Uma extensa conversa com Dau Bastos


Encontrei Reima numa estante de livraria em João Pessoa. Jamais ouvira falar no autor, mas vi que o romance se situava no Rio de Janeiro e quis presentear um amigo carioca. Na promoção, o título custava só 13 reais, comprei outro para mim. Foi a primeira vez que conversei com o alagoano Dau Bastos, escritor com trinta anos de carreira e professor de Literatura Brasileira da UFRJ. Escrevi sobre o livro aqui no blog.

Sua primeira incursão na literatura foi com o romance Das trips, coração, onde narra a vivência de um jovem egresso da pernambucana Renitência que vai estudar na metrópole de Recife. Os conflitos sexuais e morais relatados na história ainda fazem sentido hoje. De lá para cá, foram mais quatro romances, três novelas infanto-juvenis, uma biografia de Machado de Assis e três ensaios, além da produção acadêmica e editorial (traduções e edições).

Sua obra é marcada por suas próprias vivências e observações sobre os diversos aspectos da sociedade. Embora seus personagens tenham mil facetas, vez por outra é possível discernir quando o autor encarna e emite ali suas opiniões, bem no meio da narrativa. “As investidas contra o pensamento de direita e o mau gosto literário integram uma lista imensa de ataques que nem sempre tenho coragem de fazer ou, pelo menos, não de forma tão contundente”, confessa Bastos.

Pode parecer uma pretensão exacerbada por parte do autor. Mas Bastos tem muito a dizer. E gosta de usar muitas palavras para isso. Destaco abaixo alguns pensamentos que pincei de seus livros.

“Mas nessa tarde percebia, era tolice, lembrava até do delirante pensador dizendo, ser jovem é ter integral respeito por si mesmo, de tal maneira que não há mais nada a destruir ou enfrentar, pois se investe toda a energia na construção dos próprios sonhos” (Das trips, coração)
“Como ente da literatura, eu pensava na besteira desses escritores com a cachola tão marcada pelo consumo de thrillers que acreditam que criar é inventar histórias mirabolantes, quando o desafio é alar a linguagem” (Mar negro)

O desafio seguinte, proposto pelo autor a si mesmo, é regressar à região de origem, o Nordeste, em suas narrativas. Nas palavras do próprio, um “mergulho de cabeça”. Num momento em que a região ganha cada vez mais protagonismo econômico e cultural, uma reedição do regionalismo literário que marcou o movimento modernista, Dau deverá lançar em breve um romance ambientado no final dos anos 60 e genuinamente nordestino, intitulado Morte certa. “A melhor maneira de fundir ética e estética é privilegiar meu torrão natal em minhas narrativas”, afirma.

Conheça todas as revelações de Dau Bastos sobre sua vida e obra na entrevista abaixo.

Livreiro – Primeiro fale um pouco sobre tua vida: onde nasceu, quando começou a tomar gosto pela leitura e que caminhos percorreu até a escrita do primeiro livro.

Dau Bastos – Nasci em Maceió, mas só vivi na capital alagoana até os cinco anos de idade, quando minha família se mudou para uma fazenda no município de Boca da Mata. No campo, a falta de escola levou minha própria mãe a nos ensinar os rudimentos de matemática e português. Por conta disso, as diferentes atividades ligadas ao saber – a começar pela leitura – passaram a se associar ao carinho materno, o que foi altamente estimulante. Em aparente paradoxo, porém, comecei a gostar de escrever quando já não era um aluno exemplar, e sim um adolescente em crise com o ensino médio, concluído, a duras penas, no Colégio São Bento de Olinda. Por essa época, enviei um arremedo de artigo para um jornal anarquista baiano chamado Inimigo do Rei e, ao vê-lo publicado, passei do pasmo por terem me levado a sério à decisão de continuar escrevendo.

Pouco depois, participei da criação do Teatro Universitário Boca Aberta (TUBA), da Universidade Católica de Recife, e, percebendo minha total incapacidade de fazer algo que prestasse no palco, experimentei a dramaturgia: redigi uma peça tão panfletária e mal-ajambrada que não arrancou elogio nem mesmo dos amigos mais próximos, portanto foi devidamente engavetada.

