Patrícia Konder: “livros didáticos são recortes simplistas do conhecimento”


Provavelmente você já observou algum filho de um conhecido, amigo, ou até o seu próprio demonstrar habilidades impressionantes com o smartphone na mão. Também não é raro ver que nossas crianças estão crescendo intelectualmente rápido demais, desenvolvendo habilidades que há meio século apenas as conhecidas como “superdotadas” possuíam. Como essa aceleração da cognição está impactando as escolas, que ainda não tiveram tempo para respirar e mudar seus paradigmas educacionais? E como os livros didáticos podem competir com a tecnologia que está nas mãos dos jovens e adolescente durante as aulas maçantes?
A resposta, segundo a educadora Patrícia Konder Lins e Silva, é que eles não podem. “Livros didáticos são recortes simplistas do conhecimento, coisa do passado e parecem desnecessários”, decreta. “Os sites de busca entregam a informação quase que instantaneamente, o que não acontece na velocidade de acesso à informação encontrada num livro”, prossegue, lembrando que esse salto não é apenas de volume, mas também qualitativo, exigindo uma reformulação completa de paradigmas. A escola e o professor têm que acompanhar a mudança que o próprio estudante vive – é o choque entre o que ela chama de “nativos digitais” e “imigrantes digitais”.

Para ela, a escola precisa ensinar o que não se pode aprender pesquisando pela internet. “Na escola eles precisam aprender a resolver problemas reais e a viver num mundo em transformação. Precisam ler livros e saber buscar informações em todas as fontes”, conclui.

O formato do livro digital, em muitos sentidos, ainda é bastante assemelhado ao físico, principalmente no que diz respeito à leitura linear e exaustiva. O que muda é apenas o suporte. Você acredita que o livro digital ainda deverá evoluir para se adequar ao comportamento e às praticas de leitura dos "nativos digitais"?

O formato dos livros digitais ainda imita o livro “físico” talvez porque, como diz Nicholas Negroponte, fundador do projeto One Laptop per Child, seja uma boa “forma”, apresenta uma boa “Gestalt”. Leve e prático para segurar e manusear. A questão não é o formato, mas o que a leitura, que exige concentração, significa para uma geração que interage ativamente, o tempo todo, com o que encontra nos suportes digitais. Acredito que, no futuro, o livro digital oferecerá som e imagem, além do dicionário e outras coisas que já oferece. O eventual cansaço da leitura poderá levar a clicar um botão e pedir para escutar ou ver o que se está lendo. Talvez se caminhe sempre na direção do que for mais rápido. A rapidez do mundo externo se introjeta no interno, dificultando ações pacientes, como pode ser a da leitura de um livro inteiro.

Como os livros digitais se encaixam em um mundo de informações rápidas, despejadas via smartphones, tablets e outras interfaces? A forma de produzir, distribuir, gerenciar e recompensar literatura também é partícipe dessa mudança de paradigmas?

O mundo continua mudando, não apenas rapidamente, mas em saltos qualitativos, provocando rupturas com o surgimento de outros referenciais e instalação de novos paradigmas. Os livros já podem ser lidos nos smartphones e tablets. Existe leitura para adquirir informação e leitura para lazer. A questão sempre é a velocidade do acesso à informação. Os sites de busca entregam a informação quase que instantaneamente, o que não acontece na velocidade de acesso à informação encontrada num livro. A velocidade faz privilegiar os textos curtos, a imagem e o som. Já a leitura por prazer e para o lazer teve, tem e terá sempre a competição de outras formas de adquirir divertimento. Os nativos digitais estão acostumados a uma interatividade diferente daquela que os livros oferecem. Nos novos paradigmas, será preciso criatividade dos especialistas para reinventarem a forma de produzir, distribuir, gerenciar e recompensar literatura.

A mudança de paradigmas na educação e na criação de crianças já é patente aos olhos de todos. Várias habilidades – como reconhecer formas geométricas ou até mesmo ler – estão sendo aprendidas precoce e autodidaticamente. Como os livros digitais deverão superar os velhos didáticos, que levam anos para serem atualizados, nesse cenário?

Livros didáticos são recortes simplistas do conhecimento, coisa do passado e parecem desnecessários. A informação está nos sites de busca. Enquanto a escola não se transforma radicalmente para atender às necessidades de aprendizagem da geração digital, os livros deveriam, pelo menos, trazer questões e problemas da vida real para o aprendiz exercer a capacidade de pensar e resolver problemas. É um modo de oferecer mais interatividade.

As escolas no futuro irão incluir os livros digitais no processo educacional ou deverão optar por outras plataformas, como jogos eletrônicos?

Os livros digitais devem ser utilizados para expandir conhecimento e não para recortar saberes, como nos livros didáticos tradicionais. Os chamados “conteúdos” escolares já estão nos sites de busca. A escola não é mais a grande provedora da informação para as novas gerações. O mundo dos nativos digitais é nos suportes digitais, eles não conheceram uma vida sem eles. Portanto, não há opção entre livros, jogos e outras plataformas. Tudo serve para apoiar a aprendizagem e o desenvolvimento das crianças e jovens. Na escola eles precisam aprender a resolver problemas reais e a viver num mundo em transformação. Precisam ler livros e saber buscar informações em todas as fontes.

Perfil

Patrícia Konder Lins e Silva nasceu em 1945, no Rio de Janeiro. Aos 15 anos de idade já frequentava o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), órgão autônomo destinado ao ensino e divulgação de Ciências Sociais, posteriormente fechado pela Ditadura Militar (1964 – 1985). Passou por vários cursos universitários, entre Letras, Biologia e Sociologia. No final da década de 80, se associou a Mary Ferraz Soares Lopes e Rita Barbosa Coutinho, fundadoras da Escola Parque, e atualmente é diretora do estabelecimento. Patrícia é orientadora pedagógica, especializada em epistemologia genética.