Escritores indicam Lygia



Lygia Fagundes Telles irá representar o Brasil na disputa pelo Nobel de Literatura. É a primeira vez que uma escritora se encarrega de portar o estandarte da literatura brasileira na premiação em Estocolmo. "Lygia é a maior escritora brasileira viva e a qualidade de sua produção literária é inquestionável", disse, em nota, o presidente da União Brasileira de Escritores (UBE), Durval de Noronha Goyos. A entidade a escolheu por unanimidade.

Com 92 anos de idade, Lygia tem uma vasta e bem-sucedida carreira na literatura. Publicou quatro romances, 20 livros de contos e participou de várias antologias e coletâneas. Também trabalha como tradutora e ajuda a adaptar obras literárias para o cinema – como o filme Capitu. Sua premiação mais recente foi o Prêmio Camões, em 2005. Integra a Academia Paulista de Letras (APL) e a Academia Brasileira de Letras (ABL).

A obra da escritora paulista conta histórias de mulheres e pode representar uma chance de o Brasil receber seu primeiro Nobel – embora os critérios da Academia sejam obscuros; escritores do porte de Drummond, João Cabral de Mello Neto e Jorge Amado já foram cotados. Considerando a literatura em língua portuguesa, apenas Saramago venceu um Nobel, em 1998. Por outro lado, 14 franceses já foram laureados. Em 2015, a Academia premiou a jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich, escritora de não-ficção.

Para homenagear Lygia e tornar sua obra mais conhecida entre os próprios brasileiros, consultamos escritores no Brasil inteiro para saber o que eles acham da indicação e quais obras da autora eles recomendam. Confira abaixo.

 Marcelino Freire  escritor; idealizador da Balada Literária e do projeto Quebras.
"Lygia é luz. E joga luz em todos nós."
Lygia é grande. Lygia merece todos os prêmios. Todas as louvações. Lygia é inspiração para todos nós. A Lygia contista, romancista. A Lygia mulher. A Lygia generosa. Ela já foi homenageada na Balada Literária, evento que criei e que existe desde 2006. Lygia, com problemas de saúde à época, fez questão de participar. E de louvar a iniciativa. Lygia é luz. E joga luz em todos nós. Um Nobel para ela é pouco. A ela, todos os corações. Difícil escolher um livro, mas posso dizer do volume de contos A noite escura e mais eu. Sempre adoto os contos da Lygia nas oficinas de criação que coordeno. Os cortes que ela faz nas narrativas, as ironias, o domínio da linguagem, a rica densidade. Lygia é uma das maiores contistas do mundo. Recorro aos contos dela para aprender e apreender com ela. Lygia é clássica e este livro, acima, o clássico dos clássicos.

 Cíntia Moscovich , escritora, jornalista, mestre em teoria literária e ministrante de oficinas de criação literária.
"Foi no conto, essa modalidade tão fascinante quanto sofisticada, que Lygia chegou ao nível da excelência."
Foi com alegria imensa que soube da indicação de Lygia Fagundes Telles para o Nobel. Trata-se de autora delicadíssima, que transitou entre o romance e o conto, tendo-se revelado mestra em ambos os gêneros. Foi no conto, no entanto, essa modalidade tão fascinante quanto sofisticada, que Lygia chegou ao nível da excelência, como demonstrou em Antes do baile verde. Em Seminário dos ratos, o conto Pomba enamorada ou uma história de amor era um dos preferidos de Saramago, e com justa razão. Lygia é dona absoluta de sua técnica e autora de seu tempo, abordando com verdade questões relacionadas ao envelhecimento e à solidão. O Nobel ficaria maravilhoso adicionado à biografia dela.

 Anélia Montechiari Pietrani , professora de Literatura Brasileira da UFRJ e coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura (NIELM).
"O mistério talvez seja a grande palavra de sua poética."
De palavras vigorosas, em uma escrita rigorosa, Lygia Fagundes Telles privilegia protagonistas e coprotagonistas femininas em seus romances e contos – gênero de sua paixão, como já revelou. O mistério talvez seja a grande palavra de sua poética. O mistério não apenas como tema ou como estratégia narrativa que arquiteta suas narrativas, mas também aquele mistério – os mais velhos e insondáveis mistérios – que cerca a vida e suas perplexidades; aquele que move a escrita em suas buscas e reflexões. Suas personagens, em conflito tanto com a realidade exterior limitadora quanto com a verdade interior desejante, nos inquietam lá nos nossos mais temidos abismos e remoem nossas grotas que desejamos bem escuras, o que me faz lembrar cada um dos contos do livro A noite escura e mais eu. Justa a sua indicação ao Prêmio Nobel de Literatura. A literatura de autoria feminina do Brasil, na voz de Lygia Fagundes Telles, merece que sua recepção e leitura sejam ampliadas. O leitor que se deparar com um dos mais belos contos já escritos em língua portuguesa – Apenas um saxofone, que integra o livro Antes do baile verde – e com a personagem Raíza, do romance Verão no aquário, compreenderá.

