A leitura analítica e as 15 regras para ler um livro, segundo Mortimer Adler


Na postagem anterior, onde foi exposto o método geral para leitura e os quatro níveis de leitura segundo Mortimer Adler, pôde-se destacar que a leitura pode ser elementar, inspecional, analítica e sintópica. Nesse post, a intenção é pormenorizar a leitura analítica – considerada a melhor leitura possível de um único livro – e as 15 regras para o melhor aproveitamento do livro.

Quando se fala em regras, há uma tendência a menosprezar o assunto, sobretudo quando se trata de regras para leitura. De fato, ler um livro e se relacionar com ele pode ser algo bem pessoal; um mesmo livro pode ter significados diferentes para pessoas diferentes. Livros também são distintos entre si, tanto quanto pessoas são distintas entre si, já que livros não chegam a nós por mãos divinas, mas pelo talento de seres humanos. As regras, no entanto, são úteis para uma abordagem crítica e, apesar da quantidade de itens propostos, são genéricas. É possível aplicá-las a um livro prático, filosófico ou de ficção, adaptando-as se necessário.

Para recapitular, a leitura analítica é o terceiro nível de leitura conforme a tipologia de Mortimer Adler, e consiste em uma leitura compassada, lenta se necessário, mas que tem por objetivo a absorção total do conteúdo – ou seja, das proposições e argumentos. Ao final, podemos emitir um juízo sobre o que foi lido ou suspender o julgamento, caso o livro não leve a uma conclusão ou informações novas sejam necessárias. Livro e leitor debatem, mas apenas este último é modificado após a leitura.

Livros de ficção também apresentam proposições e argumentos, porém não de uma maneira clara. Os autores desses livros em geral preferem trabalhar sentimentos e emoções ao invés de demonstrar fatos e ideias racionais. Cabe ao leitor se deixar levar pela narrativa, porém entender qual a pretensão do autor e onde ele quer chegar, e para isso as guias gerais também podem ser úteis. Hermann Melville não vai deixar claro que Moby Dick representa uma queda-de-braço entre homem e natureza numa época de caça predatória, abuso de recursos naturais e revolução industrial. Talvez a intenção dele tenha sido apenas escrever uma história sobre um cara obcecado por uma baleia gigante. Mas o leitor tem que considerar que há um discurso por trás de cada história e descobrir do que se trata – levando em consideração um repertório prévio de conhecimentos. Os melhores livros de ficção têm argumentos fortes vestidos de belas histórias.

1 Regras para descobrir o conteúdo

1.1 Classifique o livro de acordo com o tipo e assunto;

1.2 Diga sobre o que é o livro como um todo, com a máxima brevidade possível;

1.3 Exponha as partes principais em sua devida ordem e relação;

1.4 Defina o problema (ou os problemas) que o autor buscou solucionar.

Segundo Adler, essas primeiras quatro regras auxiliam na resposta à primeira das quatro perguntas fundamentais que devem ser feitas pelo leitor ao livro: o livro, como um todo, é sobre o quê?

2 Regras para interpretar o conteúdo

2.1 Entre em acordo com o autor, interpretando as palavras-chave do livro;

2.2 Apreenda as proposições principais, estudando as frases mais importantes;

2.3 Identifique os argumentos, encontrando-os ou construindo-os com base em sequências de frases;

2.4 Determine os problemas que foram resolvidos e os que não foram resolvidos; quanto a estes últimos, verifique se o autor está ciente de que não conseguiu resolvê-los.

O segundo set de regras, por sua vez, irá guiar o leitor a responder a segunda questão fundamental: o que exatamente está sendo dito e como?

3 Regras para criticar o conteúdo

3.1 Preceitos da etiqueta intelectual

3.1.1 Não critique até que tenha completado o delineamento e a interpretação do livro. Ou seja, não diga que concorda, discorda ou que suspende o julgamento até que tenha dito "entendi";

3.1.2 Não discorde de maneira competitiva;

3.1.3 Demonstre que reconhece a diferença entre conhecimento e opinião pessoal apresentando boas razões para qualquer julgamento crítico que venha a fazer.

3.2 Critérios especiais para o exercício da crítica

3.2.1 Mostre onde o autor está desinformado;

3.2.2 Mostre onde o autor está mal informado;

3.2.3 Mostre onde o autor foi ilógico (lembre-se: premissas, conclusão e argumento);

3.2.4 Mostre onde a análise ou a explicação do autor está incompleta.

O terceiro set de regras refere-se às duas últimas perguntas fundamentais: o livro é verdadeiro? E daí? "A pergunta 'o livro é verdadeiro?' pode se prestar virtualmente a qualquer tipo de leitura (...) O melhor elogio que alguém pode fazer a qualquer obra da mente humana é afirmar que ela expressou a verdade; porém criticá-la por não ter alcançado esse objetivo é sinal de que a respeitamos e a tratamos com seriedade", defende Adler.

Se, entre os quatro últimos critérios, o leitor concordar com três primeiros – o que equivale a dizer que o autor é bem informado sobre o assunto e apresentou as ideias de forma lógica – então ele é obrigado a concordar com o livro, ou pelo menos com a maior parte. O último critério pode servir como ponto de partida para o leitor desenvolver sua própria análise – é o que se exige de estudantes universitários e pesquisadores, por exemplo. Na busca pelo conhecimento, a quarta pergunta nunca tem fim. "Se as comunicações não fossem complexas, os delineamentos estruturais seriam desnecessários. Se a linguagem fosse um meio perfeito de comunicação, interpretações seriam totalmente desnecessárias. Se o erro e a ignorância não fossem uma ameaça à verdade e ao conhecimento, não teríamos de ser críticos", explica o autor.

As regras expostas dificilmente serão acompanhadas por todos os leitores, mesmo os mais experientes – que sabem ler analiticamente por intuição. No entanto elas representam um desempenho ideal de leitura, ou seja, quanto mais o leitor se aproximar desse desempenho, melhor será a qualidade da leitura. A quantidade de livros lidos não faz a menor diferença.