Uma crisálida tardia


Aos 30 anos, o tempo – ou a percepção que temos dele – sofre uma variação singular: ele começa a caminhar mais rápido. Em um minuto, coisas que aconteceram ontem já contam cinco anos. De repente, dez. Crianças que vimos nascer já encenam os aborrecimentos da puberdade. Com essa noção, começamos a lembrar do tempo perdido com trivialidades, da importância de ter lido mais, estudado mais, se esforçado mais. Até os 20, temos a eternidade pela frente. Depois disso, é penoso olhar para trás e ver o quanto já passou.

Beirar os 60 anos de idade requer ainda mais musculatura emocional para suportar o fardo do tempo pretérito. Soma-se a isso a queda do vigor físico e a sensação de perda, mesmo das coisas que não tivemos, dos amores não vividos e daqueles que foram vividos, mas só resultaram em dor. Em A bela Helena, nono livro da escritora carioca Miriam Mambrini, a personagem Talita faz um relato com gosto de passado. Ao longo de 42 capítulos curtos, ela relembra a amargura dos seus dias; confidencia ao caderno fatos, diálogos, decepções, brigas e eventos que marcaram a sua vida.


Se tempo e espaço misturassem suas propriedades, o passado seria, para Talita, uma prisão. Sem conseguir se desvencilhar do que viveu e se transformar na bela e desejada Helena do seu ideal, Talita se debruça sobre o caderno para narrar a própria história. Os capítulos são pedaços da personagem que se embaralham pelo tempo; ora ela é uma estudante secundarista, ora uma adulta, ora uma viúva com 59 anos de idade aguardando a virada do milênio, sozinha, sem amigos, longe do único filho e com um amante inconstante. Rejeitada, assim como era em sua infância. Quando se põe a escrever, Talita passa a ser uma crisálida, uma transição.
“As lembranças aproveitavam os momentos vazios e vinham se instalar em seu pensamento. Não era uma ocupação pacífica, era uma invasão, uma intromissão violenta. Imagens surgiam, alongavam-se, desfaziam-se, eram substituídas por outras imagens e voltavam mais uma vez. O seu tempo passou a ser o passado” – Texto do prólogo.
A marcação dos diálogos com aspas, ao invés de travessão e uso predominante do tempo verbal no pretérito imperfeito reforçam essa característica da narrativa. A narradora é Talita, o seu tempo presente é a véspera do ano 2000, mas toda a história é o seu passado com ligeiras incursões em sua atualidade. Como a história não obedece a uma sequência temporal – o começo e os meios estão fora de ordem –, o leitor precisa ficar atento para não se perder. Mas quando as primeiras peças são posicionadas, fica fácil montar o restante do quebra-cabeça.

Em que pese a narrativa madura e experiente de Miriam Mambrini, erros de edição podem ser percebidos – a maioria pouco significativos, como espaços duplos e uma falta de pontuação. O mais grave é a personagem, então estudante de Letras, citar a obra de Guimarães Rosa como Grandes Sertões: Veredas [o título correto é Grande Sertão: Veredas], embora o lapso não comprometa a densidade da narrativa.

História

Filha inesperada de uma mãe indiferente e pobre, sem muito amor para dar, e de um pai tão ausente quanto ignorado, ela é atirada na casa dos avós paternos, que viviam em Copacabana. No mesmo apartamento, morava seu pai, dado à bebedeira e prostituição, uma tia desinteressada e egoísta, um avô severo e uma avó carinhosa. Esta decidiu criá-la quando Zenaide, mãe de Talita, bateu à porta com a mala da criança já pronta, com a promessa de buscá-la assim que tivesse melhores condições. Ainda na infância, Talita enfrentou a rejeição dos parentes, a pobreza de afeto e a ausência de um lar.

