Os melhores livros de escritores para escritores

Paul Alexis lê um manuscrito para Émile Zola |

1. A arte da ficção, de Henry James

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Autor dos livros Outra volta do parafuso e Retrato de uma senhora, Henry James desenvolve uma argumentação em favor da prosa tanto como forma artística quanto instrumento de manutenção da moral de uma sociedade. Advogou pela liberdade da criação, paradigma que orienta a produção literária até hoje. A arte da ficção é um livro-ensaio com cinco capítulos. A linguagem é objetiva e exige atenção do leitor para os argumentos utilizados.

Trecho:

"Um romance, em sua definição mais ampla, é uma impressão direta e pessoal da vida: isso, para começar, constitui seu valor, que é maior ou menor de acordo com a intensidade da impressão. Mas não haverá intensidade alguma, portanto valor algum, se não houver liberdade para sentir e dizer".

2. A arte da ficção, de David Lodge

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PDF em inglês (sou desses)

Apesar do nome idêntico ao do livro acima, A arte da ficção de David Lodge tem um teor diferente. Não soa como um manifesto. O livro aborda aspectos técnicos, como o narrador intrusivo, histórias epistolares, desfamiliarização, suspense, figuras de linguagem, mistério, desfecho e vários outros. Tudo com fartura de exemplos. É muito utilizado em oficinas de criação literária, portanto tê-lo na biblioteca é um bom negócio para escritores. Infelizmente, a única edição em português está esgotada e sem previsão de reimpressão.

Trecho:

"Quando um romance começa? A questão é quase tão difícil de responder quanto a seguinte pergunta: quando o embrião humano se torna uma pessoa? Por certo, a criação de um romance raramente começa com os rabiscos ou dígitos das primeiras palavras. A maioria dos escritores fazem um trabalho preliminar, se estiver apenas em suas cabeças. Muitos preparam o terreno cuidadosamente por semanas ou meses, criando diagramas do roteiro, compilando a vida dos seus personagens, preenchendo cadernos de anotações com ideias, configurações, situações, piadas, para serem desenhados no processo de composição".

3. Aspectos do romance, de E. M. Forster

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O livro foi elaborado a partir de uma série de conferências proferidas pelo escritor Edward Morgan Forster na Universidade de Cambridge durante a década de 20. Forster é autor de Um quarto com vista, Maurice, Howards End e Uma passagem para a Índia, que foram adaptados para o cinema. Aspectos do romance destaca elementos que compõem a narrativa – como padrão, ritmo e tom – e como os bons autores se valem deles para criar obras memoráveis. O autor é publicado no Brasil pela Globo Livros, mas é difícil achar um exemplar impresso de Aspectos do romance. O livro pode ser adquirido também em formato digital.

Trecho:

"Isso que chamamos de intimidade não passa de uma improvisação; o conhecimento perfeito é uma ilusão. Nos romances, porém, conseguimos conhecer as pessoas perfeitamente, e, além do prazer normal da leitura, podemos encontrar aqui uma compensação pela falta de clareza da vida. Neste sentido, a ficção é mais verdadeira do que a História, porque ultrapassa as evidências, e todos nós sabemos por experiência própria que existe algo além das evidências".

4. Como funciona a ficção, de James Wood

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James Wood apresenta um ponto de vista singular nesta lista: ele é crítico literário e leciona Prática da Crítica Literária na Universidade de Harvard. Em Como funciona a ficção, ele começa pela ruptura de Flaubert para então partir para os personagens, consciência, empatia, linguagem e diálogo. É um livro de dois gumes: funciona tanto para escritores quanto para quem aprecia literatura. A edição de bolso da Cosac Naify dispensa qualquer consideração sobre a qualidade.

Trecho:

"A casa da ficção tem muitas janelas, mas só duas ou três portas. Posso contar uma história na primeira ou na terceira pessoa, e talvez na segunda pessoa do singular e na primeira do plural, mesmo sendo raríssimos os exemplos de casos que deram certo. E é só. Qualquer outra coisa não vai parecer muito uma narração, e pode estar mais perto da poesia ou do poema em prosa".

