A experimentação como chave para o sucesso em eBooks

imagem: divulgação/4º Congresso CBL |

Toni Brandão é experiente em experiências. Autor de livros voltados para o público juvenil, começou a criar livros interativos para computador em meados da década de 90, quando o Google era uma empresa de garagem, a Amazon vendia seus primeiros livros e a Apple estava caminhando para a falência. Pródigo em novas ideias para seus livros, Toni vive de buscar novas soluções que apliquem a tecnologia de maneira que torne a leitura uma atividade agradável, prazerosa, inclusiva e prática – como toda literatura deve ser.
Em um bate-papo pela internet, ele aponta que os eBooks lineares, sobretudo em formato PDF, que exploram pouco os recursos tecnológicos à disposição, não são ideais para que os jovens desenvolvam boas práticas de leitura. Mas esse ainda é o mercado que tenta gerar lucro para as editoras. “Acho que isso aí é uma coisa de mercado. É mais barato para as editoras fazerem assim. Esses projetos audaciosos são mais caros para uma editora formal”, explica.

Em 2013, em parceria com a Fundação Telefónica, Toni ajudou a recriar três livros da literatura brasileira clássica – Dom Casmurro, Memórias de um Sargento de Milícias e O Cortiço – em formato de eBook/videogame. Na entrevista abaixo ele explica como funciona esse tipo de leitura, e porque os autores e pequenos editores devem começar a apostar em formatos de leitura cada vez mais ousados.

"Acho bobagem essa coisa de uma mídia mata a outra. Mas nunca houve uma mídia tão generosa com o entretenimento como as tecnologias digitais, que misturam tudo."

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Qual a sua relação com o universo dos eBooks?

Como autor eu sou multimídia, sempre transitei por outras mídias. Há uns quinze anos atrás, eu fiz com a Editora Melhoramentos um CD-ROM de um livro meu que é exatamente um eBook, só que era em um CD. Eram três versões do livro, em inglês, português e espanhol. O leitor clicava a partir do conteúdo do livro para verbetes, hipertextos, e ia para uma área onde jogava. Isso foi um pouco depois de eu ter ido pra Frankfurt, da primeira vez que o Brasil foi homenageado. E eu tava vendo que tinha um pé na tecnologia, ainda mais nesse formato CD-ROM. Ninguém sabia muito bem onde isso ia dar, a internet era muito incipiente ainda. Na mesma época, um pouquinho depois, eu fiz para o Canal Zas (atual Terra), duas webséries, que eram os prenúncios dos apps. Uma delas (Crimes no Parque) era um livro de 20 capítulos que os leitores iam recebendo de uma maneira seriada – semelhante aos romances escritos no século 19 – e era um novo tipo de linguagem, de estrutura. Era para desvendar um crime, e também tinha uma maneira linear de acompanhar a história pelo "jornal" local. A partir daí tinha a área da polícia, algumas conversas telefônicas, um pouco de uma revista de fofoca, e o leitor tinha que desvendar um crime que era a morte de uma atleta no Parque do Ibirapuera. Isso foi em 1997. A outra novela que eu fiz para o Zas era mais audaciosa ainda, porque a gente usou tecnologia flash. Ela era menos interativa, mas era como se fosse uma HQ em animação em flash, e era super bacana.

Eu sempre fui um pesquisador das linguagens, e eu acho que de lá pra cá, sinceramente, a gente andou muito pouco no sentido de experimentação. Acho que o mais interessante não é fazer um PDF do livro, isso não tem nada a ver com o livro eletrônico porque não explora a linguagem digital, as possibilidades narrativas que esse tipo de linguagem oferece, que são basicamente duas: a não-linearidade da história e a interação do leitor com a história. Ele pode movimentar a história como se ele fosse um jogador. Acho que e eBook é um híbrido entre o videogame e o app. É nisso que eu aposto.

Recentemente eu fiz um projeto para a Fundação Telefónica que é a adaptação de Dom Casmurro, do Memórias de um Sargento de Milícias e d’O Cortiço. O leitor entra na história de Dom Casmurro, vasculha a casa, o quarto da Capitu, vai para o cemitério, vê as memórias de Bentinho. É um mergulho no universo de Machado de Assis, de uma maneira mais sensorial. Se o leitor não estiver satisfeito, pode ir ao escritório de Machado de Assis onde está disponível a contextualização da época, os outros textos mais "pop" de Machado. Além disso, há a obra integral, que é o tal do PDF, para ler o livro linearmente. Isso é uma coisa bacana para o nosso trabalho de contadores de histórias.

"Felizmente, matar o prazer da leitura enquanto você faz o ensino médio é algo que vai diminuir um pouco."

Você acha que vai existir uma convergência de livros eletrônicos para jogos digitais?

Para mim, a melhor maneira de ler um livro ainda é com o livro físico. Não tem aquela luz ofuscante da tela de leitura, o que incomoda muito, já que eu passo muitas horas lendo e trabalho em frente ao computador. Acredito que o livro em papel vai continuar existindo, bem como vai continuar existindo o rádio e a televisão. Acho bobagem essa coisa de uma mídia mata a outra. Mas nunca houve uma mídia tão generosa com o entretenimento como as tecnologias digitais, que misturam tudo. Eu posso até fazer uma peça ao vivo, com atores em Curitiba e outros na Espanha, ao mesmo tempo você pode interagir e acompanhar. Dá para contar histórias de mil maneiras. Acho que essa convergência é legal, favorável, e forma um tipo construído de leitor, o que é bacana. O leitor vai ler sem perceber que está lendo. A literatura formal engessa o leitor.

