Sinta a dor de Ana Paúcha [ou O machado de Kafka]


Kafka certa vez explicou o sentido e o propósito de um livro em uma declaração simples: "de um modo geral, penso que devemos ler apenas livros que nos mordem e nos ferroam. Se o livro que estamos lendo não nos desperta como uma pancada no crânio, para que lê-lo? Para que possamos ficar felizes, como você diz? Bom Deus, seríamos tão felizes quanto se não tivéssemos nenhum livro; livros que nos fazem felizes poderíamos, num estalo, escrevê-los nós mesmos. O que precisamos é de livros que nos acertem com uma dolorosa desventura, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos faça sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, distante de qualquer presença humana, como suicídio. Um livro deve ser o machado para o mar congelado dentro de nós".

Ana-não foi escrito muitas décadas após a morte de Kafka, mas outras palavras não poderiam definir melhor a brilhante narrativa de Agustín Gómez Arcos, espanhol exilado durante o regime de Franco e que escreveu a maior parte da sua obra em francês – homenagem ao país que o acolheu.

Já no primeiro parágrafo o leitor percebe que não está diante de um livro ordinário: apesar da predominância da terceira pessoa onisciente na narração, o início foi escrito em segunda pessoa, um modo narrativo pouco comum e difícil de dominar. O narrador cede a voz para a Morte, que assedia, controla e provoca a personagem ao longo do livro. Outra demonstração de maestria é o trabalho dos discursos indireto, indireto livre e direto conforme a ocasião em que se encontra a personagem. Na verdade essa alternância esconde um recurso interessante: a voz de Ana Paúcha só é ouvida a partir do segundo terço do livro, ocasião que coincide com o início do seu letramento. Você vai entender melhor nos próximos parágrafos.

Ana Paúcha é uma idosa de 75 anos que passou a vida numa vila pesqueira no sul da Espanha. Casou cedo, teve três filhos e uma vida pacata até a eclosão do golpe militar que resultou na ascensão de Franco e no fim da Segunda República Espanhola. Seu marido, Pedro Paúcha, e dois de seus filhos, João e José Paúcha, morrem no conflito. O mais novo, Jesus Paúcha Gonzales, que havia se filiado ao Partido Comunista, é condenado à prisão perpétua em uma fortaleza no norte da Espanha. Durante 30 anos, Ana se apega à crença de que o filho vai voltar por um milagre e se recusa a conhecer o conteúdo das cartas enviadas pelo próprio – que seriam lidas pelo carteiro. Isolada dentro da própria comunidade por ser de família republicana, solitária e presa à vida apenas por um fiapo de esperança, um dia ela se cansa e torna-se a niilista – palavra que não é mencionada no livro inteiro – Ana-Não. Nega a tudo, principalmente a Deus e ao aguardado milagre, e parte em uma jornada que sabe ser a derradeira: caminha do sul ao norte do país para entregar ao único filho vivo um pão de amêndoas untado de azeite com gosto de anis e bastante açúcar (um bolo, diria).
"De que serve ter uma vida carregada de mortos se não podemos descarregar-lhes nos túmulos um pouco da nossa solidão?".
Com uma sensibilidade profunda, Arcos consegue transmitir ao leitor a maneira de Ana Paúcha ver, sentir e significar o mundo, a guerra, a miséria e a pátria que a isolou. "Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo", afirmou o filósofo Ludwig Wittgenstein, e em Ana Paúcha essa máxima encontra seu sentido. Ana-Não é ignorante, analfabeta, velha e não conhece ninguém. Todo o seu mundo encerrava-se na aldeia onde nasceu e viveu – conheceu um pouco mais nas histórias narradas pelo seu filho mais jovem, único que sabia ler na família. Essa primeira parte do livro é marcada por um pessimismo violento, horrível, triste e pelo discurso indireto e indireto livre, com a predominância da narração; Ana Paúcha, sem conseguir fugir da necessidade humana de se ver em alguma coisa, cria empatia com uma cadela velha, sarnenta e cega de um olho. É um machado incandescente no mar de gelo, capaz de mover qualquer um às lágrimas.

