[Resenha] Dorgas, sofá vermelho e as trips de Epaminondas

Sofá vermelho... se é que você me entende... A propósito, você precisa conferir esse ensaio fotográfico |

Ao ler Das trips, coração, do escritor alagoano Dau Bastos [já falei sobre ele aqui e aqui] fui conferir a data de publicação. 1984. Cambaleante, o aparelho da censura ainda existia, sem falar na resistência da sociedade ao abordar temas até hoje espinhosos. Como o livro foi publicado, se foi um sucesso ou um fracasso de vendas, não sei bem. Mas, além de ser o primeiro, é um dos melhores livros de Dau Bastos.

A história se passa no fim da década de 70. O jovem Epaminondas (Pá) sai da minúscula cidade fictícia de Renitência, no interior de Pernambuco, para concluir o ensino médio em Recife. A transição simbólica – não só de cidades, mas de etapas da vida – é a fuga de Epaminondas de uma vida absolutamente sem perspectivas. A economia brasileira na época era pouco interiorizada, de modo que o futuro dos jovens pouco tinha de surpreendente – isso até a chegada da televisão no lugarejo.

"Em Renitência os hábitos mudavam menos velozmente que as tartarugas"

Só para ilustrar, o substantivo renitência significa teimosia, obstinação cega. Só para ilustrar²: trip, do inglês, significa viagem.

Na capital, Epaminondas vive em um quarto no convento – fingindo vocação religiosa –, onde conhece o frei homossexual André, uma espécie de guia na transição de Pá. Apesar de a disposição sexual de André ser conhecida, ele era tolerado no convento, talvez pela acreditada possibilidade de conversão. Por sua vez, André não saberia sobreviver fora daquelas paredes, com um emprego e contas a pagar.

"— É uma pessoa muito sofrida... Marcado pela vida... Com problemas desde a infância... Todo cristão tem de dar atenção aos outros, assim Jesus ensinou. Mas há pessoas perto de quem a gente deve ter cuidado, pois às vezes, mesmo sem querer, servem a Satanás"

Talvez, pela ótica religiosa, não houvesse exagero. Para o amigo sair do convento, André põe em palavras motivos falsos numa carta endereçada ao pai e avó de Epaminondas – porém assinada pelo próprio. Alegando vocação para medicina ou engenharia, e não teologia, consegue uma mesada de dois mil cruzeiros para viver num pensionato e continuar no colégio particular da Congregação, onde estudava a fina-flor de Olinda.



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Ao sair do convento, passa a ter contato pleno com o mundo. Sem regras nem mediadores, se entrega às paixões, experiências e amizades, passa a ter consciência do próprio corpo e de seus desejos. Tudo isso se traduz na metáfora do "sofá vermelho", único lugar onde o personagem, ainda em Renitência, tinha contato com o resto do mundo, seja pela televisão ou pelos livros. Em parte, a história de Pá se parece com a do próprio autor, declarada no prefácio do livro.

Bastos consegue mesclar o discurso indireto livre com o discurso direto, marcado por travessões. Cabe ao leitor identificar a necessidade de cada um: para falas e pensamentos simples, indireto livre. Para diálogos mais extensos ou apenas uma única fala mais comprida, direto. Dentro da narrativa, conseguem cumprir seu papel de deixar o texto fluido sem prejudicar a compreensão do leitor. Porém quem não está acostumado ao discurso indireto livre pode ficar confuso nas primeiras páginas. Já a linguagem é leve, jovial, até mesmo coloquial, escrita quase da mesma maneira como se fala, sem floreios.

A história vai parecer bem familiar para aqueles que, como eu, passaram uma temporada fora de casa para estudar. É como um segundo nascimento, a redescoberta e ressignificação de todas as coisas à luz da falta de grana e da incerteza do que vai ter para o almoço. Ainda assim seguimos construindo nosso próprio futuro, cada vez descobrindo mais sobre a vida e sobre nós mesmos no meio das espinhosidades.

"Ser jovem é ter integral respeito por si mesmo, de tal maneira que não há mais nada a destruir ou enfrentar, pois se investe toda a energia na construção dos próprios sonhos".