Por que eu fiz oficina de literatura [e você deveria fazer também]

Antes de tudo rola um cafezinho |

Literatura ocupa minha preferência há um bom tempo. Quando cursava a sexta série, há uns bons 17 anos, cheguei da escola, peguei um livro de contos de fadas [tenho até hoje] e passei a tarde lendo. Era como uma série da Netflix: terminava uma história e não conseguia parar antes de ler a próxima. Também já sabia bem o que eu queria da vida: qualquer coisa que me permitisse escrever. Escolhi ser jornalista.

Nos anos seguintes conheci Julio Verne. Meu pai trocara, muito tempo antes, um violão por uma coleção de livros do francês. Fui lendo de um por um. Todas essas experiências ajudaram a moldar a minha escrita. Comecei a me achar bom demais, principalmente numa cidade onde o incentivo à leitura e escrita não é lá muito prioritário. Hoje leio os textos que escrevi quando estava na universidade [alguns publicados aqui no Livreiro Nômade] e sinto um pouco de vergonha. Ler e escrever no meu mundinho apenas não era suficiente para uma evolução satisfatória. Chega uma hora em que são necessárias outras experiências e aprendizados.

Ano passado me inscrevi em uma oficina de criação literária. O instrutor é o escritor paranaense Sandro Retondario, que passou pelos círculos do célebre Raimundo Carreiro. Durante uma jornada que durou oito meses, senti como se minhas competências estivessem sendo afiadas, amoladas, conheci outros escritores, tive contatos com pessoas que, como eu, também precisavam de uma pedra. Pela primeira vez em muito tempo não me senti isolado como escritor, pude ter meus textos lidos e analisados por quem entendia todo o processo. Mas desenvolvi também outra competência fundamental: a leitura.

Um colega comentou comigo: "de quinze alunos de uma oficina literária, saem dois ou três escritores. Mas todos os quinze se tornam melhores leitores". Não é por acaso. Estudamos técnicas narrativas, construção de personagens, figuras de linguagem, analisamos textos de escritores clássicos e depois colocamos tudo isso em prática. Cada participante de uma oficina está lá por motivos diferentes, e nem todos têm tempo, disposição ou vocação para se tornarem escritores. Talvez no fundo nem todos desejem isso. Mas seguramente todos se tornarão leitores competentes, capazes de divisar a estrutura e a forma de um texto literário, não apenas o conteúdo per se. Coisa que poucos leitores sabem fazer.

O compartilhamento de experiências é uma vantagem à parte. Qualquer um pode se achar bom escritor por concatenar duas ou três ideias com algum senso estético, mas sua habilidade será posta à prova ao ser confrontada com a de outros potenciais escritores. No começo é um pouco doloroso para a vaidade, mas superada essa etapa, compreendemos que cada crítica é construtiva.

[...] a escrita nos dá o poder de interferir diretamente na realidade em que vivemos, de contar o que acontece conosco e ao nosso redor – basta lembrar da escritora Carolina de Jesus.

No Brasil não há uma tradição muito forte de oficinas de literatura. A Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) realiza, há 30 anos, uma oficina liderada pelo escritor Luiz Antônio de Assis Brasil. no Rio de Janeiro, Dau Bastos criou a oficina Contos do Fundão; Raimundo Carreiro conduz a oficina mais conhecida de Recife. O também pernambucano Marcelino Freire lidera um projeto itinerante, o Quebras, que já passou por várias cidades brasileiras. Em João Pessoa, há a oficina de Sandro Retondario, realizada em parceria com a Energisa, e de Archidy Picado Filho, que acontece na Funesc. Devem existir outras; se o leitor conhecer, peço que compartilhe nos comentários.

Nos Estados Unidos, a formação de laboratórios de literatura ou escrita criativa teve início entre as décadas de 30 e 40 do século passado. O Program in creative writing, da Universidade de Iowa, foi lançado em 1936, dirigido por Wilbur Schramm e, a partir de 1941, por Paul Engle, que passou três décadas à frente do projeto. Por lá já passaram diversos escritores de renome. Cada ciclo dura pelo menos seis meses, durante os quais são realizados workshops, conferências, seminários e outras atividades. Os brasileiros João Gilberto Noll, Affonso Romano de Sant'Anna e Charles Kiefer já passaram por lá. Hoje, várias universidades norte-americanas têm um programa de escrita criativa. O Associate Writing Programs (AWP), da George Mason University, funciona desde 1967 e tem 320 subsidiárias em escolas e outras universidades. O programa realiza inclusive concursos literários com prêmios de até US$ 10 mil e garantia de publicação das obras.

Outros países da Europa e os vizinhos da América Latina também contam com programas de referência em desenvolvimento de talentos literários.

Existe a queixa de que no Brasil a cultura de ler é incipiente e praticada por poucos. Sim, temos uma educação cambaleante, necessitada de recursos e de natureza ainda fortemente conservadora. Sim, a educação – e a leitura – ainda é vista como um meio para algo, e não um fim em si. De que serve ser um leitor melhor? Isso vai aumentar o ordenado no fim do mês, ajudar a pagar as contas? Oficina de Literatura não é um curso técnico. A leitura pode não resolver nossos problemas de imediato, mas nos dá ferramentas para contemplar esses problemas de diferentes ângulos. E a escrita nos dá o poder de interferir diretamente na realidade em que vivemos, de contar o que acontece conosco e ao nosso redor. Basta lembrar da escritora Carolina de Jesus, autora de Quarto de despejo, que foi capaz de subjetivar sua própria realidade e escrever um livro memorável, que trouxe a favela para a sociedade, mesmo vivendo na miséria. Nas palavras da poetisa norte americana Muriel Rukeyser, "o universo é feito de histórias, não de átomos".