Ana Paúcha, que sempre foi pobre, conhece a miséria – ou as misérias – humanas. Na cidade, forçada à mendicância, é submetida a um processo sistemático de humilhação promovido pelas famílias que enriqueceram com o regime de Franco, e aqui há uma crítica mordaz do autor. A sociedade precisa de miseráveis para legitimar estruturas de dominação, onde clero, nobres e burgueses passeiam como benfeitores. Arcos elabora uma imagem simbólica verdadeiramente iconoclasta:
"Foi ela quem ofertou a coroa de platina que cobre a cabeça de madeira carunchada da Nossa Senhora das Sete Conquistas [...] bem como o produto químico para matar os carunchos".
A passagem é uma metáfora para a sociedade que insiste em manter aparências, mas tem suas bases corroídas, corrompidas – o que tornaria necessária uma limpeza de vez em quando, onde os pobres e vulneráveis são a sujeira. É uma relação dual e destrutiva, inimiga do bem-estar. A cena onde Ana Paúcha é coroada como Rainha dos Mendigos representa o auge da sua humilhação. É de fazer a bílis subir à língua.

A mudança – temporária – de seu destino começa quando ela conhece o bardo cego Trinidad, ex-soldado da República, idealista e filósofo, mas que ganhava o sustento oferecendo histórias em troca. E não eram histórias que as pessoas gostavam de ouvir, com finais felizes, donzelas salvas e heróis impolutos. Eram histórias de dor e manifestações pela igualdade entre as pessoas. Assim como Ana-Não. Uma igualdade que não se traduz em salários ou medidas empíricas, mas em um enxergar ao outro e ver a si próprio. Trinidad, mesmo cego, ensina Ana Paúcha a ler, e a partir da união dos dois na jornada, há uma transformação perceptível: a utilização do discurso direto, o fim dos assédios da pulsão de morte, um novo nascimento. "Tua verdade é bem simples. Precisas começar a ser. Essa é a tua verdade", afirma o violeiro, que funciona como um avatar do benevolente autor, compadecido do sofrimento de Paúcha.

Antes da viagem, Ana Paúcha era um ser patético e solitário, cuja identidade dependia do marido e dos filhos, mesmo que mortos e enterrados em local ignorado; ao decidir viajar, torna-se Ana-Não, ninguém, anulada, um ser sem identidade, sem nada além de um filete de esperança no norte do país. Quando é instruída, torna-se uma Ana Paúcha renovada, que sabe nomear coisas, sentimentos, acontecimentos. Sabe nomear a humilhação a que foi submetida.
"No velho olmo
rachado pelo raio, semi-apodrecido
pelas chuvas de abril e pelo sol de maio
folhas novas brotaram"
Mas esse novo nascimento – observe que vários elementos elencados até aqui remetem ao cristianismo, como o filho Jesus e o amigo Trinidad – não é garantia de vida nova. Na verdade ela ainda é submetida à violência real e simbólica da sociedade, mas agora sabe responder. Ela entende sua posição e não aceita qualquer coisa. Além da energia e da experiência, ganha sabedoria.

As construções elaboradas por Arcos fazem com que Ana-Não se situe entre a Retórica e a Poética. O autor tem um posicionamento político declaradamente contrário ao regime, e isso é transmitido com clareza, ele busca convencer o leitor do sofrimento e da dor provocados por um golpe de estado – e, posteriormente, pelas moendas das estruturas sociais. Ao mesmo tempo, não utiliza a conhecida linguagem dos panfletos, mas consegue forjar uma narrativa onde o leitor encarna Ana Paúcha. Imprime um ritmo que derruba qualquer resistência; é o machado de Kafka que arrebenta um oceano congelado.