Balaio cheio de poesias


Vinde, musas que habitam
Nas regiões divinais,
Banhar-me nas santas águas
Das fontes celestiais -
Que vou contar o romance
Do herói João de Calais.

No meio da feira livre de Areia, um formigueiro de gente negociava, conversava, afundava a mão nos sacos de grãos, apertavam e cheiravam para selecionar os melhores frutos e legumes que a lavoura fornecia. Eos abrira os portões para Hélio e o vento gelado da serra passeava entre as construções históricas e varria a rua úmida. No meio do vuco-vuco, Severino Folheteiro, flanqueado pela sua invariável maleta que servia como estante, cantava a história secular de João de Calais. Ali perto, um pirralho ajudante de feira fitava-o, maravilhado pela rima, métrica e beleza da melodia no poema. O balaio fora esquecido, as velhas chamavam para dar-lhe uns tostões em troca do transporte de sacolas, mas os versos furtaram sua atenção. "Cabra preguiçoso".

Aos oito anos de idade, Aderaldo Luciano era apresentado à poesia de cordel.

Filho de Areia e Pilões, o brejeirinho cresceu pobre. Sua mãe era empregada doméstica – do pai não fala – e o criou sozinha na Rua do Bode. "Meu filho, estude". O dito proferido por todas as mães desde a criação do mundo era reiterado por Dona Mocinha. E no coração de Aderaldo a semente encontrou solo fértil. "Ela me dizia isso todos os dias invariavelmente e eu fui fiel ao conselho. Estudei nas maiores intempéries, sem roupa, sem calçado, sem caderno, sem horizonte, mas não parei de estudar, de encontrar saídas para meu desespero pessoal. Vinguei-me nos livros", relembra.

Daí foi ladeira acima. Na Biblioteca Municipal Rodrigues de Aquino tornou-se canibal: devorou Verne, Dickens, Poe, Balzac, Borges, Cortázar... nem gibis escapavam à sua fome. "Foi incrível como esses autores caíram no meu colo", diz. Na biblioteca do Padre Rui fartou-se dos brasileiros Jorge Amado, Humberto de Campos, José Lins, Graciliano, Raquel de Queiroz e outros. O moleque carregador só queria saber de ler, ficava até tarde praticando aquele ritual. O dinheiro que ganhava gastava com cinema, na lanchonete de Seu Nunes – onde tomou o primeiro gole de Coca-Cola e detestou – e com os cordéis.

Aos 17 anos arrumou a trouxa e subiu a serra da Borborema em direção a Lagoa Seca, para estudar na casa de formação de religiosos dos Irmãos Maristas. "De repente me vi lendo todos os filósofos cristãos, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, os patriarcas e muita teologia". Já contava com uma bagagem cultural de impressionar anciãos. Dali migrou para uma comunidade eclesial em Propriá, Sergipe, onde entornou Loyola Brandão e João Antônio.

O conselho de Dona Mocinha levou o rapaz outrora pobre para o ensino superior. Licenciou-se em Língua Vernácula na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e dois anos depois, na virada do milênio, desterrou-se para o Rio de Janeiro. Na UFRJ iniciou o mestrado, onde se dedicou ao estudo da arte telúrica que lhe despertou o gosto pela erudição; em 2003 apresentou a dissertação Literatura de cordel: uma poética para os heróis degolados. Na mesma instituição cursou o doutorado, concluído em 2009, também debruçando-se sobre os folhetins. "É a minha senda". Até hoje leciona Literatura Brasileira na terra de Machado.

Aderaldo tem seis livros publicados, sendo três como participante de um grupo de estudos do CNPq e outros três assina sozinho: O Auto de Zé Limeira; Apontamentos Para Uma História Crítica do Cordel Brasileiro; e A Princesa Adivinhona, escrito para a peça Urucuia Grande Sertão, do Coletivo Peneira. Tem mais quatro projetos na agulha, aguardando publicação, além de estudos autorais sobre o cordel: Teoria geral do cordel brasileiro; Investigação sobre as origens do cordel no Rio de Janeiro e Memórias recentes do cordel no Brasil (2009-2014).