Quando adolescente, começa a descobrir a paixão sensual durante agarrações com o jovem Luiz Eduardo, ambos dentro de um fusca estacionado nos ermos da floresta da Tijuca. Os toques e carícias levam ambos a picos de excitação que exigem sexo. Mas, nos anos 50 e começo dos anos 60, o hímen ainda era um instrumento social; perdê-lo implicava rebaixamento, o que levou Talita a recusar posteriores amassos. Luiz Eduardo, herdeiro de família tradicional, propõe casamento, e ambos passam a viver na casa dos sogros de Talita.

Mais uma vez, ela experimenta a rejeição. Embora bem instalada em um quarto grande e bem mobiliado, vivia de favor, não era respeitada pelos sogros e ainda lidava com a indiferença do marido, que ainda agia como adolescente, interessado apenas em sexo. Ao se separarem, Talita era uma jovem desquitada sem ter concluído os estudos secundaristas e com poucas perspectivas. Volta a viver com a mãe, a contragosto desta, e consegue emprego em um jornal.

Vive outros amores. Com Gustavo, um executivo acostumado ao controle, ciumento e com ímpetos de violência, tem o único filho. Com Eugênio, um empresário bem-sucedido, quinze anos mais velho, casa-se e, durante seis anos, experimenta a tranquilidade de um relacionamento estável. Mas o personagem que mais a influencia é Laerte, com quem Talita vive um romance tórrido, porém sem promessas de fidelidade, estabilidade ou respeito mútuo. Ele aparece e desaparece de sua vida conforme o próprio gosto.

A primeira vez que Laerte vê Talita é no meio de um tumulto provocado por um atropelamento fatal. De imediato, a imagem da garota é associada tanto ao amor quanto à morte, dualidade que o personagem sintetiza na expressão “anjo mau”. A maneira como ele se relaciona com ela reflete esse pensamento. Atração e repulsa coabitam. Laerte surge em momentos pontuais da vida de Talita para desaparecer após algumas semanas ou meses. Talita, por sua vez, projeta em Laerte a mesma decepção provocada pelo abandono paterno, mesmo com sua completa entrega. O período mais duradouro do relacionamento foi também o mais frio; o combustível da paixão é fugaz.

Contudo, o aspecto mais marcante do romance não são as histórias de amor e sofrimento, mas a condição da mulher no século passado – não faz tanto tempo. Talita molda-se aos relacionamentos conforme exigem seus homens, mesmo quando há um sacrifício emocional. Apesar de forte, ela se mostra totalmente passiva, ao ponto de incomodar o leitor. Se o marido é ciumento e possessivo, ela toma para si a tarefa de chegar em casa nos horários definidos para não levantar suspeitas. Ao descobrir o prazer e a sexualidade, descobre também a culpa unilateral de não ser uma mulher “para casar”. Se o cônjuge é de uma alta casta social, ela adequa o modo de falar, vestir e comer. E poucos dão importância ao que ela pensa ou sente a respeito disso tudo.

Essa condição de vida não era algo particular. O jugo carregado pela mulher na sociedade brasileira até o final do século 20, como vemos hoje, era profundamente desigual – ainda é, se considerarmos o atraso social das localidades distantes das metrópoles. O melhor que se podia esperar era um casamento tolerável, onde a traição e outras falhas de caráter atribuídas ao sexo masculino – enquanto construção social, não natural – deveriam ser relevadas em nome da respeitabilidade. Com isso, abusos sexuais, violência doméstica, prostituição dentro do casamento, ameaças constantes, homicídios domésticos e outros fenômenos grassaram no seio necrosado da família brasileira.

Nunca saberemos quanta dor e sofrimento aprisionaram as mulheres que viveram nesse período, tornando-as crisálidas sob força e opressão sufocantes. Muitas certamente pensaram em matar os esposos, algumas podem ter levado o intento a cabo – como a personagem Clarice –, ou mesmo atentado contra a própria vida. As mulheres dessa época que vivem hoje e conseguem ser felizes conseguiram romper um casulo grosseiro, artificial e desnecessário – ou ainda tentam. A história de Talita faz com que A bela Helena seja uma leitura ideal para mães, avós e filhos que pouco reconhecem o que elas sofreram e os sonhos que esqueceram para criá-los.