Aos dezenove anos, me mudei para o Rio, onde tive a sorte de trabalhar numa revista alternativa chamada Rádice, cujo editor, Carlos Ralph, me mostrou que as pessoas que se dispõem a publicar têm o dever de reescrever à exaustão seus textos. Posteriormente, essa publicação se desdobrou no Luta & Prazer, hoje estudado como periódico anarquista e, no início dos anos oitenta, um espaço em que pudemos brincar tanto com a linguagem que ultrapassamos os limites do jornalismo e caímos naquele vazio libertador entre significado e significante.

Para chegar à literatura faltava apenas um passo, que dei ao ver o projeto falir definitivamente, quando parti para produzir meu primeiro romance, Das trips, coração (1984), no qual me senti plenamente à vontade para trocar o fato pela ficção.

Livros e ensaios

Clandestinos na América
romance/ficção
Cultura
Saraiva
Travessa
Folha
Amazon

Reima
romance/ficção
Cultura
Saraiva
Travessa
Amazon

O fino da erva – a canabis
como ela é

ensaio/não-ficção
Cultura
Travessa
Saraiva
Amazon

Luiz Costa Lima – uma obra
em questão

crítica literária
Cultura
Saraiva
Travessa
Folha (ebook)
Amazon

Monografia ao alcance de todos
acadêmico 
Cultura
Saraiva
Amazon

Machado de Assis – num
recanto um mundo inteiro

crítica literária
Cultura
Saraiva
Travessa
Amazon

Papos contemporâneos
crítica literária 
Cultura

Celine e a ruína do velho
mundo

crítica literária 
Cultura
Travessa
Amazon

Mar negro
romance/ficção
Cultura (ebook)
Saraiva
Amazon (ebook)

Só meu pai sente saudade
infantil 
Amazon

Das trips, coração
romance/ficção 
Estante virtual

Snif
romance/ficção 
Estante virtual

O ins nunca esteve tão alegre
literatura infantil
Estante virtual

Você costuma ambientar seus romances em vários biomas diferentes. Clandestinos na América (2005) se distribui pelo Brasil, o México e os Estados Unidos. Em Reima (2009), um dos personagens brasileiros é íntimo da Paris urbana. Mar Negro (2014) se passa basicamente no Leste Europeu. Como você constrói esses ambientes? Visitas in loco, pesquisas ou conversas com quem esteve lá?

Acho importante o ficcionista ambientar suas histórias em lugares que tenha visitado e, se possível, conhecido para além do mero turismo. Agora, tive as mais diferentes relações com as localidades estrangeiras presentes em minhas narrativas.

Dos dois países percorridos pelos personagens de Clandestinos na América, conheci os Estados Unidos em 1986, quando, durante seis meses que pareciam não acabar mais, paguei um curso de inglês com o que ganhava como busboy (assistente de garçom) na mortalmente enfadonha Washington DC. Quanto ao México, devo confessar que frequentei apenas pela internet. Acontece que dediquei tanto tempo a vasculhar sua história, conhecer seus habitantes e curtir suas paisagens que no ano passado finalmente tive oportunidade de passar dez dias em sua capital e fiquei aliviado de perceber que não mudaria nenhuma das descrições do livro.

Na capital francesa, passei quase quatro anos, distribuídos pelas décadas de oitenta e noventa. Da primeira vez, era um mochileiro duro, me arranjando em quartos alugados e casas de amigos, a pagar as contas com a merreca do trabalho de baby-sitter, que, em contrapartida, me dava tempo para circular bastante e tocar a escrita de meu segundo romance, Snif (totalmente ambientado no Rio e lançado em 1987). Posteriormente, voltei a Paris para fazer um doutorado-sanduíche na Sorbonne, agora com a papelada regularizada e condições de morar num pequeno apê em Montmarte, onde se desenrola o drama de Boiô, personagem de Reima que, na verdade, não tem nada a ver comigo.