Em breve somará ao cartel sua estreia no romance com a história O rio nasce no mar, "ainda muito incipiente". O cabra, que já foi chamado de preguiçoso, ainda arruma tempo para ser músico: "toco por prazer da música. E, geralmente, toco só para mim. Componho, mas não gravo". Utiliza a música como apoio nos projetos, aulas e oficinas. O moleque do balaio, que observava a cantoria de Severino Folheteiro no palanquim do meio-fio, enveredou pelo caminho da poesia, da música e da pesquisa. O pirralho da Rua do Bode virou erudito.

Livreiro – Como a literatura de cordel se firmou enquanto instrumento da cultura popular tipicamente nordestina?

Aderaldo Luciano – Primeiro quero alertar para dois termos que a pergunta nos apresenta, meu olhar sobre eles. Depois seguirei na busca pelos elementos consolidantes do cordel como marca identitária do Nordeste brasileiro. O primeiro termo é “literatura de cordel”. Sou um revisionista desse termo por percebê-lo não condizente com o nosso produto literário. Essa denominação é originalmente portuguesa e não se refere aos nossos folhetos. Os nossos pais e avós chamavam o cordel de folheto, verso, romance. Quem chamou de literatura de cordel foi o francês Raymond Cantel ao encontrar semelhanças entre os folhetos nordestinos e os folhetos da península ibérica, mas esqueceu-se de observar o conteúdo e fazer as comparações necessárias. Nós criamos uma forma literária. Essa é a grande diferença, logo, o que temos não é “literatura de cordel”, é poesia brasileira, a única forma poética legitimamente brasileira. O mesmo se dá para a maneira como nossos folhetos eram vendidos. Em nossa infância não vimos os folhetos sendo pendurados em barbantes. Eles eram vendidos de duas maneiras: ou no chão, sobre uma lona; ou em maletas, assentadas sobre pequenas armações de quatro pés. O barbante é português e era uma das características da venda lá por Lisboa, mas não a única, pois também havia os cegos andarilhos, vendendo literatura de cordel, com ela amarrada em volta da cintura.

O segundo termo é “cultura popular”. É talvez o mais depreciativo que as elites culturais encontrarão para designar tudo que é produzido pelo povo. Quer queiram ou não, o termo foi utilizado, e hoje muito mais, para fazer a apartação. É criar um muro entre a arte produzida por aqueles que não frequentaram os bancos escolares, mas não menos elaborada, e a arte produzida por aqueles iniciados nas “belas” artes, “belas” letras e outras coisas também “belas”. Enquanto essas “belas” estão, para eles, municiados de elementos estéticos superiores, aquelas, as artes populares, são desprovidas dessa complexidade estética. O que é uma mentira. Um engodo. Apenas uma forma de se autodeterminar superior. Mas se pensarmos que a arte, e a poesia especificamente, não tem pátria, nem classe social, tudo isso vai por água abaixo. Isso se aplica ao cordel. As elites, sem meios, mas com medo de perder seus centros, elegem o cordel como manifestação popular, apenas com o intuito de dizer: — Isso é uma poesia menor, sem atributos estéticos! É uma conspiração. Todavia um cordel produzido por Ferreira Gullar é enaltecido como obra literária de grande valor. Embora o cordel seja considerado menor. É um paradoxo.

Agora, quanto à consolidação do cordel como marca nordestínica, e não nordestina, deu-se pelo fato de ela ter como pais quatro poetas oriundos da Paraíba, Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá de Lima, João Martins de Athayde e Francisco das Chagas Batista. Essa genealogia explica-se por uma questão de sucessão e adaptação. Silvino criou o romance, a história em versos, mas foi Leandro quem percebeu o potencial mercadológico, pensou a forma de produzi-la graficamente, experimentos vários modelos e chegou a esse que todos os poetas utilizam hoje. Embora Leandro tenha feito isso, foi Athayde quem industrializou e realmente pensou o cordel como um sistema: contratou poetas para escrever para ele, produziu em série, diversificou a distribuição, instalando-se em uma casarão no centro do Recife. Chagas Batista seguiu o caminho de retorno, foi para Campina Grande, depois para Guarabira e finalmente desceu à capital onde fundou a Popular Editora e deu um aspecto melhor acabado ao cordel, inclusive com antologias de capa dura. Esses quatro semearam o cordel pelo Nordeste. O ponto de partida foi a cidade do Recife, do final do séc, XIX, a grande metrópole econômica e intelectual do Nordeste. Dali, o cordel encantou os estados nordestinos e desceu ao sudeste.