5. Para ser escritor, de Charles Kiefer

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Kiefer, apesar do nome gringo, é brasileiro. Participou de um dos mais conhecidos cursos para o desenvolvimento da escrita, o International Writing Program, da Universidade de Iowa. Tem 31 livros publicados e venceu o Prêmio Jabuti em três ocasiões. Para ser escritor carrega também a experiência de Kiefer como pesquisador e professor de literatura. Tem uma linguagem simples de acompanhar e relata situações comuns enfrentadas pelos escritores brasileiros (como o uso exagerado de adjetivos).

Trecho:

"Um escritor somente é escritor quando menos é escritor, no instante mesmo em que tenta ser escritor e escreve. Na absoluta solidão de seu ofício, enquanto a mente elabora as frases e a mão corre para acompanhar-lhe o raciocínio, é escritor. Nesse espaço, entre o pensamento e a expressão, vibra no ar um ser sutil, fátuo e que, terminada a frase, concluído o texto, se evapora. Nesse átimo, o escritor é escritor. Aí e somente aí. Depois, já é o primeiro leitor, o primeiro crítico de si mesmo e não mais escritor"

6. Para ler como um escritor, de Francine Prose

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Prose, autora de A vida das musas e Gula, faz a defesa que a melhor maneira de aprender a escrever é lendo. Mas não de qualquer jeito nem qualquer coisa. Inevitavelmente ela cita os clássicos: Tchekhov, Nabokov, Jane Austen, Virginia Woolf e Flaubert, por exemplo. É apontado como um bom livro para guiar o trabalho em oficinas de literatura.

Trecho:

"No processo de me tornar uma escritora, li e reli os autores de que mais gostava. Lia por prazer, primeiramente, mas também de maneira mais analítica, consciente do estilo, da dicção, do modo como as frases eram formadas e como a informação estava sendo transmitida, como o escritor estava estruturando uma trama, criando personagens, empregando detalhes e diálogos. E à medida que escrevia, descobri que escrever, como ler, fazia-se uma palavra por vez, um sinal de pontuação por vez. Requer o que um amigo meu chama de 'pôr cada palavra em xeque': mudar um adjetivo, cortar uma frase, remover uma vírgula e pôr a vírgula de volta."

7. Sobre a escrita, de Stephen King

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Esse é recente e bem conhecido de todos os escritores. Afinal, Stephen King é um dos mais produtivos e conceituados autores de mistério e terror da atualidade. Em Sobre a escrita ele detalha – em formato de ensaio, com poucos capítulos – seu próprio processo de... bem, escrever. Manifesta-se contra os advérbios, explica o que faz e o que não faz e por quê. Direto e simples, pode ser lido no ônibus ou no horário de almoço. É um livro cheio de aforismas e juízos de valor, mas há virtudes em suas páginas, incluindo a maneira apaixonante de Stephen King prender a atenção ao contar uma história.

"Quando eu tinha 5 ou 6 anos, perguntei a minha mãe se ela já tinha visto alguém morrer. Ela respondeu que sim. Já tinha visto uma pessoa morrer e outra morrendo. Perguntei como era possível ouvir uma pessoa morrendo, e ela contou de uma menina que tinha morrido afogada em Prouts Neck, na década de 1920. A menina nadou para depois da arrebentação, não conseguiu voltar e começou a gritar por socorro. Vários homens tentaram chegar até ela, mas naquele dia a contracorrente estava muito forte, e todos foram obrigados a voltar. No fim, turistas e moradores, entre eles a adolescente que se tornou minha mãe, só puderam esperar por um barco de resgate que nunca veio enquanto ouviam a menina gritar até que suas forças se esvaíssem e ela afundasse de vez. O corpo apareceu na praia em New Hampshire, contou minha mãe. Perguntei quantos anos tinha a menina. Minha mãe respondeu que tinha 14, depois leu uma revista em quadrinhos para mim e me colocou na cama. Em outro dia ela me contou sobre a morte que presenciara, a de um marinheiro que pulou do telhado do Hotal Graymore, no Maine, e aterrisou na rua. – Ele se espatifou – disse ela, usando seu tom mais casual. Fez uma pausa, depois acrescentou: – O negócio que saía dele era verde. Nunca esqueci".