Finalmente, as seis nações do Leste Europeu percorridas em Mar Negro foram objeto de uma visita planejada de dois meses, durante os quais tirei mais de mil fotos e tomei nota das situações a serem enfrentadas pela narradora. A cada cidade, eu imaginava o que Anderline sentiria, com quem se esbarraria e o que viveria. O melhor foi perceber que não precisava fazer programas diferentes daqueles que me interessavam, pois, se o cotidiano é capaz de nutrir qualquer ficção, as viagens comportam tantos eventos que, em prol do cultivo de alguma reflexividade e do atendimento de exigências da própria narrativa, frequentemente precisamos até ser parcimoniosos em seu aproveitamento.

Resumindo, trabalho as cenas e os cenários de minhas narrativas pensando na máxima jornalística segundo a qual o repórter pode mentir à vontade, desde que tenha o cuidado prévio de apurar bem os fatos relatados. Mais pesquiso, mais me sinto à vontade para rearticular as descobertas, que, em vez de ser reproduzidas como convém a documentários, se prestam perfeitamente à criação de novos mundos e situações, assim como à brincadeira com a linguagem em seu sentido mais lato.

Em Reima, você desenvolveu uma abordagem interessante ao priorizar não o conflito, e sim os personagens. Eles foram descritos em detalhes e, na subjetividade e comportamento deles, foi possível desenhar uma guerra. Cada pessoa é palco de uma guerra, na verdade. Como foi o processo de construção dos personagens?

Nordestino desterrado, busquei ancoragem no bairro de Santa Teresa, onde moro praticamente desde que cheguei ao Rio, daí ter me acostumando a ouvir tiros ao longe e a comentar, com os vizinhos, as novidades sobre os conflitos em curso entre os traficantes locais. Acontece que, em meados dos anos noventa, uma guerra especialmente sangrenta entre duas facções envolveu o próprio condomínio onde eu morava, então percebi que, se tivesse alguma vergonha na cara, ficaria para acompanhar de perto o incidente e, posteriormente, escrever um livro. O problema é que a matéria-prima se mostrou tão agitada que bastava encadeá-la para criar um thriller capaz de prender a atenção do início ao fim. Assim, possivelmente o livro conquistaria público, ao preço de meu constrangimento de haver trilhado o caminho mais fácil.

Então resolvi dedicar um capítulo a cada personagem, sempre concebido a uma distância tal das pessoas envolvidas ou atingidas que nenhum conhecido se reconheceu na história. Ao longo do processo, enfrentei tantos percalços que cheguei a interromper a escrita por longos períodos de tempo. Entre outras lições, aprendi que é bem mais complicado dinamitar um enredo oferecido pronto pela realidade e, a partir de seus estilhaços, construir uma nova história do que simplesmente inventar um entrecho original.

O resultado, como sabe, é um calhamaço de quase quatrocentas páginas, perpassado por um protagonismo propositalmente diluído, um ritmo que se arrasta devido ao empenho em forjar diferentes universos interiores e trechos marcados por uma linguagem ironicamente neoparnasiana, ou seja, um romance que discrepa da maioria dos livros com a mesma temática. Para complicar ainda mais sua recepção, demorou tanto para ficar pronto que veio a lume quando as narrativas centradas no banho de sangue que cobre as urbes brasileiras já demonstravam um certo esgotamento de público. Além disso, a grande mídia havia decidido que, em nome da Copa e dos Jogos Olímpicos, a violência saíra de moda a ponto de não ser mais de bom-tom tocar no assunto.

A despeito de tantos senões, não me arrependo de nenhuma das decisões que tomei relativamente à forma e também ao conteúdo. Sintomaticamente, enquanto escrevo estas linhas ouço tiros do outro lado do vale onde moro, em prova de que a população está certa ao afirmar que, não bastasse o fato de terem apenas varrido o crime para a periferia, as Unidades de Polícia Pacificadora se desmoralizam a olhos vistos e, aos poucos, a violência generalizada retorna mesmo aos bairros de classe média.

No mesmo romance, o Rodapé é um preparador de textos frustrado por ser incapaz de escrever o próprio romance. Você já trabalhou como preparador de originais. Rodapé tem um pouco de Dau Bastos?

