Simplicidade e minimalismo para bons livros infantis

imagem: divulgação/4º Congresso CBL |

A mineira Ângela Lago escreve para crianças no Brasil desde a década de 70. Sua competência vai além da escrita: seu cabedal de talentos abrange sobretudo artes visuais e programação, e o domínio dessas linguagens permite que ela escreva livros infantis sem utilizar uma palavra sequer. Durante dez anos, entre 1975 e 1985, ela dirigiu seu próprio atelier de programação visual para publicidade. Sua formação em psicopedagogia e o trabalho junto a crianças com dificuldades psiquiátricas lhe forneceu o ‘toque’ necessário para escrever títulos para esse público. Desde que começou a se envolver com computadores, aprendeu a manejar softwares para a criação de animações simples, sobretudo o detestado Flash, seu parceiro até hoje.
Suas críticas em torno das ferramentas atuais de construção e leitura de livros digitais gravitam em torno da complicação necessária para tornar o livro digital um formato similar ao impresso com alguns recursos a mais. Acima de tudo, Lago dispara contra os aplicativos para leitura de eBooks que desmontam todo o planejamento visual do livro cuidadosamente criado pelos autores e editores e permitem que o próprio leitor personalize fontes, alinhamento. “Surge a figura do diagramador para sempre fracassado”, criticou, durante o 4º Congresso Internacional do Livro Digital.

Conheça alguns livros
de Ângela Lago

Psique
Cultura
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A visita dos 10 monstrinhos
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O caixão rastejante e
outras assombrações de família

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Livraria da Travessa
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João Felizardo, o rei dos negócios
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Saraiva
Submarino
Livraria da Travessa

“Quando trabalhamos para a criança pequena, temos que levar em conta a dificuldade que ela tem de seguir a história soletrada pouco a pouco”, acredita. “No trabalho que desenvolvo no momento para tablets, procuro fazer com que a criança siga a linha de leitura com o dedo”, explica Lago. Veja abaixo a entrevista exclusiva.

Os livros digitais infantis têm o potencial de explorar não apenas um universo de imagens e cores para estimular a imaginação, mas também de interatividade e movimentos. Como você enxerga essa mudança? Você já desenvolve trabalhos para livros exclusivamente em formato digital?

O livro de imagens já é um campo de experimentação. No livro de imagens impresso somamos o texto e imagem ao próprio suporte que é o livro. Podemos usar o ângulo da página na construção dos desenhos. Colocamos na dobra da folha o ângulo mais profundo de uma perspectiva, por exemplo. Ou usamos a passagem da página como um corte na narrativa.

Mas a animação e a interatividade modificam substancialmente a possibilidade de narrarmos histórias. Desenvolvi algumas animações interativas que estão disponíveis no meu site. São trabalhos anteriores ao surgimentos dos tabletes e e-readers. Com essas animações tentei compreender o que as novas mídias me ofereciam enquanto narradora.

Passei também um livro impresso para o Kindle, em um momento que este suporte não mostrava nenhuma simpatia com os diagramadores e ilustradores. As possibilidades da época eram tão pequenas, que, apesar de todo meu esforço, o resultado ficou bem aquém ao do livro impresso. Conto as dificuldades em um blog.

Mas parei de publicar nesse blog, ainda falando com esperança no programa Flash, quando ele já estava sendo banido… Por sinal agora volto a ele, ao programa Flash, graças à facilidade de converter seus arquivos para HTML5.

Quais são as particularidades da produção de ilustrações para livros digitais infanto-juvenis? Você acredita que a função do livro infantil não é apenas pedagógica, mas também de envolver e de fazer parte da vida da criança?

Não desdenho a parte pedagógica. Sempre aprendemos. Inclusive os romances ensinam. Descrevem uma época. Ou a psicologia de um comportamento ou personagem. Quando trabalhamos para a criança pequena, temos que levar em conta a dificuldade que ela tem de seguir a história soletrada pouco a pouco. Oferecemos uma ilustração que de alguma forma constrói um mapa visual para que ela possa entender e lembrar o que foi lido.

Ler exige concentração e às vezes esforço. É por isso que é tão importante que o livro seja atraente, ou divertido, e sempre coerente e cheio de sentido. Quando penso nas novidades que o tablet veio trazer para a narrativa, penso muito no caráter pedagógico que ele oferece junto com a interatividade.

No trabalho que desenvolvo no momento para tablets, procuro fazer com que a criança siga a linha de leitura com o dedo. As letras se transformam em animais. Nada que não seja comum. O “M” se desenha como um macaco e faz esse som. Mas quando o dedo se aproxima da próxima letra, um “U” de urubu, por exemplo, as duas se unem, se casam, se beijam, e fazem o som da sílaba. E daí em diante. Assim, mesmo a criança que ainda não sabe ler, quero crer, lerá.

A última investida ousada em termos de forma e design do livro infantil foi empreendida por Lothar Meggendorfer no início do século 20, quando ele criou obras em três dimensões utilizando cortes e dobras – o pop-up book. As novas tecnologias proporcionam ao artista a possibilidade de criar novos avanços na área de design de livros infanto-juvenis no meio digital?

Obrigada por lembrar de Lothar Meggendorfer, cujo trabalho é tão encantador. Mas você sabe que, para mim, mais que os livros "pop-up”, é ousada a consideração de que o livro tem de qualquer forma três dimensões? Acho mais importante a apropriação dessa terceira dimensão por autores-ilustradores como Maurice Sendak. Sendak não desconsidera sequer a dimensão tempo, quando divide de forma sagaz a leitura pelas páginas. Mas talvez os iluministas já soubessem tudo isso, não é?

Agora sim temos que aprender marcar a dimensão "tempo" de uma maneira diferente para as novas mídias. Temos que aprender a manusear o ritmo da leitura. E, em vez de passar páginas, aprofundar em camadas de leituras superpostas. Ou que se abrem em ramos diferentes, como uma árvore. Com o som e as animações que possibilitam uma economia grande de texto, chamamos leitores cada vez mais jovens. Temos de verdade uma "Biblia Pauperum", um livro para leitores ainda não leitores.

Na tua visão, o futuro dos livros digitais infanto-juvenis convergem para os jogos digitais, histórias interativas?

A história interativa para o menino de três, quatro, cinco anos me interessa muito. Como são trabalhos menos extensos posso desenvolvê-los sozinha, o que é muito confortável. Talvez acabe fazendo também uma história-game, que já tenho desenhada e que não tem um público com idade determinada. Mas para este projeto terei que trabalhar em equipe.

Também me interessa o fato de ter acesso a textos, como leitora, que não pesam nos braços e não ocupam espaço nas estantes. Estamos diante de um mar de possibilidades diferentes. Vamos ver quais seguirão com o nome de livros.

Perfil
Ângela Maria Cardoso Lago, nasceu em 1945 em Belo Horizonte (MG). Sua primeira formação superior foi em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG) em 1968, tendo experiência internacional especializada em Psicopedagogia infantil. Em 1975 inaugurou seu próprio atelier de design publicitário, que manteve durante os dez anos seguintes, ao mesmo tempo em que escrevia. Ilustradora dos próprios contos, Lago publicou sucessos editoriais como Festa no Céu e Sangue de Barata, além de ilustrar livros de outros autores nacionais e internacionais.

Enviado especial pelo Revolução eBook