 Sandro Retondario , escritor e ministrante da Oficina de Criação Literária na Energisa/JP.
"Sem desmerecer outros grandes autores, como Ferreira Gullar, Nélida Piñon e Dalton Trevisan"
Lygia é uma escritora fora de série. Acho justa a indicação para o Nobel – sem desmerecer outros grandes autores, como Ferreira Gullar, Nélida Piñon e Dalton Trevisan, para citar apenas três, que certamente também devem ter sido considerados. Indico dois livros da autora: o romance As horas nuas, leitura muito prazerosa, praticamente uma aula de construção de personagens, e a antologia Melhores contos de Lygia Fagundes Telles, que traz A caçada e A estrutura da bolha de sabão, dois contos incluídos no livro Os cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi.

 Patrícia Dantas , escritora.
"A literatura da autora transita entre a profundidade e a fineza sutil dos nossos universos inteiros."
Lygia Fagundes Telles surpreende pela capacidade humana e misteriosa de saber entrar e esmiuçar a mais alta performance da vida: a linguagem da existência. Sua indicação ao Nobel de Literatura abre portas para conhecermos melhor sua produção e acreditar que a literatura da autora transita entre a profundidade e a fineza sutil dos nossos universos inteiros. Ciranda de Pedra e Antes do baile verde são os dois livros dela que me fizeram refletir e questionar a condição e o estado em que somos colocados diante das incontáveis situações em que predominam os sentimentos contraditórios que moram dentro da gente quando somos obrigados a atingir o limite humano.

 Caio Riter  escritor, professor e doutor em literatura pela UFRGS.
"Lygia: o viés do sensível."
Autora de livros de contos e de apenas quatro romances, Lygia Fagundes Telles é grande. Sua literatura conversa com seu tempo, com o humano que deve ser resgatado em nós. Para tal, coloca seus personagens em situação de passagem. A maioria deles em estágio ritualístico, na busca de superar obstáculos a fim de seguirem em frente, de se tornarem outros: novos ou renovados. Para tal, em sua arquitetura literária, subverte a lógica do real, muitas vezes flertando com o inverossímil, com o fantástico, e colocando o verismo em xeque. Lygia faz da literatura sentimento: sabe narrar, mais afeita à essência do narrado, à trama subjacente ao dito, do que a certos virtuosismos linguísticos tão em moda e que pouco dizem ao leitor. Em linguagem simples e direta, sem abrir mão do viés do sensível, Lygia Fagundes Telles cria – quer nas narrativas curtas, quer nos romances – personagens densos, tensos, repletos da dor e da surpresa do existir. Autora que, por isso mesmo, merece representar o Brasil – e a literatura como um todo – no Nobel. Lygia extrapola fronteiras: fala de sua aldeia sem deixar de contemplar o humano, que é, sabemos, universal. Difícil selecionar alguns livros de Lygia, para quem é seu leitor contumaz, defendeu tese de doutorado sobre sua obra e coleciona edições de sua obra. Vamos à tarefa: árdua, mas extremamente prazerosa.

Romances
As meninas (1973)
As horas nuas (1989)

Contos
Antes do baile verde (1970)
Mistérios (1981)
A noite escura e mais eu (1995)
Invenção e memória (2000)

 Robertson Frizero  escritor, dramaturgo e tradutor.
"Lygia é a contista do fantástico, que mistura imaginação e memória, tomando a infância como período de assombros."
Que venha o Nobel para Lygia Fagundes Telles! O reconhecimento da Academia Sueca daria maior visibilidade a uma de nossas grandes autoras em atividade, já traduzida em mais de oito idiomas, mas ainda pouco conhecida das novas gerações. Sua obra é essencial dentro da trajetória das escritoras brasileiras – seu uso do fluxo de consciência e do discurso indireto livre para fazer aflorar em seus textos os sentimentos e pensamentos das personagens femininas abriu caminhos hoje explorados por inúmeras autoras surgidas nas últimas décadas. Além de seus romances de ousadas escolhas narrativas, Lygia é também a contista do fantástico, que mistura imaginação e memória, tomando a infância como período de assombros; somam-se ainda temas como a fragilidade das relações amorosas, a hipocrisia social e a opressão das mulheres. Junto com sua contemporânea Clarice Lispector, Lygia inaugurou uma nova literatura brasileira escrita por mulheres. Obras que recomendo:

Romance
Ciranda de pedra (1954)
As meninas (1973)

Contos
Antes do baile verde (1970)
O segredo (2012)

 Miriam Mambrini  escritora

Gosto muito dos livros da Lygia Fagundes Telles. Ela conta histórias, isso me agrada. Ela escreve sem grandes firulas literárias, de maneira acessível mas nunca rasteira, e fala da vida brasileira, de nossa gente, de nossa maneira de ser. Ultimamente, com surpresa, ouvi alguns comentários sobre semelhanças entre meu estilo e o dela, o que me deixou orgulhosa. Deve ser uma semelhança de almas, pois  certamente minha inspiração não veio de seus livros. Quanto à indicação ao Nobel, foi outra agradável surpresa. Ela não costuma ser citada como um dos monstros sagrados de nossa literatura, Mas a meu ver está à altura, por exemplo, de Alice Munro e tem chance de chegar lá. Indico os livros As meninas, antológico romance que retrata as principais ideias e destinos de uma geração através de três jovens, e Antes do baile verde, uma coletânea de grandes e inesquecíveis contos.