E aconteceram dois caminhos: o caminho para a ruralidade e o caminho para a urbanidade. Enquanto as histórias de fantasia, de amor, de bravura e as pelejas cativavam a população rural e a população urbana com raízes rurais, os temas sociais, os acontecimentos, a política, as sátiras, faziam a população urbana, citadina, discutir os temas circunstanciais da época. Isso nos primeiros tempos, na geração fundadora e na geração princesa. Assim seguiu até a geração prometida, aquela que viria para consolidar de vez o cordel, mas que naufraga na grande depressão cordelística acontecida na década de 80 do século XX, entrou pelos anos 90, inclusive com os anúncios de fim do cordel, mas que a geração coroada, espalhada por todo o Brasil, ressuscita das cinzas, fênix nacional, e coloca o cordel na estante burguesa por meio de edições bem cuidadas, produzidas por editoras do Sudeste. Hoje, o que se vê é um movimento que, embora rachado, atua de maneira decisiva para o poder de nossa literatura mais marcante.

Esse estilo foi importado mesmo da Europa e adaptado por aqui? Ou a literatura de cordel do Nordeste assumiu um caráter inteiramente novo?

O termo literatura de cordel é realmente europeu, mas não porque sejamos o mesmo produto. Aconteceu porque, colonizados que fomos por Portugal, ficou-nos a ideia de uma literatura que teria vindo nas caravelas, esse sonho romântico, a lenda sem sustentação histórica. As caravelas colonizantes vinham repletas de homens sem instrução, totalmente analfabetos, aventureiros, muitos de péssima reputação. Não acredito, e a história não nos mostra, que esses homens em seus momentos de descanso ou de diversão sentassem no convés de alguma caravela para ler histórias de cordel. Pelo contrário, as cartas de bordo falam de vida miserável e violenta a bordo, doentia. A coisa só muda com a chegada da família real que traz a biblioteca real, mesmo assim dentro dessa biblioteca, que era particular e não seguiu para o meio do povo, havia pouco ou nenhum cordel. A vida literária brasileira só vai se formando por volta de 1850. Esse termo literatura de cordel em solo brasileiro aparece em Sílvio Romero, em 1879, em A Poesia Popular No Brasil, e em José de Alencar, em 1893, em Como e porque sou romancista. Nem um nem outro referem-se aos nossos folhetos, mas à produção portuguesa. No Brasil, o cordel transformou-se em uma forma poética, assim como o soneto, a ode, a balada, o vilancete, o rondó. Quem quiser escrever cordel tem que se moldar à forma.

Qual a importância histórica da poesia de cordel – em conjunto com outras manifestações artísticas e culturais, como o repente, xilogravuras – para a formação da identidade do povo nordestino, sobretudo sertanejo?

Essa pergunta nos leva a uma reflexão para a História. Há uma vinheta intelectual teimando em rimar Nordeste com cabra da peste. Podemos prestar atenção. Até mesmo poetas mais voluptuosos, pesquisadores corretos, caem nessa zona confortável, mas temerosa. A preguiça de pensar dá lugar ao conforto de ser engraçado, caindo no caricato. Por outro lado, quem produz esse tipo de rima também cai na tentação de colocar todas as formas poéticas nordestinas dentro do mesmo caldeirão. Assim, repente, cantoria, embolada, glosas, pulhas, cantigas, benditos, cirandas são todas cordel. Para os mesmos, a xilogravura também sinonimiza-se ao cordel. E não são. Tampouco o cordel é uma poesia sertaneja, como muitos querem. Então vejamos. Embora três dos quatro pais do cordel que citei tenham nascido no sertão (Athayde nasceu em Ingá do Bacamarte, zona da mata), os três escreveram muito pouco sobre o sertão. Uma ou outra história teve como cenário o sertão e só um poema de Leandro remete a saudade do sertão: Suspiros de um sertanejo. No mais, a maioria dos poetas clássicos do cordel nasceram na região do brejo paraibano ou na zona da mata pernambucana. Aliás como já citei, o cordel nasce no litoral e é lá onde se adapta. O que quero dizer é que a poesia não tem pátria. O poeta tem, mas a poesia, não. Dessa forma, chamar o cordel de poesia sertaneja é um equívoco.

