[Lendo agora] 1930: os órfãos da revolução


"Se um indivíduo cresce sem ligação com o passado, é como se tivesse nascido sem olhos nem ouvidos e tentasse perceber o mundo exterior com exatidão. É o mesmo que mutilá-lo." (Carl Jung)

Os eventos que desaguaram na "Revolução" de 30 foram em boa parte protagonizados por paraibanos numa época regida pela política do café-com-leite – Minas e São Paulo se revezando na Presidência da República. A eleição de Epitácio Pessoa em 1919 é considerada a primeira quebra política dessa hegemonia. Com ele, ascendeu politicamente o sobrinho João Pessoa, indicado como ministro do Supremo Tribunal Militar. Pessoa foi um dos que condenaram os sobreviventes do levante dos 18 do Forte de Copacabana, a primeira revolta do chamado Movimento Tenentista. Foi eleito Presidente da Parahyba em 1928, sucedendo João Suassuna, pai do escritor Ariano Suassuna.

A situação financeira do estado era calamitosa. Os funcionários públicos estavam há seis meses sem receber a arrecadação era baixa e os produtos agropecuários eram escoados pelo Porto de Recife – e não pelo de Cabedelo – de onde provinham também bens manufaturados. Para limitar o poder dos coronéis – tanto militar quanto econômico – o presidente mandou a polícia estadual recolher armamentos nas residências e sítios. Mas uma das medidas mais controversas foi o aumento da tributação entre Paraíba e Pernambuco, uma espécie de ICMS. Bens que circulavam entre os dois estados passaram a ser tributados em até 80%, enquanto o escoamento pelo Porto de Cabedelo era tributado em 3%. A medida quebrou várias empresas em Recife, então conhecido como "o empório do Nordeste", que mantinham relações comerciais com a Paraíba, e João Pessoa fez inimigos até com o primo Francisco Pessoa de Queirós, dono do Jornal do Commercio. A inimizade era tão forte que o presidente sofria risco de atentado contra a vida caso pisasse em Recife.

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A medida também não agradou os coronéis do interior. O próprio João Pessoa era aristocrata, mas defendia uma suposta renovação política – embora salvaguardasse seus aliados. Excluiu da lista de candidatos a deputados federais da Parahyba o coronel de Princesa Isabel, Zé Pereira e vários outros membros tradicionais do Partido Republicano da Paraíba, mas manteve um de seus primos. Mesmo assim não houve rompimento imediato. O presidente foi convidado a Princesa Isabel para discutir a lista; visitou a cidade, mas partiu antes de conversar com o coronel, ato que foi tomado como insulto profundo.

Na época, João Pessoa já havia negado apoio ao candidato de São Paulo, Júlio Prestes, apoiado pelo então presidente Washington Luís. Prestes foi o líder da coluna que carregava seu nome e um dos principais do movimento tenentista. Washington Luís foi eleito por São Paulo, e sua indicação quebrava de vez a política do café-com-leite. A elite mineira se uniu ao Rio Grande do Sul e à Paraíba. nesse contexto, o gaúcho Getúlio Vargas era o candidato à presidência tendo como vice João Pessoa.

Internamente, o presidente da Parahyba passou a enfrentar a revolta dos coronéis do sertão. Zé Pereira declarou o Território Livre de Princesa, com o apoio tácito de Pernambuco, Rio Grande do Norte e até do Catete. Washington Luís já proibira o envio de armamentos e munições à Paraíba, antevendo a possibilidade de uma revolução armada fomentada principalmente pelo Rio Grande do Sul, cabeça da Aliança Liberal. Já Princesa Isabel, que faz fronteira com Pernambuco, era uma zona livre para o tráfego de armas e mantimentos. Belicamente, João Pessoa estava em franca desvantagem. A solução veio de uma fábrica "patriótica" do Rio Grande do Sul, a Leal, Santos & Cia, que enviou 83 mil cartuchos em barris de sebo e oito mil escondidos em fardos de carne de charque.

Mesmo com a ajuda, a polícia da Parahyba foi incapaz de reconquistar Princesa Isabel e os municípios que faziam parte do Território Livre. Uma parte das tropas foi sitiada em Tavares, e outra, composta de soldados inexperientes, foi dizimada numa emboscada em Água Branca. Mesmo vitorioso, José Pereira pretendia terminar o conflito pacificamente, desde que ele e seus aliaods não fossem a julgamento. Ex-ministro do Supremo Tribunal Militar, João Pessoa não pretendia negociar: os inimigos teriam de escolher entre a morte e a rendição incondicional. Sabe-se inclusive que Pessoa era contrário à revolução armada, apesar de fazer parte da Aliança Liberal. Em uma conversa com Caio de Lima Cavalcanti, proprietário do Diário da Manhã, de Recife, Pessoa teria dito: "Não participo da revolução de que o senhor fala, porque quando juiz condenei esses moços [os tenentes] por subversão. Seria uma incoerência de minha parte se entrasse nessa conspiração". Dado o seu temperamento, a simples possibilidade de negociar a paz com José Pereira e seus jagunços seria uma demonstração imperdoável de fraqueza.

Diante da insolvência do conflito, ordenou à polícia que vasculhasse residências e escritórios de figuras importantes na capital que poderiam estar dando suporte aos rebeldes. Um dos escritórios de advocacia devassados foi o de João Dantas, natural da Serra de Teixeira, território aliado de Princesa Isabel, e opositor político de João Pessoa. Entre os documentos encontrados, os policiais coletaram também poemas picantes e cartas trocadas entre Dantas e sua noiva, a professora Anaíde Beiriz. O conteúdo foi publicado no jornal A União, periódico oficial da Parahyba, ao longo de quatro dias. A humilhação sofrida por Dantas culminou no episódio que todos conhecem: João Pessoa foi a Recife no dia 25 de julho e, no dia seguinte, enquanto lanchava na Confeitaria Glória com aliados, foi alvejado por três tiros disparados por Dantas. Os dois sequer se conheciam. O assassinato foi o estopim da Revolução de 30. Washington Luís foi acusado de ser cúmplice político do crime. Júlio Prestes, último presidente paulista eleito, não chegou a tomar posse.

Dias depois, Álvaro Pereira de Carvalho, agora presidente da Parahyba, alterou o nome da capital para João Pessoa e inaugurou uma nova bandeira para o estado: a flâmula rubro-negra com o célebre "Nego" escrito. Com a morte do rival, José Pereira perdeu o ímpeto de lutar e as tropas federais ocuparam Princesa sem resistência. As mudanças econômicas impostas por João Pessoa tiraram o protagonismo econômico do interior do estado e o transferiram para a capital, cenário que se mantém até hoje.

Toda essa história e muitas outras que formaram o panorama e as consequências da revolução de 1930 são relatadas em 1930: Os órfãos da revolução, de Domingos Meirelles, mesmo autor de As noites das grandes fogueiras: uma história da coluna Prestes.