Narcos, Xógum e Musashi: meio ficção, meio realidade

Duelo na ilha de Funajima: Kojiro vs. Musashi |
Os primeiros segundos da [espetacular] série Narcos fazem uma referência ao realismo mágico, uma tendência literária que brotou na Colômbia, e teve como maior representante Gabriel García-Márquez. A América Latina, em especial a Colômbia, é pródiga em encenar situações tão absurdas que nenhum ficcionista poderia concebê-las, e mesmo com registros, é difícil acreditar. Cem anos de solidão, ícone do realismo mágico, é a história da América Latina, de seus heróis perversos e personagens pitorescos. Mas realidade e ficção não se cruzam apenas na nossa literatura. Nos idos de 1600, enquanto por aqui se cortava mato para chegar ao interior e dizimar indígenas, no Japão os colonizadores europeus encontraram uma sociedade bem mais barra-pesada, que chamaram de Cipan Guó, mais tarde Japão.

Assim como a América oculta em selvas e favelas, o Japão ainda exerce fascínio: uma sociedade profundamente tradicionalista, fechada aos costumes estrangeiros, que após o contato com europeus fechou as fronteiras e o comércio por 250 anos e só voltou a conversar com o ocidente após a Restauração Meiji. O romance Xógum, do britânico James Clavell, usa e adapta personagens reais para compor uma narrativa sobre o Japão alguns meses antes da violenta Batalha de Sekigahara, que antecedeu o xogunato Tokugawa. O piloto holandês e protestante Blackthorne assume o papel do inglês Williams Adams, o estrangeiro mais importante do Japão feudal. Ele chegou como prisioneiro em um terreno absolutamente hostil – de um lado os "bárbaros", do outro a Igreja Católica, que já lançara seus tentáculos ao ocidente algumas décadas antes. A trama política e social, apesar de conter anacronismos e incosistências, mostra o Japão pelos olhos estrangeiros. Une ficção e realidade. A influência de Xógum é bem clara no filme O último samurai.

Musashi é o Japão visto por dentro. A cultura, magia e tradições da nação emergem na narrativa de um personagem histórico, o herói nacional Miyamoto Musashi. O cara existiu. Filho de uma casta inferior de samurais camponeses (goushi), Takezo (nome original) foge de sua vila com o amigo Matahachi para lutar na Batalha de Sekigahara – a mesma do parágrafo acima. Na vida real, Takezo desafiou e matou um samurai com pauladas aos 13 anos de idade, viajou para se aperfeiçoar aos 15 e ingressou nas fileiras do exército de Toyotomi Hideyoshi aos 17 para lutar em Sekigahara. Escolheu o lado que viria a ser derrotado, mas ele não se importava muito com ideologias: era um jovem que queria conquistar a glória ao matar um general inimigo.

Depois da batalha, seguiu o caminho da espada, passando por severas privações em sua vida nos campos e florestas. Até os 30 anos de idade, matou dezenas de inimigos em duelos e só se "aposentou" ao aniquilar o exímio Sasaki Kojiro – na ilha onde ocorreu o embate há uma estátua dos dois no momento do golpe final. Depois disso, passou a ensinar e melhorar seu próprio estilo, o Niten Ichi Ryu, um dos poucos onde são usadas as duas espadas simultaneamente. Escreveu um tratado chamado O livro dos cinco anéis, tratado de estratégia ao nível de A arte da guerra, mas sua história só se popularizou no Japão e no Ocidente após a publicação do romance Musashi, do jornalista Eiji Yoshikawa.

À biografia, o autor acrescentou elementos de romance – Matahachi, Otsu e outros personagens são pura invenção, criados para dar maior complexidade à narrativa e colmatar as brechas deixadas pela ausência de registros. Os dois grossos volumes contam uma história tão impressionante e envolvente que é difícil desgrudar os olhos. Musashi representou o auge do Bushido numa época onde o ocidente ameaçava os costumes e tradições do Japão. O livro de Yoshikawa é usado até para treinar executivos de empresas e inspirou diversas obras posteriores, como a competente série em quadrinhos Vagabond. Assim como Narcos e Xógum, Musashi não ambiciona ser biografia ou documentário. Alguns detalhes literários precisam ser injetados para dar sabor à história. Afinal, o Japão também é meio tragi-mágico.