O espelho sou eu


O espelho é uma metáfora poderosa. Permite inúmeras construções narrativas devido ao que representa: reflexo, limpidez, paralelismo. Na verdade parece que nossa mente é treinada para ver tudo como um espelho. A Psicologia considera que quando falamos dos outros, falamos na verdade sobre nós mesmos. Projetamos nos outros o que nós somos [um ótimo livro sobre o assunto é Teorias da Personalidade]. Por isso um romance que narra os problemas de uma garota que se olha no espelho tem um vasto campo de possibilidades para explorar.

A baiana de Ituaçu Parla de Paula decidiu falar sobre si mesma. Em particular, um momento de sua vida em que enfrentou distúrbios alimentares, mesmo tão jovem. No livro Clara e a garota no espelho ela fala sobre insegurança, medo e insatisfações com o próprio corpo – misturando a realidade com muita metáfora e fantasia. "O livro é quase uma biografia minha e a maioria dos personagens existem de verdade", afirma.

Clara e a garota no espelho

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Impressiona também o fato de Parla ter apenas 18 anos atualmente: em sua curta existência, já escreveu cinco livros – o primeiro aos 11 anos, porém apenas um publicado – e participou de vários concursos literários. "Aprendi a ler bem cedo, aos três anos", conta. Após vencer um desses concursos, em 2012, a jovem foi recebida por Ariano Suassuna, que estava de passagem por Vitória da Conquista. Achou-a parecida com uma boneca e disse que ela seria a "princesa do sertão baiano".

Até então Parla só conhecia O Auto da Compadecida através da série de televisão. O encontro com o armoreiro paraibano radicado em Pernambuco, todavia, mudou a sua vida. Passou em três vestibulares para o curso de psicologia, mas insiste em continuar com o balé e a escrita, já de contrato assinado com a Editora Novo Século. O novo romance está pela metade e aborda um tema socialmente complicado: a esquizofrenia. Ao que parece, seguirá a mesma linha do anterior.

Ao contrário de muitos escritores da nova geração, que se preocupam demais com o marketing literário, Parla é uma escritora que tem algo a dizer. À moda antiga, sua obra tem essência, apesar da pouca idade da escritora. Leia abaixo a entrevista exclusiva.

Livreiro — No livro Clara e a garota no espelho você aborda o tema da anorexia na adolescência. Como se deu essa escolha? Aconteceu com alguém próximo ou você mesma já passou por isso?

Parla de Paula — Na verdade praticamente tudo que aconteceu no livro aconteceu comigo. Assim como a Clara, fui criada pelos meus avós devido a problemas dos meus pais, tive os distúrbios alimentares, parei de dançar balé por um tempo. Acredite ou não, o príncipe Phelipe existiu também. O livro é quase uma biografia minha e a maioria dos personagens existem de verdade. A história se passa na minha cidade natal, Ituaçu, e até mesmo o caderninho dos sonhos da Clara é real, fiz quando tinha 10 anos. É uma história bem pessoal; por ter um final feliz, achei que valia a pena contar. Menos a parte do reino de Varzéa, ali foi ficção.

Sem querer levar muito para o lado pessoal, mas você superou o distúrbio?

Superei sim, graças a Deus. Essa foi uma das razões que me levaram a tentar publicar o livro. Sei que não é fácil e queria que outras meninas entendessem que os distúrbios alimentares não são tão bobos quanto parecem ser. Desde o início pensei em como a minha história poderia ajudar outras meninas que passam pelo que passei.

Quais foram suas maiores influências literárias? Com quantos anos passou a dialogar com os livros e a escrever como forma de expressão?

Aprendi a ler bem cedo, aos três anos. Sempre amei histórias de princesas, castelos e toda essa magia. Aos cinco anos ganhei meu primeiro diário e escrevi um pequeno conto inspirado na Cinderela, depois não parei mais. Continuei com diários, fazendo alguns contos até começarem a evoluir para livros. Não vejo muito a escrita como forma de expressão, é mais como uma forma que tenho de me divertir, sair um pouco da realidade, sabe?

Você participou de vários concursos literários e em um deles conheceu o Ariano. Como foi esse encontro? Você já conhecia sua obra?

Foi aqui em Vitória da Conquista em 2012. Ele era um amor. Antes de conhecê-lo nunca havia lido nada dele, apenas assisti o filme "O auto da Compadecida". Ele estava aqui na cidade para fazer uma palestra, ou algo parecido, no centro de cultura enquanto no meu colégio estava havendo um concurso de poesia. Entre os 8 votos dos jurados recebi 7 e então me levaram para conhecê-lo. Lembro que ele estava bem debilitado na época, mas foi muito doce comigo. Ele leu meu poema e, para minha surpresa, e acho que de todo mundo, ele disse que adorou. Tirou fotos comigo e disse que eu seria a princesa do sertão baiano. achei muito bonito o gesto dele. Foi muito atencioso e me incentivou a escrever livros e disse que adoraria ler um deles. Eu pretendia mandar um exemplar, mas infelizmente ele faleceu. Até hoje no meu colégio tem uma foto nossa. Lembrarei desse dia para sempre.

Fale um pouco sobre o próximo livro. O que você pode adiantar sobre ele?

Pretendo colocar uma causa social em cada livro meu. Nesse livro coloquei um personagem com esquizofrenia, estou até estudando muito sobre o tema com a minha irmã que é enfermeira e meu tio que é médico. Já tenho histórias para outros livros, sobre violência contra a mulher e as drogas na adolescência. Mas em casa um deles colocando um pouco de magia, esse jeito de "fantasiar" as coisas, para que não saia tão impositivo.

Ariano adorava trabalhar com metáforas. Acho que foi por isso que ele te admirou...

Ele disse que me achou parecida com uma boneca.

O livro tem data para publicação? Você já começou a escrever?

Ainda estou com ele pela metade, tenho muito que estudar ainda sobre esquizofrenia. De nada adianta abordar um tema e não saber falar sobre ele. Acredito que devo terminar até maio, e então mandarei para avaliação na [editora] Novo Século.

Você gostaria de deixar algum recado para leitores e leitoras?

Acho que o livro fala por si só. Quero que, quando as pessoas lerem, descubram que dentro delas, por mais que existam defeitos, podem existir coisas boas. Quero que, quando se olharem no espelho, busquem nelas aquilo que há de melhor, para que tenham coisas melhores a oferecer para o mundo. Só podemos lutar pelos nossos sonhos se lutarmos por nós mesmos.