O poder da colaboração entre livrarias, editoras e startups


O que falta para o mercado empreendedor das startups de base tecnológica se encontrarem com as livrarias e editoras? Segundo um estudo da consultoria Dosdoce.com, conversa. Só o que falta é diálogo, principalmente por parte das editoras. Enquanto 73% das startups assumem o papel proativo na busca por acordos de negócios, 91% das editoras reconhecem que precisam se mexer mais. Das pequenas empresas de tecnologia, 88% declararam que suas soluções cairiam como uma luva para as livrarias de eBooks, que atravessam uma via crucis.
Para Javier Celaya, coordenador do estudo e fundador da Dosdoce.com, ainda é possível alcançar um bom patamar de competitividade na internet, embora não seja fácil. “Para competir na web, eles [os editores e livrarias] precisam criar serviços com valores agregados em torno do seu conteúdo e tais serviços seriam fornecidos por startups. Na nova era da colaboração, é muito caro e absurdo desenvolver esses serviços internamente”, indica.
Em tom de urgência, ele convoca as empresas do segmento editorial a pensarem “fora da caixa” – jargão que se tornou popular desde A Startup Enxuta, de Eric Ries – e buscarem parcerias estratégicas de maneira proativa. “Para sobreviver na era digital, tudo o que as entidades da cadeia do livro devem compreender é que tecnologia irá se transformar no centro dos seus modelos de negócios”, diz.

Livreiro Existem soluções que garantam a sobrevivência das livrarias digitais? Com competidores como a Amazon e Apple, o que as pequenas e médias livrarias devem fazer para sobreviver?

Javier Celaya – A Internet é como um tsunami que vai transformar completamente o papel de todos os players no mundo do livro: editores, bibliotecas, distribuidores, e também livrarias. Para sobreviver na era digital, tudo o que as entidades da cadeia do livro devem compreender é que tecnologia irá se transformar no centro dos seus modelos de negócios. As pequenas e médias livrarias que não abraçarem a tecnologia irão desaparecer na próxima década. Abraçar a tecnologia significa que as livrarias devem desenvolver sites de e-commerce com tecnologia de ponta para vender tanto livros impressos quanto digitais para clientes em todo o mundo. A boa notícia para as livrarias de São Paulo ou Rio de Janeiro é que agora, com a internet, elas podem vender eBooks para clientes que falam português em qualquer lugar do mundo. Não vamos esquecer que a Amazon começou como uma pequena livraria 21 anos atrás. Não é fácil competir na internet, mas também não é impossível.

No estudo desenvolvido pela Dosdoce, as editoras estão muito mais reticentes do que as startups para conversar e fazer acordos rentáveis para ambos. Empreendedores frequentemente promovem meetups, onde as pessoas compartilham ideias e moldam novos negócios. Por que os editores de todo o mundo são tão conservadores?

Os resultados da pesquisa Como colaborar com startups, revela que a maioria dos editores ainda não construíram pontes colaborativas sólidas com companhias digitais. Embora 55% dos respondentes tenham declarado que mantiveram ao menos de 1 a 5 encontros com uma startup durante o ano anterior, apenas 9% dos editores afirmam ter uma relação fluida com startups. Essa falta de conexão é prejudicial para o futuro digital da comunidade editorial. Se os conglomerados de mídia, telecomunicações, finanças e companhias hospitalares, dentre outros setores, estão trabalhando com startups relacionadas aos seus setores para, juntos, identificarem oportunidades de negócios, por que as companhais editoriais não poderiam fazer o mesmo? Empreendedores de startups usualmente pensam fora da caixa. Colaborar com eles permitirá às empresas do ramo editorial ter uma compreensão mais profunda da dinãmica da economia digital e das oportunidades de negócios.

Uma das soluções para essa falta de comunicação é as editoras nomearem um ombudsman (representante) para negociar com startups. Não seria mais interessante se as editoras abrissem totalmente as portas para os empreendedores, para que eles se sentasse e formulassem soluções juntos?

