Oliver Sacks e a lucidez diante da morte


Atualização (30.05.2015): Oliver Sacks faleceu neste domingo em decorrência do câncer no fígado, como já havia antecipado. Viveu a tempo de lançar seu livro de memórias, intitulado On the move.

Em 1969 a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross publicou seu trabalho mais famoso, On death and dying (Sobre a morte e o morrer), onde propõe que o luto se divide em cinco estágios: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Os avanços da medicina proporcionaram diagnósticos cada vez mais precisos, o que mudou a forma como encaramos a morte nas últimas décadas. Doenças como o câncer e a Aids soam como um decreto e uma lembrança de que os dias de uma pessoa estão contados.

Desses cinco estágios, Oliver Sacks chegou ao último. O neurologista, autor do best-seller Tempo de despertar, publicou uma carta no NY Times intitulada Minha própria vida, onde demonstra completa resignação diante do mistério que nem Kübler-Ross foi capaz de desvendar. Ele irá morrer em questão de semanas. "Sinto-me grato que tenha ganho mais nove anos de boa saúde desde o diagnóstico original, mas agora estou face a face com a morte. O câncer ocupa um terço do meu fígado e, mesmo que seu avanço possa ser retardado, esse tipo particular de câncer não pode ser interrompido", escreveu.

Sobre a morte e o morrer

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Há alguns meses, Wilko Johnson, que interpretou o carrasco Ilyn Payne na primeira temporada de Game of Thrones, chegou à fase da aceitação. Acreditando que o tumor no pâncreas iria matá-lo em pouco tempo, fez uma turnê de despedida com sua banda de rock em 2013. Felizmente, no seu caso, o câncer era de um tipo raro e curável. "Eu sou um pouco miserável, sempre serei. Agora penso que não tenho nenhum direito de reclamar da minha porção – do quão sortudo uma pessoa pode ser", disse.

Sacks não espera essa sorte. Além das metástases no fígado, foi descoberto um melanoma ocular, cujo tratamento o deixou parcialmente cego. É difícil um câncer desse tipo apresentar metástases. "Estou entre os 2% de azarados".

"Agora é comigo escolher como viver os meses que me restam. Tenho que viver do modo mais rico, profundo e produtivo que eu posso", afirma. Ele cita o filósofo David Hume, que escreveu uma autobiografia quando descobriu que portava uma doença que iria matá-lo. O livreto foi escrito em um único dia em abril de 1776 e foi intitulado My own life (Minha própria vida), mesmo título do artigo de Sacks.

"Sinto uma súbita clareza de foco e perspectiva. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim, no meu trabalho e nos meus amigos."

Escreveu Hume: "Sofri pouca dor em meu transtorno; e o que é mais estranho, não obstante meu acentuado declínio, não tive nenhum momento sequer de abatimento do espírito. Possuo o mesmo ardor de sempre em estudar e a mesma alegria em estar acompanhado".

Esse mesmo ardor parece ser compartilhado nos últimos momentos de Sacks. Com cinco livros publicados, uma autobiografia pronta – segundo ele, bem maior do que a de Hume – e muitos outros quase prontos, o autor não parece estar esperando a morte sentado numa cadeira, semi-inválido. Assim como Johnson e Hume, ganhou uma nova motivação para continuar trabalhando, apesar do seu, assim o diz, desapego pela vida.

"Durante os últimos dias, pude ver minha vida de uma grande altitude, como um tipo de panorama, e com um profundo senso de conexão com todas as suas partes. Isso não significa que eu terminei com a minha vida. Pelo contrário, eu me sinto intensamente vivo, e quero e espero no tempo que me resta aprofundar minhas amizades, dizer 'adeus' àqueles que eu amo, escrever mais, viajar se tiver forças, atingir novos níveis de entendimento e compreensão", descreve.

"Sinto uma súbita clareza de foco e perspectiva. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim, no meu trabalho e nos meus amigos. Não devo prestar mais atenção à política ou argumentos sobre o aquecimento global", diz Sacks, apressando-se em diferenciar desapego de indiferença. "Ainda me importo profundamente com o oriente médio, com o aquecimento global, com a desigualdade crescente, mas isso não é mais da minha conta; pertencem ao futuro. Fico feliz quando conheço jovens talentosos – mesmo aqueles que fizeram a biópsia e diagnosticaram minhas metástases. Sinto que o futuro está em boas mãos".

Os casos de Sacks, Hume e Johnson mostram que a aceitação da morte se diferencia do estágio anterior – depressão – por uma súbita renovação do ânimo, a sensação de que o tempo limitado deve ser dedicado às coisas mais significativas. Eles se despem de preocupações mesquinhas, como o salário no fim do mês, as contas a pagar, as intrigas. Perto da morte, uma pessoa pode se sentir mais viva do que jamais foi capaz em toda a vida. No fim, têm sorte aqueles que descobrem o próprio prazo de validade a tempo de desfrutar do maravilhoso mistério da existência.