8. A tentação do impossível, de Mario Vargas Llosa

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O escritor peruano Mario Vargas Llosa conquistou um Nobel de literatura e tem uma vasta carreira literária. É uma figura incontestável na hora de aconselhar outros escritores. Em A tentação do impossível – apresentado em forma de ensaio, por sua vez elaborado a partir de um curso ministrado pelo autor na Universidade de Oxford – Llosa faz uma análise profunda de Os Miseráveis, de Victor Hugo. É uma mistura que só pode dar certo.

Trecho:

"As ficções existem por isso e para isso. Porque só temos uma vida, e os nossos desejos e fantasias nos exigem ter mil. Porque o abismo entre o que somos e o que gostaríamos de ser precisava ser preenchido de alguma maneira. Para isto nasceram as ficções: para que, dessa maneira vicária, provisória, precária e, ao mesmo tempo, apaixonada e fascinante, como é a vida a que elas nos transportam, possamos incorporar o impossível ao possível e nossa existência seja ao mesmo tempo realidade e irrealidade, história e fábula, vida concreta e aventura maravilhosa".

9. Valise de Cronópio, de Julio Cortázar

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Para concluir essa lista, ninguém melhor do que nosso amigo Cronópio, o formidável contista argentino Julio Cortázar. Aqui no Livreiro Nômade destaquei um discurso-ensaio que ele fez para escritores cubanos pouco depois da revolução. O mesmo texto pode ser lido na coletânea Valise de Cronópio, que reúne 18 ensaios do escritor. Alguns têm uma forte pegada acadêmica, como a análise da poesia de John Keats, outros são mais expositivos, abordando desde os gêneros romance e o conto até os escritos de Poe e outros autores de referência. Diferente de Sobre a escrita, Valise de Cronópio requer atenção, muita atenção. Sua absorção deve ser ativa, porque Cortázar tem pernas longas, caminha rápido e não espera por ninguém.

Trecho:

"Tenho pensado algumas vezes se a literatura não merecia ser considerada uma empresa de conquista verbal da realidade. Não por razões de magia, para a qual o nome das coisas (o nome verdadeiro, oculto, esse que todo escritor persegue embora não o saiba) dá a posse da própria coisa. Nem tampouco dentro de uma concepção da escritura literária segundo a entendia (e previa) Mallarmé, espécie de abolição da realidade fenomênica numa progressiva eternização de essências. Esta ideia da conquista verbal da realidade é mais direta e sem dúvida menos poética; nasce sobretudo da leitura de tantos romances e também, provavelmente, da necessidade e da ambição de escrevê-los."

O que achou da lista? Ficaram de fora outros livros não menos recomendáveis, como Iniciação à estética, de Ariano Suassuna, por seu teor mais filosófico e menos prático, e outros que são indicados dentro dos livros mencionados neste post. Você acrescentaria outros livros? Deixe sua opinião nos comentários.

Atualização 10.11: Após uma produtiva discussão no grupo Escritores ajudando outros escritores, surgiram outros títulos promissores, devidamente elencados abaixo.

A arte de escrever, de Arthur Schopenhauer
Sobre a Literatura, de Umberto Eco (esgotado)
Seis passeios pelos bosques da ficção, de Umberto Eco
O romancista ingênuo e o sentimental, de Orhan Pamuk
O laboratório do escritor, de Ricardo Piglia
O Zen e a arte da escrita, de Ray Bradbury
Os segredos da ficção, de Raimundo Carreiro (esgotado, mas alguns trechos podem ser lidos no site do escritor)
A arte do romance, de Milan Kundera
A arte do romance, de Henry James
Seis propostas para o próximo milênio, de Ítalo Calvino