu que eu decidisse qual seria publicado. Escolhi Índios por ser mais "despretensioso" ou, dito de outra forma, menos "premeditado". Além disso, pensei que seria especial publicar Minha Rua, conto baseado numa redação que escrevi com apenas sete anos e que preserva alguns trechos do texto original.

No livro, é possível notar uma influência do realismo mágico que também se manifesta em O Caminho do Pólen. Como foi o teu primeiro contato com escritores como Cortázar, Borges e Gabriel García-Márquez e como eles influenciaram teu estilo?

Cem Anos de Solidão, de Gabriel García-Marquez, foi a pedra fundamental. Eu já havia lido Bergier e Pauwels, Cortázar e Borges, já me considerava um escritor "irracional"... Histórias de Cronópios e de Famas marcou muito minha adolescência e, possivelmente, inspirou a narração das dúvidas de Euclásio. Apenas depois que li Cem Anos, entretanto, enveredei deliberadamente pelo realismo mágico. Lembro que, ao terminar de ler o livro, admiti para mim mesmo que não conseguiria escrever de outra forma.

Ainda no livro de contos, você estabelece uma dualidade entre a figura silvícola do índio e a selva de pedra, a cidade. Como você juntou essas duas figuras? Essa dualidade cresceu junto com o escritor ou você absorveu de outro lugar?

Meu pai era natural de Bragança Paulista, uma cidade do interior de São Paulo, onde passou a infância e a juventude. Morando na capital, anos mais tarde, sentia saudade da vida no campo e da proximidade com a natureza. Curiosamente, usava muito a expressão “selva de pedra” e, sempre que possível, nos levava para conhecer suas “origens”. O pai de meu pai, que não conheci, também escrevia e, autor publicado, chegou a receber o título de “Poeta da Saudade”. O Major Francisco de Assis Valle ainda é considerado um dos expoentes literários de Bragança e, em seus textos, exaltava a simplicidade e as belezas do mundo natural. Como meus ancestrais, frequentemente, sinto-me oprimido pela cidade grande. Então, junto com minha família, fujo para as montanhas, uma cachoeira ou uma praia deserta. Além disso, sempre me interessei por costumes e lendas indígenas. O Caminho do Pólen, a propósito, é uma alusão a um mito Navajo sobre “a beleza do caminho sagrado para o centro”, com o qual tive contato lendo Joseph Campbell.

Em O Caminho do Pólen você decidiu enveredar pela espiritualidade e busca interior, estilo Sidarta, de Herman Hesse. Você diria que é uma obra mais madura do que Índios Coloridos? Ou apenas diferente?

Acredito, sim, que O Caminho do Pólen seja minha obra mais madura. Mais elaborada, mais densa, mais profunda. Herman Hesse, aliás, é outra influência, talvez Khamsin personifique Sidarta. Quando concluí o conto Janelas, do livro Índios Coloridos, senti que um novo ciclo de criação se iniciava. Mas, naquela época, havia descoberto uma veia pulsante, irrequieta, citando Cecília Meireles, com “sangue eterno e asa ritmada”. Alguns versos brotaram da velha pasta e me levaram por um caminho sem volta: três volumes de poesia intensa, prosaica, verborrágica. Novo esforço de coletânea, nascia Colheita (ainda não publicado). E, então, fui convidado a escrever crônicas semanais para um pequeno jornal de São Paulo. Aceitei o convite e, com o auxílio de Machado de Assis e de minha futura esposa, pouco a pouco, comecei a destilar textos "realistas" sobre as manchetes do próprio noticiário. Ato de rebeldia, no meio das crônicas, surgiu um conto fantástico, que dediquei a García-Márquez e publiquei no jornal com o título Cacos de Vidro. Era o embrião de O Caminho do Pólen. Meses depois, o livro tomou forma e, exaurido, abandonei o jornal. Levei dezesseis anos para concluir o romance. No início, apenas senti que precisava escrever sobre a busca de Euclásio, sobre "conhecer o mundo" e "retornar". Mais tarde, descobri-me buscando a mim mesmo. Quando percebi onde chegaria o livro, duvidei que conseguiria terminá-lo.