Na era digital, os editores devem assumir que eles não estão mais no negócio de conteúdo. Para competir na web, eles precisam criar serviços com valores agregados em torno do seu conteúdo e tais serviços seriam fornecidos por startups. Na nova era da colaboração, é muito caro e absurdo desenvolver esses serviços internamente. Em vez disso, os editores deveriam andar de mãos dadas com empreendedores digitais com o objetivo de aumentar o conhecimento das novas tendências digitais e emergir novos modelos de negócios em áreas estratégicas, como a melhor geração de serviços para seus autores ou capacidade de descobrir serviços para os leitores, dentre outras áreas. Se os editores exclusivamente “usarem” a tecnologia fornecida por terceiros em vez de trabalhar junto a eles, então eles sempre serão pouco competitivos e “cegos” na era digital. Ser “cego” na era digital segnifica que os editores não têm acesso em tempo real aos dados sobre os perfis e sobre os comportamentos de leitura dos seus clientes. Eles leram o livro que compraram até o final? Eles tiveram uma boa experiência? Eles compartilharam essa experiência com outros leitores? Quais livros novos eu poderia recomendar a esse leitor com base nessas informaçẽos? Amazon, Apple, Google, Kobo e outros têm essas informações, mas eles não as compartilham com os editores. Os dados são o petróleo do século 21. Os editores precisam entender que startups irão ajudá-los a explorar esse novo petróleo. Para gerenciar esse desafio da “cegueira”, o The New York Times recentemente lançou uma notável e inovadora iniciativa: TimeSpace. Esse projeto tem como objetivo trazer empreendedores digitais para as instalações do NYT para redefinir e crescer junto com o negócio deles. Durante quatro meses, as startups selecionadas irão trabalhar junto a uma relevante equipe do jornal, demonstrar suas tecnologias e aprender com/ensinar uns aos outros.

As startups têm soluções muito similares para o mercado editorial: marketing e e-commerce, basicamente. Mas o negócio de publicaçẽos digitais ainda tem problemas além desses. Por que as empresas de base tecnológica insistem em manter esse foco, em vez de pensar em outras soluções, como novas maneiras de criar eBooks, por exemplo?

É verdade que o mercado está bem saturado com startups especializadas em soluções de marketing e e-commerce, mas felizmente nos últimos meses, uma nova geração de empresas de base tecnológica tem emergido no setor editorial, que fornece um vasto espectro de serviços e soluções interessantes, desde modelos de assinaturas em nuvem até plataformas colaborativas de conteúdo aberto, de aplicações de leitura social até ferramentas de descoberta (Bookmovies, QR Codes, NFC Chips, tecnologias de promoções cruzadas de eBooks) que irão ajudar os leitores a descobrir e comprar livros (impressos ou digitais) de formas inimagináveis.

O Brasil é o quinto maior mercado de eBooks, mas as coisas não estão andando muito rápido por aqui. Nós também somos um dos países mais empreendedores do mundo. Então o que está faltando para esses dois mundos se encontrarem?

O Brasil, assim como a Espanha, é uma nação que usualmente se transforma do passado para o futuro sem passar muito tempo no presente. Em outras palavras, temos uma tendência de atrasar as mudanças, somos muito conservadores por natureza. Mas uma vez que tomamos conhecimento que a mudança é fácil e até melhor do que o passado, então apressamos o futuro. Tem acontecido com mudanças tecnológicas anteriores, como a telefonia móvel, internet banking, ou leitura de jornais online. No começo, os usuários ficam relutantes em mudar, mas após alguns anos, essas atividades se tornam completamente comuns. Irá acontecer o mesmo com a leitura de eBooks. Mais cedo do que a indústria espera, mais e mais leitores brasileiros de todas as idades e níveis de renda irão transformar seus hábitos de leitura e se tornarem leitores regulares de eBooks. Para a maioria dos editores, a pior coisa a se fazer é ignorar essa transformação social antecipada que está tomando lugar bem à frente dos nossos olhos. Meu melhor conselho seria começar a pensar fora da caixa, trabalhar de forma mais próxima com startups tecnológicas para desenvolver novos produtos e serviços digitais. Fazer parcerias com companhias digitais recém-nascidas irá permitir que empresas de publicação tenham acesso a ideias inovadoras bem antes de seus competidores e irá também trazer respostas reais para os seus modelos de negócios de um futuro iminente.

Perfil

Javier Celaya foi uma testemunha ocular do desastre das pontocom no início do milênio. A empresa onde trabalhava foi uma das que não sobreviveram á explosão da bolha especulativa. Ele continuou mantendo contato com o universo das empresas de base tecnológica e já desenvolveu vários estudos e livros sobre o tema. Atualmente é fundador e presidente da consultoria Dosdoce.com, focada em produtos culturais.