Com pouco mais de vinte anos, passei a revisar, preparar originais, copidescar e, depois, traduzir textos do francês e do inglês, o que me levou a uma situação esquisita: os editores sempre me consideraram um prestador de serviços razoável, mas raramente viram meus próprios textos como merecedores de investimento. Certa vez um deles, de quem me sinto bem próximo, me ajudou a compreender o que acontecia ao pedir, durante a realização de um trabalho, que eu não caísse na “tentação da literatura”. Ou seja, eu agradava quando prestava serviços porque, em vez de me permitir experimentar com a linguagem, oferecia um texto fluido, sedutor, enfim, publicitário. Ora, se os trabalhadores do mundo do livro geralmente ganham menos do que merecem, minha situação de dublê de ficcionista e pé de boi de editora ampliou esse desconforto inevitável.

Por meio de Rodapé, pude expor a dureza do ofício, agravada pela amargura de transformar textos ilegíveis em escritos atraentes, contribuindo para encher a bola de todo tipo de gente, inclusive de picaretas. Para piorar o quadro, Rodapé desconhece a criação e a procriação, que, diferentemente, a vida me proporcionou logo cedo. Posso dizer, portanto, que partilho com o personagem a vivência indicada pelo seu próprio apelido, mas já ao final da adolescência percebi que, ao menos para mim, a maneira menos dolorosa de enfrentar o inevitável vazio da vida seria torná-la produtiva.

Um recurso bastante utilizado em sua obra é o fluxo de consciência, que enriquece a construção dos personagens e torna a leitura densa. Cada modulação de caráter do personagem, os ímpetos e recuos, tudo é relatado em detalhes, de modo que o autor acaba se fazendo presente no romance. Em Mar Negro a protagonista chega a sair de seu papel para reclamar do escritor. Os personagens são, de certa forma, “avatares” de Dau Bastos na narrativa, uma forma de dar vazão às tuas próprias ideias e sentimentos?

Até ler esta pergunta, eu estava convencido de que era capaz de me entregar ao ponto de vista dos diferentes personagens, que colocariam em suspenso minha visão de mundo e, com seus vaivéns narrativa afora, acabariam constituindo uma pluralidade imunizadora contra fechamentos de foco. No entanto, a reflexão a que você me forçou me fez perceber que a busca consciente de criar o texto ficcional à imagem de uma colcha de retalhos não impede que, até involuntariamente, as escolhas que me cabem como autor tenham, como sombras, verdadeiras tomadas de posição.

Assumida a inevitabilidade da ideologização, acho que a dosagem varia em função da história. Mar Negro, como sabe, é narrado por uma alagoana de uma feiura absurda que, entretanto, parece ganhar verossimilhança à medida que transforma o rancor de desvalida e discriminada em discurso de uma virulência tal que transforma todo mundo, inclusive o suposto autor, em alvo. Curiosamente, a distância em relação à Anderline me permitiu lhe atribuir uma série de opiniões que, no fundo, partilho. As investidas contra o pensamento de direita e o mau gosto literário integram uma lista imensa de ataques que nem sempre tenho coragem de fazer ou, pelo menos, não de forma tão contundente. O que talvez me livre da acusação de que pragmatizo a ficção são os exageros da protagonista, destemperada a ponto de alternar guerra santa com cruzada que, comprometida pelo ódio, pode se mostrar cega, injusta, até perversa.

É difícil não falar sobre a influência de Machado de Assis, tanto por sua importância na literatura brasileira quanto pela biografia que você escreveu sobre ele. Podemos dizer que ele é o teu "padrinho”? Fale sobre outros escritores que admira.

Escrever Machado de Assis – num recanto, um mundo inteiro (2008) me fez perceber que o autor carioca realmente é uma fonte inesgotável de ensinamento e inspiração. Contudo, em vez de assumi-lo como padrinho, eu diria que me alimenta tanto quanto Graciliano Ramos, Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Lê-los é uma experiência tão forte que fico excessivamente impregnado de seus respectivos estilos, portanto os evito sempre que estou tentando colocar para fora um novo romance.

Agora, dilatando a ideia de influxo para incluir a poesia, acrescento que saboreio, com emoção sempre renovada, os versos de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, que me incentivam a lapidar cada frase, semear o maior número possível de elipses e manter a ironia sempre ao alcance da vista.

