Cinco medidas para não ser doutrinado


O Brasil é um país democrático. Isso significa que, independente da conjuntura, existem instituições, leis e uma Carta Magna que garantem a todos o direito da liberdade de expressão, o que não significa liberdade para fazer discurso de ódio. Alguns acham que isso diferencia esquerda e direita, que um lado existe para doutrinar o outro e que o Governo quer criar uma geração de vermelhos e outras sandices e factoides que vão se somando à algaravia virtual, tornando a internet um lugar detestável.

Mas há uma medida simples para não ser doutrinado. Aliás, há cinco. Se você praticá-las, não vai se tornar um bolchevique tupiniquim nem um bolsonarete viúva-da-ditadura pela vontade alheia, mas um ser evoluído, independente e civilizado, que sabe conviver com quem pensa diferente. De quebra, sua mente vai ser expandida, lapidada e polida. Novos caminhos se abrirão e até o contracheque pode receber aquele providencial incremento.

Mas só se você seguir à risca as medidas abaixo listadas.

1. Leia obras de referência sobre vários assuntos

Não fique só nos textões e tirinhas de Facebook. Eles querem te doutrinar. Tampouco saia catando informações pelo Google, porque elas vêm fragmentadas e apresentadas de maneira que só repetem a visão de mundo a que você está acostumado. Se você quer ser livre e não doutrinado, precisa cavar fundo, investigar livros de várias épocas e que têm ou tiveram impacto. Por exemplo, antes de sair repetindo por aí que você é um liberal que nega o racismo e a violência contra a mulher, vá ler Stuart Mill e seu notável A sujeição das mulheres; aproveite e leia A Política, de Aristóteles, os contratualistas, iluministas e os pensadores modernos. Mas não leia como quem come um prato de feijão; leia como uma criança que separa as verduras no cantinho do prato. E, sobretudo, leia como quem debate racionalmente com o autor – o que implica em conhecer as premissas e argumentos.

2. Leia livros de vários gêneros

As guerras, bem como os atos e motivos que levaram à sua eclosão, são bem descritos em livros como Uma breve história do século XX, de Geoffrey Blainey, ou Era dos extremos, de Eric Hobsbawm. Mas nenhuma obra historiográfica é tão pungente ao relatar o sofrimento provocado pela guerra quanto Ana-Não, de Agustín Gómez-Arcos, ou relatar o que se passa por trás das trincheiras como Contos de Sebastopol, de Tolstói. Romances e contos têm essa qualidade de convencer provocando emoções, colocando o leitor numa perspectiva diferente. Bola de Sebo, de Guy de Maupassant, é um relato fiel e incontestável da hipocrisia social.

3. Leia livros que confrontem seu preconceito

O problema das redes sociais é que elas só nos mostram o que queremos ver. E isso é prejudicial ao processo dialético (lembrem-se: antes de Marx, Aristóteles e Hegel já utilizavam o termo). A tendência é que o indivíduo fique preso em um viés de confirmação eterno, como um loop infinito, ou um computador travado na tela azul – e o pior, sem compreender a extensão da própria ignorância. Não permita que a netflixização das coisas escolha o que você deve ou não ler. Leitura é diálogo e debate, e o fruto dela é o aumento da sua capacidade cognitiva (vulgo inteligência). Outro benefício da leitura crítica é a aniquilação da narrativa primitiva de que nós precisamos ser salvos por heróis para não sermos devorados por vilões. Concordar ou discordar implica em conhecer e entender.

4. Leia livros bem selecionados

Como escolher os livros a serem lidos? Dificilmente chegamos a um deles aleatoriamente – já aconteceu comigo. Mas, normalmente, seguimos pistas e indicações: bibliografias, sugestões de amigos ou deste blog que vos fala. Os melhores livros são aqueles que resistiram ao tempo, frequentemente chamados de clássicos. Há também clássicos recentes, publicados na segunda metade do século passado – como O livro no Brasil, de Laurence Hallewell, e O que é Política, coleção primorosa de ensaios escritos por Hannah Arendt. Os melhores livros modernos costumam ter ampla exposição na mídia e disponibilidade nas estantes. Mas esse é o menos importante dos critérios. Antes de selecionar um livro para ler, faça uma leitura rápida dos elementos pré-textuais e de alguns capítulos. Daí você saberá como situá-lo no seu plano de leitura e evitará perder tempo.

5. Leia para se tornar uma pessoa melhor

Não terceirize seu direito/dever de pensar. Quando começar a ler um livro, esqueça o que você leu na página do Movimento Endireita Brasil ou Quebrando o Tabu. Construa um repertório sólido baseado na identificação dos argumentos e posterior refutação ou aceitação. Leia para saber se colocar na perspectiva de outra pessoa e entender seus amores, sofrimentos e tragédias. Leia consciente de que livros não são entidades sagradas e invioláveis, mas que em cada livro há algo para ser aproveitado – aquela verdurinha no canto do prato. É claro que a prática da leitura, por si só, não vai fazer de você uma pessoa melhor, mas vai te libertar das amarras da opinião alheia sobre tudo. E aí você pode escolher. Apenas não seja o ignorante que bate no peito estufado, orgulhoso de sua triste condição.