“Escrevo para gerar identificação”


12 anos. Foi nessa idade que o gaúcho Pedro Guerra desistiu de ser astronauta e decidiu ser escritor. Duas carreiras bem diferentes, mas bem parecidas. Poucos astronautas são escritores, mas qualquer escritor pode ser astronauta. Basta sentar e deixar as ideias fluírem. Foi que que ele fez. "Não sei dizer exatamente de onde veio o sonho, a vontade... Mas sei que isso nasceu comigo", conta.

23 anos. O quarto livro do jovem escritor foi lançado no início de junho. Com 12 mil pessoas seguindo sua fanpage e se engajando ao máximo em cada postagem, Pedro Guerra sabe o que é escrever para um público – menos como estratégia editorial e mais como forma de se expressar para adolescentes, que enfrentam as mesmas dúvidas, tensões e angústias. Transita em vários estilos literários e manuseia bem as ferramentas digitais. Seu primeiro livro foi publicado em um blog. Seu site conta com uma área onde os leitores podem mandar fotos com o livro Precisava de você, uma maneira de gerar engajamento e vender. O público é tão cativo que são comuns pedidos de casamento nos comentários dos posts no Facebook.

Conheça um pouco mais do escritor Pedro Guerra.

Livreiro – Como e quando você decidiu ser escritor? Houve influência de pais, professores, amigos, ou só vontade mesmo?

Pedro Guerra – Decidi ser escritor quanto tinha 12 anos. Até essa idade, eu queria ser astronauta. Acho que ambas as profissões são difíceis, mas ser astronauta seria mais difícil. Houve influência em minha carreira como leitor por parte dos meus pais, que sempre leram muito. Tive de consolidar esse caminho antes de trilhar qualquer coisa no ramo da escrita em si. Não sei dizer exatamente de onde veio o sonho, a vontade... Mas sei que isso nasceu comigo.


Pelos livros escritos até agora, você demonstra transitar entre os gêneros policial e romântico. Isso vem das suas influências literárias?

Gosto de experimentar. Seria muito fácil sempre fazer mais do mesmo, e realmente seria bem sem graça. Eu não gosto de ter preconceitos na literatura, por isso mesmo leio de tudo. Acho que é o caminho se eu quiser ser lido de volta. Leio desde Agatha Christie (minha primeira influência), até John Green e Meg Cabot. É preciso saber o que os adolescentes estão lendo caso queira escrever para eles. Os nacionais também estão nas minhas listas.

Teu primeiro livro, O menino debaixo da minha cama, foi publicado na internet quando você tinha menos de 20 anos... e ainda hoje suas narrativas se "estendem" pela internet, busca interatividade. Porque essa estratégia de publicação?

Não sei se considero como uma estratégia, pois sempre foi o que eu realmente gostei de fazer. Quer dizer, eu sempre estive em contato com os adolescentes e escrevi para eles. Esse meu blog (o Resultados) surgiu em 2009, e posteriormente migrou para o nome atual, Santa Cretinice (cretinos e santos somos todos). Desde lá, compartilho meu dia a dia com esse público na intenção de mostrar que sou um adolescente tão normal quanto eles, cheio de sonhos e expectativas. E é bom ver que leitores antigos perduram até hoje, crescendo comigo e construindo esse caminho ao meu lado. Atualmente, migrei meu trabalho para a página do Facebook, pois é preciso estar onde o seu leitor está. Eu amo fazer isso! Ter essa liberdade, poder dialogar, falar a mesma língua... Escrevo para gerar identificação.

Você não só escreve histórias, mas as escreve para um público específico, mulheres jovens e adolescentes, que são as que mais leem. Você já iniciou a carreira com esse intuito, ou só percebeu depois que tua escrita tinha essa vocação?

Não... Comecei escrevendo com 12 anos e na verdade eu compunha músicas (para a garota do colégio que nunca leria). Foi meu jeito de começar. Depois, quis porque quis escrever um livro. Graças a Deus minha mãe jogou meu manuscrito no lixo (sem intenções, é claro). Eu não estava pronto, definitivamente. Foi essa rápida decepção (eu já tinha metade de um livro escrito) que me fez ver que precisava ler bastante antes de escrever. Sempre pendi para o policial, gosto do fator morte, porém meu primeiro livro "de verdade" foi inteiramente um romance adolescente. É bom ver que hoje eu consigo mesclar tudo isso: lancei recentemente Precisava de você, que tem trilha sonora/música-tema. Isso vai de encontro às músicas que eu escrevia lá pelos meus 12 anos. Acredito que o escritor tenha que ser multifuncional, especialmente se estiver lidando com o público adolescente. É preciso se reinventar, assim como em qualquer profissão. E eu não gosto de rótulos. Quer dizer, não sou um autor policial ou um romancista. Eu sou escritor. Se eu tiver vontade de escrever um livro de fantasia, então será nisso que eu apostarei todas minhas fichas.

Como funciona teu processo criativo, desde a escolha do tema, até o tratamento literário e escrita?

É um caos! Tento me organizar, mas quando uma ideia chega, tudo vem em descontrole. É preciso ligar isso com aquilo, juntar as partes. Eu tive a ideia de fazer um romance policial onde a rainha da Festa da Uva, que é um evento muito grande da minha cidade, fosse assassinada antes de receber a sua coroa. Então eu sentei para estudar sobre o evento, li uns 13 livros. Entrei totalmente nessa espécie de laboratório que eu julgo tão necessária, afinal é preciso ter propriedade sobre aquilo que se deseja escrever. O livro deu certo, está chegando na quarta edição e é super trabalhado em escolas. Porém, depois disso, eu quis escrever um (des)romance, e aí surgiu Precisava de você, lançado nacionalmente. São processos diferentes e únicos. É preciso colocar muito cuidado e muito amor naquilo que se faz. E acreditar.

A propósito como você concilia isso com dois cursos universitários e outras atividades? Todos os dias você senta e escreve?

Costumo dizer que tenho 5 empregos. Além disso, estou me formando em jornalismo no próximo mês. Infelizmente não consigo sentar e escrever todos os dias. Escrevo meus livros rápido. Por exemplo, A Rainha está morta levou 3 semanas para ficar pronto. Precisava de você levou 2 meses. Então quando eu sento para escrever é porque a história já está pronta na cabeça, só falta passar para o papel. No dia a dia, o que eu escrevo são crônicas, poesias, fragmentos e pequenas frases que compartilho nas redes. É o que dá para o momento.

Quantos livros você já publicou até hoje? Já tem planos para o próximo, pode adiantar o enredo?

Lancei o meu terceiro, Precisava de você, na última semana. Antes, lancei Você pode guardar um segredo? em 2012 e A rainha está morta em 2013. Para o próximo, existem ideias martelando minha cabeça. Agora é o momento para sentar e planejar. E, claro, escrever.