[Entrevista] “Livro é um modo de configuração da informação”

Lúcia Santaella / 4º Congresso CBL do Livro Digital |

A grande aposta em torno das possibilidades do livro digital reside no seu potencial interativo e dinâmico. Teoremas físicos e matemáticos poderiam ser melhor explicados quando um estudante desliza o dedo por cima da tela e aciona uma força que vai fazer com que a polia gire e puxe um objeto que exerce força em sentido contrário, por exemplo; tudo com os valores exibidos e calculados em tempo real. Parece bem mais interessante do que uma figura completamente desvinculada do cotidiano repleta de setas e formas impressa sobre uma superfície imutável.
Essa capacidade de incluir elementos interativos nos eBooks é chamada de gamificação, um neologismo que está se tornando cada vez mais conhecido no vocabulário editorial. “Com o advento dos tablets, os livros didáticos serão os primeiros a desaparecer. Isso porque o conteúdo didático, com seus exemplos, ilustrações e transposições adequa-se muito bem aos formatos digitais”, explica Lúcia Santaella, fundadora do Grupo de Pesquisa em Games e Semiótica da PUC/SP.


A acadêmica – que também é autora de dezenas de livros – acredita que vai haver uma mistura de tecnologias, tanto as mais recentes quanto as que já estão em uso há alguns séculos. E as redes digitais, que estão no centro dessa transformação, já mudaram o padrão de comportamentos e práticas de leitura das pessoas que delas participam. “Certamente esse universo está gerando um novo tipo de leitor que chamo de imersivo e, agora, com os equipamentos móveis, esse leitor passou a ser ubíquo, leitor de prontidão em qualquer lugar e a qualquer hora”. Confira abaixo a entrevista completa.

O livro impresso é uma síntese da reprodutibilidade técnica da indústria cultural: produzido em massa para uma larga audiência. Já o livro digital nasce em meio a uma cultura de consumidores conectados, conscientes, plurais e críticos. Na tua visão, o mercado editorial necessita de uma reconfiguração dos seus mecanismos de produção para atender a essa nova geração de leitores?

Dizer, em um país como o Brasil, que o livro impresso é produzido para uma larga audiência é não perceber a diferença entre o potencial do livro impresso para ser, de fato, dirigido a uma larga audiência e as condições de leitura do brasileiro. Vivemos em um país que, comprovadamente, não lê. Hábitos de leitura não foram adquiridos e cultivados. A cultura do livro não chegou a se sedimentar no Brasil com a força que teve na Europa, por exemplo. Essa condição de carência foi atropelada pela emergência da cultura digital que, tal como anteriormente à cultura de massas, em especial a televisão, está tendo penetração intensa.

Além disso, que os novos consumidores, ou melhor, prossumidores, estejam conectados, não há dúvida, mas que sejam necessariamente críticos, tenho as minhas dúvidas. Basta ver quanta bobagem rola pela internet. Esta é uma terra de todos e de ninguém. Há nela tanto conteúdos preciosos quanto o lixo mais descartável. Mas quando falamos das redes digitais do que é que estamos falando? Trata-se de um mundo extremamente complexo, com uma diversidade de faces, por exemplo: as redes sociais, os blogs, as wikipedias, os serviços de busca que nos levam a quaisquer informações que buscamos.

Certamente esse universo está gerando um novo tipo de leitor que chamo de imersivo e, agora, com os equipamentos móveis, esse leitor passou a ser ubíquo, leitor de prontidão em qualquer lugar e a qualquer hora. Entretanto, quando comparamos essa nova situação com o livro impresso, nesse âmbito, temos que nos deter nas transformações pelas quais o próprio livro, antes impresso ou ainda impresso, vem passando quando transposto para o digital. Há vários formatos de livros digitais, desde a simples transposição do impresso ao digital, até os livros que exploram todo o potencial para a hipermídia, mistura de linguagens, que o digital possibilita. Creio que o mercado editorial está alerta a essa fase de transição que estamos atravessando, em que o livro impresso ainda continua vivo e vem se complementando com suas variadas formas digitais. Vivemos um momento em que, em todas as áreas de comunicação, devem ser encontradas estratégias para conviver com essa fase de transição entre o impresso e o digital.

No paradigma predominante até o século passado, o livro era uma espécie de contêiner de informação e conhecimento. Mas atualmente encontramos tudo o que precisamos durante alguns minutos de navegação; as pessoas estão mais autodidatas do que nunca. Qual o impacto dessa mudança no ensino e aprendizagem mediados pelo livro?