Na tua opinião, os jovens estão adotando mais o comportamento de ler em formatos digitais do que livros físicos?

Como autor de livros para jovens, há uma coisa que me incomoda. Vamos ilustrar um exemplo: primeiro o garoto ouve histórias, depois começa a ler histórias e a gostar cada vez mais de textos, tudo por prazer, onde ele se contextualiza, se reconhece, onde as angústias dele estão postas ali, tudo funcionando direitinho. Então o jovem chega à escola e escuta o seguinte: "esqueça tudo o que você aprendeu sobre o prazer de leitura. Você vai ter que ler 20, 30 clássicos que não têm nada a ver com a sua linguagem, não tem nada a ver com a sua maneira de olhar pro mundo, você não está presente nesse lugar”. Felizmente, matar o prazer da leitura enquanto você faz o ensino médio é algo que vai diminuir um pouco. Primeiro porque ler no computador já é mais agradável, inclusive com versões em quadrinhos. Se livros eletrônicos como as minhas versões de Dom Casmurro e O Cortiço estiverem disponíveis, acho que podem mexer bem com a vontade de ler do jovem.

"Cada vez mais eu percebo que as editoras estão mais interessadas em ousar, em criar, em fazer entretenimento sem deixar de fazer reflexão."

É verdade, mas o grosso do mercado de livros digitais é composto por ebooks lineares, mesmo em ePub. Isso vai mudar em um horizonte de tempo?

Acho que isso aí é uma coisa de mercado. É mais barato para as editoras fazerem assim. Esses projetos audaciosos são mais caros para uma editora formal. Tem que investir muito dinheiro para criar um livro que não é PDF, digamos assim. Paga a conta ou não paga a conta? Gastar R$ 40 ou R$ 50 mil, por baixo, com um livro digital bacana, vai dar quanto de retorno? As editoras num primeiro momento não conseguem fechar essa conta. Ou vai ter que ser feito em parceria, como foi o meu caso com a Fundação Telefónica, ou vai ter que ser uma iniciativa dos autores. Por exemplo, você é um escritor, teu amigo é um músico, tua namorada é programadora de computação e webdesigner. Vocês se juntam, criam uma plataforma de conteúdo, vendem o acesso a esse lugar por US$ 1 em vez de vender o livro a US$ 10. Isso pode atrair uma grande quantidade de leitores. O investidor, o criador individual pode ter o luxo dessa ousadia. Uma editora que vive de grandes vendas tem mais dificuldades em apostar todas as fichas nesse mercado. Isso vai ter que se mexer de alguma maneira.

Acredito que é preciso procurar maneiras de transformar o negócio. Eu já achei algumas, uma delas é essa que eu já falei: estou fazendo alguns projetos patrocinados pelas redes de incentivo, por fundações de estímulo à leitura. Outro exemplo é um livro que criei com a Editora Planeta, que é o DJ. Eles estão licenciando a marca para uma empresa que cria jogos de videogames para que eles desenvolvam também a versão eletrônica. Existe a versão em papel, com uma parte da história em quadrinhos, uma parte da história em texto linear, e uma outra empresa, que não é uma editora, vai fazer o jogo eletrônico, vai vender o jogo eletrônico e vai criar uma versão digital do livro. É outra maneira que eu encontrei.

Então nós estamos precisando de tentativas mais ousadas nesse sentido, tanto de autores quanto de pequenos editores?

É, eu acho que sim. As pessoas têm que ter tempo, vontade e um pouco de competência para fazer a coisa andar. É necessário saber usar e aplicar a tecnologia. Eu mesmo não entendo nada de tecnologia, só tenho competência para saber mais ou menos o que eu quero que aconteça, então eu preciso de um programador de computador. Esse cara, que é competente, se formou para isso vai me enquadrar e falar: “olha, isso aqui você não pode fazer. O que você quer fazer custa R$ 1 milhão, o que você pode fazer custa R$ 10 mil”. E eu vou pelos 10 mil, se puder pagar. Cada vez mais eu percebo que as editoras estão mais interessadas em ousar, em criar, em fazer entretenimento sem deixar de fazer reflexão. Então é só achar o jeito.

Você pensou em trabalhar com a Amazon ou com a Apple?

Já, eu acho super bacana. Na verdade o que eu não tive ainda foi tempo para criar um projeto que eu não comprometesse com uma editora. Eu já estou com compromissos assumidos com as editoras de um ano, dois anos pra frente. Eu gostaria muito de fazer um livro que começasse como um jogo e depois virasse um conteúdo não-linear e fosse comercializado; isso que eu estou fazendo com o DJ mas pelo contrário. Faço o jogo, depois vou vendendo conteúdo com as histórias e personagens. Isso é legal. Também tem a possibilidade de lançar em chinês ou em inglês. Existem várias possibilidades.



Perfil
Toni Brandão é escritor multimídia com mais de 20 livros publicados ao longo de sua carreira, que venderam mais de 2 milhões de cópias. Seus projetos transitam entre TV, internet, livros impressos, teatro e CR-ROM. Além de ter conquistado alguns importantes prêmios literários, fez adaptações de suas próprias obras para o teatro e para a Rede Globo: a série Irmãos em ação é uma adaptação do livro Foi ela que começou, foi ele que começou. Também trabalhou na adaptação da série Sítio do pica-pau amarelo e As aventuras de Zeca e Juca.