Os folhetins de cordel ainda têm o mesmo caráter popular ou se tornou uma forma de arte mais restrita, elitizada, até mesmo erudita, como prevê o Movimento Armorial?

Vamos utilizar esse termo popular como algo do seio do povo. O cordel é prioritariamente poesia brasileira e como tal deve ser abordado. Uma de suas características que temos apontado é: o cordel deve ser difícil de fazer e fácil de entender. Como toda e qualquer produção literária, ele é pensado, trabalhado, erguido entre os dois eixos linguísticos do homem: o vocabulário e a relação entre as palavras. Existem poetas que primam pelo vocabulário, outros primam pela relação entre as palavras, ou seja, o que existe são poetas mais ousados (que querem realmente trabalhar os elementos literários de sua obra), outros que querem apenas atingir um maior número de pessoas, transformando seus poemas em literatura de massa, geralmente tratam de gracejo; e outros que conseguem unir a literariedade ao gosto do leitor, seja o leitor mais exigente, seja o leitor que apenas quer se entreter.

Na sua opinião, o Movimento Armorial contribuiu para a disseminação da literatura de cordel? De certa maneira pareceu uma tentativa de "cristalizar" não só essa, mas várias formas artísticas populares nordestinas para que não desaparecessem com o tempo... você enxerga dessa forma?

A contribuição armorial é importante, mas ela trafegou, ou navegou, dentro das orientações estéticas europeias. Ao transpor a nossa música para as orquestras apenas traduzia para os moldes europeus. Porque as orquestras continuaram tocando seus violinos, e não as rabecas; suas flautas, e não os pífanos; os címbalos, e não as zabumbas; os naipes de cordas, e não as sanfonas; não o violão, não as violas repentistas. Para mim, a Banda de Pífano é vanguarda. Os Trios de Forró, são vanguarda. Siba e a Fuloresta, é vanguarda. O importante do armorial é provar que nossa música resiste a qualquer instrumental e que se pode também afetá-la. Quanto ao cordel, a atuação armorial sobre ele sofreu as mesmas orientações. Foi importante porque propagou o universo nordestínico profundo, mas o cordel, como tal, e os seus autores, não foram abraçados. Aliás, é uma questão da elite brasileira: ela acha que pode fazer melhor do que os que já fazem. Então o poeta oficial descobre o cordel e pensa em subvertê-lo, romper suas regras, acha que está amarrado, que não vai evoluir. E não é assim. No cordel não há evolução. Há mudança. De suporte, de linguagem, de tema dentro da forma.

Você acredita que a internet conseguiu assimilar bem a poesia de cordel? Qual o futuro dos folhetins, eles ainda devem resistir nas feiras livres do interior ou nos centros turísticos da região Nordeste?

Outra questão interessante de se pensar. Vejamos como evolui a humanidade, atrelada a Darwin com a ideia de que uma espécie que evolui vai fazendo a outra original desaparecer. Quando o rádio apareceu disseram que ia colocar por fim o jornal impresso. Quando a televisão apareceu disseram que ia acabar com o rádio. Quando chegou a internet disseram que ia acabar com a televisão. E todos iam acabar com o cordel. São os enganos do mundo. Tudo convive, embora alguns tenham que se reinventar, sem perder seu caráter original. O cordel conviveu com o jornal, conviveu com o cinema, com o rádio, com a televisão, com a internet, com as mídias eletrônicas, com a velocidade, com o raio X. Porque o cordel é poesia. É literatura, é da alma. Os folhetos de cordel seguiram o caminho do todo literário universal: acabando o papel, migra para outro suporte. Mas vai levar um tempo ainda. Como diria meu amigo Ancelmo Góis: — O cordel não vai acabar porque eu não quero que acabe. Pronto!