Sim, o livro era um contêiner de informação e conhecimento, mas nem por isso, menos imprescindível. Tão imprescindível que seria impossível especializar-se em um assunto sem a continuidade e crescimento da complexidade da informação que o livro possibilita tão logo ele encontre um leitor concentrado. Sim, encontramos tudo que precisamos nas redes, mas desprovido de sistematização. Navegar pelas redes enseja outra forma de conhecimento. Ou a rede é meramente informativa para assuntos imediatos ou, então, a informação fragmentada que ela nos fornece apenas ajuda a incrementar informações que obtemos em livros. Por isso mesmo, tanto quanto posso ver, o livro é eterno, especialmente para a informação especializada. Entretanto, quando falamos em livro, não devemos considerar que livro é necessariamente impresso. Livros digitais continuam a ser livros e a cumprir funções que o livro sempre desempenhou. Em suma: livro é um modo de configuração da informação, esteja ele no impresso ou no digital.

A relação entre autor e leitor sofreu profundas alterações com o advento do livro digital. Hoje é possível um diálogo direto entre os dois, não apenas por conta do selfpublishing, mas também pelos laços criados nas redes sociais. O que essa relação direta representa para a indústria editorial? Isso pode minar a importância das editoras, agentes e livrarias?

As relações mudaram, mas nem por isso, autor continua sendo autor e leitor continua sendo leitor, com a diferença de que agora essas posições são comutáveis. O leitor pode interferir, comentar sobre a informação que recebe e tem meios de se transformar em autor ele mesmo, pois há plataformas que facilitam isso. Os laços criados nas redes sociais são voláteis, pássaros voadores e migrantes. Quanto às informações que as redes trazem, elas variam entre trivialidades do cotidiano, quando as redes funcionam mais como fluxos de trânsito da afetividade, ou elas fornecem links de informação. Longe de minar a importância das editoras, agentes e livrarias, esses links ou mesmo simples posts de compartilhamento podem estar incrementando a tarefa do editor e do livreiro, ao divulgarem obras gratuitamente. Veja-se, além disso, o que as editoras ganharam com sites especializados e com sites de vendas, de livros impressos.

Mudando um pouco de assunto, você também se dedica ao estudo de jogos eletrônicos, um mercado que avança a passos largos sobretudo devido ao aumento nas vendas de smartphones e tablets. O livro digital pode perder importância devido à maior qualidade técnica e narrativa dos games, e seu poder de transmitir símbolos e construir linguagens?

Quando falamos de livro digital, não podemos limitar esse livro à mera transposição do livro impresso para o digital. Embora essa forma de livro seja perfeitamente válida, há formas de livros digitais mais incrementadas, mais hipermidiáticas. Imagine estar lendo um livro de física e ter, no próprio livro, o acesso a uma demonstração de um experimento. Isso enriquece sobremaneira e torna vivas as velhas ilustrações dos livros impressos. Pode haver livros digitais em formato de games. É o que está sendo chamado e gamificação, a estrutura do game e suas propriedades não necessariamente em um game. Não podemos mais pensar as coisas em gavetas; livros impressos em uma gaveta, livro digital em outra, games em outra. Com a cultura digital tudo se tornou líquido, as mídias e as informações que elas transmitem interpenetram-se, complementam-se.

A interatividade tem um grande poder de provocar o aprendizado, o que representa outra vantagem para os games. As instituições de ensino deverão passar a adotar gradativamente o uso de jogos de maneira educativa e lúdica?

As pessoas que estão preocupadas com a educação na era digital estão introduzindo a função lúdica dos games no aprendizado. Com o advento dos tablets, os livros didáticos serão os primeiros a desaparecer. Isso porque o conteúdo didático, com seus exemplos, ilustrações e transposições adequa-se muito bem aos formatos digitais. Para disciplinas que trabalham com resolução de problemas, não há nada mais apropriado do que adaptar o material pedagógico para um game.

Perfil
Lúcia Santaella ocupa um papel de destaque na pesquisa em Semiótica no Brasil. Doutora em Teoria Literária pela PUC/SP, ela já publicou aproximadamente 40 títulos, muitos dos quais são apontados como obras de referência em diversas áreas do conhecimento. Também se dedica à pesquisa e extensão em tecnologia como fundadora do CS Games, grupo de pesquisa dedicado ao estudo de Games e Semiótica da mesma universidade. Leciona diversas disciplinas na Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP/FGV).