Como considero o ensaio tão literatura quanto a ficção e a poesia, assinalo igualmente as luzes que recebo de pensadores como Antonio Candido e Luiz Costa Lima, cujos escritos são repletos de sacadas que ajudam a nortear o tateio que marca a escrita ficcional.

É de se frisar apenas que não invoco esses nomes – aos quais poderia acrescentar vários estrangeiros – como escritor que ingenuamente tentasse associar sua criação à qualidade, e sim como leitor convencido de que o afã de devorá-los é incontrolável, tanto quanto é total a certeza de que jamais lhes chegará aos pés.

Você faz uma crítica explícita aos autores que se inspiram em livros de fantasia consagrados pela mídia para criar subprodutos literários. Em tua opinião, há muitos escritores esquecidos do desafio de “alar a linguagem” e limitados à criação de “histórias mirabolantes”?

Em meus tempos de freelancer de editora, fiz tanta coisa sob encomenda que cheguei a redigir um livro de autoajuda, com pitadas de ficção, cuja autoria foi assumida por uma embromadora americana. Conto isso para afastar de mim qualquer legitimidade para dizer o que os outros têm de escrever ou não. Agora, justamente por conhecer bem o emprego de fórmulas para facilitar o encarrilhamento das palavras e fisgar o leitor, me permito separar a literatura que nasce da busca da qualidade daquela que se contenta em simplesmente alinhavar uma história.

No presente, todos os países, inclusive o nosso, têm muitos autores satisfeitíssimos em oferecer ao mundo bobices esotéricas, fantásticas, policiais e assemelhadas, umas se arvorando em iluminadas, outras prontas para serem filmadas, todas trepidantes, mas nenhuma a valer a mais desatenta das leituras, muito menos aplauso. Aqui e ali, alguns desses escrevinhadores se permitem, inclusive, falar mal de verdadeiros divisores de água, como James Joyce. É o que podemos chamar de suprassumo da tosquice.

A sorte é que nossa atualidade literária se faz também de uma grande lista de ficcionistas que se tonificam mediante a canibalização oswaldiana do passado e, norteados pela busca da originalidade (de resto, obrigatória a quem quer que se pretenda artista), ousam tentar o diferente e fazem de cada frase objeto do máximo de esmero. Assim, levam em conta o feliz achado do francês Jean Ricardou, para quem há muito a “escrita de uma aventura” deu lugar à “aventura de uma escrita”.

Você começou a lecionar aos 40 anos, já com lastro na carreira literária. A experiência te ajudou a pautar suas atividades na universidade a partir de uma visão mais ampla, para além da academia?

Sou um entusiasta da academia, pois lá encontro jovens antenados, questionadores e dispostos a fazer uso pleno da liberdade de expressão. Entre os funcionários e os professores, também conheço muita gente honesta, politizada e sonhadora. Por essas e outras, costumo dizer que poder pagar minhas contas como servidor de instituição pública de ensino é um privilégio e tanto. Agora, mesmo que os docentes se irmanem pela formação, cada um desenvolve um perfil particular, cabendo a mim atuar basicamente como um escritor que dá aula.

Nos cursos que ministro sobre literatura brasileira na graduação, por exemplo, faço questão de abordar todo o conteúdo, mas, em vez de aplicar prova, sugiro que os alunos passem o semestre desenvolvendo um ensaio nos moldes daqueles elaborados pelos pós-graduandos. Aos estudantes de mestrado e doutorado, por sua vez, aconselho que produzam textos dignos de publicação. Também mantenho uma oficina de contos que, entre outras alegrias, me permite comprovar a conhecida tese de que todo ser humano nasce ficcionista e, para ser chamado de escritor, basta bolar uma lorota e colocá-la no papel. Além disso, participo de projetos editoriais – como a revista virtual Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea – que fomentam a escrita dita profissional. Por fim, integro um grupo de pesquisa que costuma convidar agentes literários, autores, editores, jornalistas, livreiros, tradutores e demais profissionais do meio editorial para conversas públicas no campus.