Mesmo com a vida profissional devorando o tempo, ainda sobra alguma coisa para a literatura? Você consegue ler e escrever diariamente, manter uma rotina?

Rem acu tetigisti! Eu costumava dizer que, se não tivesse que trabalhar ou se pudesse trabalhar menos, teria concluído O Caminho do Pólen em dois ou três anos. Lembro que muitas ideias para o livro me ocorriam durante a semana, de manhã cedo, quando não tinha tempo para escrever. No caminho para o emprego, ainda entusiasmado com o fluxo criativo, fazia planos para trabalhar no romance quando chegasse em casa. Mas, envolto em projetos e problemas rotineiros, depois de uma jornada exaustiva, tinha pouca energia para me dedicar às palavras. Era desanimador sentir a inspiração esvair-se ao longo do dia e, à noite, combalido, não conseguir avançar um único parágrafo. Para não perder os insights, registrava tudo em pequenos blocos de anotações que, anos depois, me ajudariam a costurar um roteiro consistente, sem fios soltos ou inverossimilhanças. Frustrante também era, aos finais de semana ou durante as férias, não me sentir inspirado ou produzir muito pouco, forçando-me a escrever. Hoje, quando penso no processo criativo e nas muitas tentativas de conciliar inspiração, expiração e transpiração, reconheço que não encontrei, ainda, uma fórmula ideal. Como não posso me dedicar exclusivamente à literatura, eu diria que, em meu caso, o que funciona é um misto de combustão espontânea (revelação) e incêndio criminoso (ação), mesmo que o resultado, às vezes, não seja satisfatório. Fiat lux!

Estou me forçando a escrever.
Digo isto para mim mesmo
como se confessasse
um crime.
Estou confessando um crime.
O escritor escreve:
prendam o escritor!
(Colheita, Teoria e Prática).

Uma vez iniciado o processo criativo, é preciso alimentar o fogo, esculpi-lo e avivá-lo, cuidando para que ele não se apague. Acredito que o mesmo, de certa forma, vale para a leitura. Ainda sofrendo com a falta de tempo, leio espontaneamente jornais, revistas, alguns blogs e o que estiver ao meu alcance, mas também me obrigo a visitar com frequência meus muitos livros de cabeceira.

O próximo livro já está a caminho, ou você não costuma se fazer esse tipo de cobrança, gosta de deixar o tema brotar e amadurecer?

Não se trata de “cobrança”... Apenas sinto uma espécie de incômodo, um princípio de angústia, se fico muito tempo sem escrever. No momento, estou finalizando a revisão de Colheita e, embora cultive ideias para outros romances, incluindo continuações para O Caminho do Pólen, não tenho escrito com muita frequência. De vez em quando, ouço a Musa cantarolando, ao longe... Não tenho dúvidas de que, cedo ou tarde, estarei novamente diante de uma folha em branco, soprando as brasas da próxima fogueira, reavivando a centelha interior.

Por que você escreve? Muitos autores têm ideias diferentes sobre o próprio ofício, gostaria de saber a sua.

Na introdução de Colheita, comparo o despertar de um poeta a “uma espécie de castelo do Graal em que todos os artistas esbarramos um dia: você não pode viver sem ele depois que já esteve lá, mas você está perdido e não sabe reencontrá-lo, e precisa conviver com isso.” Já pensei muito sobre a pergunta "por que escrevo?". Ao longo dos anos, tentei respondê-la de algumas maneiras diferentes. Em Índios Coloridos, há um conto narrado em primeira pessoa, intitulado A Lei. Nele, estou diante do espelho, sentindo-me "triste e cinzento" – um estado de espírito, aliás, tipicamente associado a inspirações literárias. Em determinado momento, o duplo do autor começa a contar uma história "repetida". O conto segue: "Eu então fiz com que ele parasse. Era isso o que tinha para dizer? Eu já conhecia a lei. Estamos vivos para aprender, não é isso? Seja você mesmo e a lei fará o resto. Naturalmente, as pessoas com as quais você pode aprender alguma coisa vão se aproximar de você. As outras então se afastam, é isso?" Posso dizer que, até hoje, a lei sempre funcionou comigo, sempre me aproximou das pessoas "corretas". Creio que um dos motivos para isto está em seu pragmatismo, em sua aparente simplicidade. Por outro lado, quão simples é ser "você mesmo"? Quão simples é conhecer a si mesmo, agir com espontaneidade sincera e, assim, atrair para si os encontros e as situações ideais? Fiz esta introdução para concluir que, em primeiro lugar, escrevo para me conhecer melhor. Isto ressoa em:

Não escrevo para os que me conhecem
Nem para os que me entendem.
Não escrevo para os que conheço
Nem para os que entendo.
Para quem escrevo?
Para o vento que soprou este grão de areia
em meus olhos.
Para este grão de areia que o vento soprou
em meus olhos.
Para estes olhos.
(Colheita, Insisto)

Sinceramente falando, todos os meus escritos são como espelhos para mim. Inspiração, expiração, reflexão... "Quando, finalmente, Tempestade apareceu em sua vida, Euclásio sabia que não era o momento. Precisava terminar a grande escultura que havia começado, desbastá-la até atingir sua essência e ver nela sua própria alma refletida" (O Caminho do Pólen). Ao ler o que escrevo, aprendo sobre mim mesmo, questiono minhas certezas, meus princípios, meus caminhos. E, naturalmente, cresço. Acredito que a segunda resposta para a pergunta "por que escrevo?" seja quase óbvia: para compartilhar o que vivi, o que (penso que) conheço. Embora não controle nem entenda completamente o processo criativo – meus próprios textos têm mensagens ocultas para mim –, acredito que "devemos passar nossa luz adiante, repartir nossas fogueiras, iluminar nossas idas e voltas" (O Caminho do Pólen). Como escritor, confesso que isso sempre me aflige: que o que tenho a dizer, por mais hermético que seja, faça sentido para o leitor. Quando isto acontece, sinto que completei o círculo, que atingi o centro, não importa onde. E, finalmente:

Tempo passa e sento-me e escrevo.
Mas, por que escrevo?
Talvez por tantos motivos
que não os saberia escrever.
Talvez por um motivo só,
único,
inescrutável.
O que eu seria se não escrevesse?
Um sonhador
que atravessou desertos
e subiu montanhas
e finalmente chegou
onde sempre esteve.
Escrevo para chegar
onde sempre estive.
Quero chegar sempre.
Quero retornar com um sorriso
e o brilho de uma estrela no olhar.
(Colheita, Vega)

Encerrando a entrevista, gostaria de compartilhar algumas curiosidades sobre o nome do personagem principal de O Caminho do Pólen. Muitas pessoas me perguntam sobre a escolha de Euclásio, um nome “tão incomum”, “tão intrigante” – considere, por exemplo, que os demais personagens têm nomes de vento. Em primeiro lugar, escolhi Euclásio pela etimologia da palavra, “boa fratura”, em grego. Trata-se de uma pedra rara e preciosa, com coloração zonada (frequentemente azul) e clivagem perfeita. Nitidamente, Euclásio fica dividido entre o misticismo de Khamsin e a racionalidade de Sirocco, sendo levado a questionar suas crenças e a decidir sobre o próprio caminho. “Vou com os ventos”, tramava... Em segundo lugar, agradou-me a sonoridade do nome, em contraste com Alísio e Etésio, seus irmãos. Posteriormente à publicação do livro e aos questionamentos dos leitores, para minha surpresa, ocorreu-me que: o nome começa com “Eu”, aludindo ao ego e à busca solitária do personagem; o nome termina com “o”, aludindo ao círculo que simboliza a conclusão da jornada; o nome tem oito letras, aludindo ao símbolo do infinito e às possibilidades infinitas encapsuladas na finitude da vida; o nome possui todas as cinco vogais do alfabeto; e, finalmente, é um anagrama para “Eu li caos”.