Completando o que disse no início desta resposta, não me sinto absolutamente com visão mais dilatada do que os colegas que abraçaram a carreira universitária logo cedo, entre os quais vejo professores infinitamente mais competentes e eficazes do que eu. Apenas, como sua pergunta me impôs pensar minha atuação, percebo, concordando com você, que o fato de ter começado a lecionar quando já tinha 40 anos contribui para que eu me empenhe em harmonizar as vidas acadêmica e literária.

O Nordeste está sempre presente, de alguma forma, em suas histórias, mas você diz que agora quer mergulhar de cabeça na região onde nasceu. Como esse sentimento telúrico vai se concretizar? Você pretende se unir ao time de representantes da literatura nordestina – muitos deles vivem no Rio, como Bráulio Tavares, Aderaldo Luciano –, mostrar as caras da nossa região para o Brasil? Ou é um desafio pessoal?

Acompanho o Bráulio há mais de três décadas, tive o privilégio de contar com sua participação, como poeta e cantor, em lançamentos de livros meus e o considero um dos brasileiros mais inteligentes e talentosos da atualidade. Também admiro bastante o trabalho de Aderaldo. Pensando no Nordeste como uma região que recebe tantas cipoadas que precisa de gente decidida a defendê-lo, vejo os dois queridos paraibanos como exemplos que quero seguir. Digo isso como alagoano que, devido à necessidade propriamente psicológica de arrebentar certas amarras localizadas no passado – a começar por uma religiosidade asfixiante –, passou um bom tempo alheio às origens.

Depois de Das trips, coração, cujo enredo se desenrola principalmente em Olinda, publiquei livros ambientados no Rio, no exterior, ou com localização incerta. Reforcei esse afastamento ao investir onze anos no estudo da obra de Louis-Ferdinand Céline, que rendeu uma tese publicada com o título de Céline e a ruína do Velho Mundo (2003). Acontece que, mesmo sendo considerado por muita gente como o maior romancista francês do século XX, o polêmico escritor não é conhecido por praticamente ninguém em nosso país. Ou seja: devo ser o maior especialista tupiniquim num autor estrangeiro que, entre nós, existe mais pela fama de nazista do que pelo estilo demolidor. Resta o consolo da riqueza da imersão na literatura ocidental que essa longa pesquisa me forçou a fazer.

Ainda em 2013, fui liberado para fazer um pós-doutorado de um ano e, em vez de recorrer a uma instituição situada no Nordeste, minha própria trajetória acadêmica me levou a optar pela Universidade de Stanford, na Califórnia. Lá, me dividi entre a literatura de diferentes partes do planeta e a participação num grupo de discussão filosófica, o que foi muito bom. Só que a própria distância reforçou o sentimento de que os 35 anos de morada longe do Nordeste me possibilitaram aprender um monte de coisa que agora – quando a saudade se soma à percepção propriamente política de que a melhor maneira de fundir ética e estética é privilegiar meu torrão natal em minhas narrativas – poderá me ajudar a fazer jus à nossa fascinante e desafiadora região ou, sendo mais preciso, ao meu detonadíssimo estado.

Algum livro está em gestação no momento?

Sim, acabo de rematar o romance Morte certa, ambientado no final dos anos 60, com homem pisando na Lua, Woodstock contrapondo a interioridade à ideia de universo, a eletricidade acendendo o território nacional, a televisão integrando a pátria e a seleção canarinha se preparando para o tri. Resgatar esse período emblemático da história da humanidade e de nosso povo foi emocionante, mas o melhor foi ler o período pelas lentes de moradores de uma cidadezinha fictícia de Alagoas. Mais uma vez, usei a inclinação para o detalhe do signo de Virgem para criar personagens com aparência tão realista que parecem realmente haver existido. Comecei a escrever a história durante minha estada em São Francisco e continuei ao voltar para o Rio. Dois meses atrás, fui visitar minha família no agreste e pude perceber que, a despeito de tanta viagem, tenho em mãos um original genuinamente nordestino, cuja aspereza me impede de associar à doce rapadura, mas nem por isso abala o sonho de que seja visto como um afiado e florido mandacaru.