O trabalhador do ócio

Sérgio de Castro Pinto

Sérgio de Castro Pinto não tem pressa. Não funciona na pressão, como os 'operários do conhecimento' da atualidade, habituados ao estresse. Ao contrário, é preciosista como um relojoeiro ou luthier, gosta das peças no lugar e funcionando perfeitamente. Toma o tempo que julga necessário, elabora e oferece à luz e ao mundo o seu trabalho. Assim ele faz com a poesia, assim ele fez com a entrevista abaixo, realizada por e-mail. Sérgio é do tempo do ocaso das vanguardas – integrou o Grupo Sanhauá de poesia nos idos da década de 60, junto com Marcus Vinícius e outras sumidades – e início da mistureba, da mescla entre popular e erudito, onde tudo é apropriado, destruído ou massificado pela internet e TV (agora em alta definição).

O poeta nasceu em João Pessoa, aos 25 dias de abril de 1947 – o jornalista e literato vieram alguns anos depois. Formou-se na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde ministra aulas de literatura brasileira. Sua primeira obra foi publicada em 1967, intitulada Gestos Lúcidos. Seguiram-se A ilha na ostra (1970), Domicílio em trânsito e outros poemas (1983),  O cerco da memória (1993), A quatro mãos (1996) e Zôo imaginário (2005). Recentemente publicou seu sétimo livro de poesias A Flor do Gol – ao contrário do que o nome sugere, apenas seis poemas versam sobre futebol. A novidade do livro é a forma, não o conteúdo.  “O que eu ressalto nesse livro mais recente, são os poemas longos e narrativos, a exemplo de 'esta lua' e 'o gato e o poeta', que se contrapõem ao poeta minimalista que eu quase sempre fui”, conta.

Compre por aqui

Zoo Imaginário
http://oferta.vc/7V_F
Cultura
Amazon
Saraiva
Folha
Submarino
Americanas

A Flor do Gol
http://amzn.to/1HEWwWi
Amazon
Saraiva
Folha
Cultura

O Cristal dos Verões
http://amzn.to/1GeoL3r
Amazon
Saraiva

Castro também publicou ensaios sobre literatura, como Longe, Daqui, Aqui Mesmo: a poética de Mário Quintana e A Casa e Seus Arredores. Participou de várias antologias poéticas no Brasil e no exterior, dentre as quais se inclui Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século, organizada por José Nêumanne Pinto, onde ele figura ao lado do próprio Mário Quintana e outros nomes, como Paulo Leminsky, Carlos Drummond de Andrade e o também paraibano Augusto dos Anjos. Como nos anos de Sanhauá, o que ele gostaria mesmo é de ver a poesia produzida na Paraíba e no Nordeste ser valorizada à altura de sua qualidade. “Mas, o que fazer? Os queridinhos da mídia sempre existiram em todos os tempos e lugares”, lembra, referindo-se à produção “incensada” por resenhistas do eixo Sul-Sudeste.

No momento apenas leciona. Após o lançamento de A Flor do Gol em junho, ele não tem planos – ou pelo menos não quis revelar ainda – para um próximo livro. “Por enquanto, estou entregue ao ócio, embora saiba que o ócio é produtivo. E que a preguiça, como já disse Quintana, é um método de trabalho”, diz.

Como você classifica a sua construção poética? Algumas poesias têm um quê de concretistas, mas não são predominantes. Fale um pouco sobre essas construções.
Sérgio de Castro Pinto – Claro que a minha poesia se apropriou de algumas das conquistas do concretismo e seus desdobramentos, mas não ao ponto de recalcar os ditames do eu profundo. Porém, mais do que das vanguardas, a minha geração se mostra tributária ao João Cabral sucinto, parcimonioso, substantivo. E também ao Cassiano Ricardo de "Jeremias Sem-chorar", espécie de bíblia, de breviário estético dos que se iniciaram nas lides poéticas a partir dos anos 60. Em suma, creio que soube converter as influências em confluências.

Quais foram as suas maiores influências literárias?
A minha primeira influência foi a do meu pai, memorialista, autor do livro "Páginas de um diário", cujas crônicas tratam a respeito das pugnas entre liberais e perrepistas, a propósito da Revolução de 1930, mas sob a ótica, sob o ponto de vista de uma criança. Depois vieram Monteiro Lobato,  José Lins do Rego e muitos e muitos outros, pois tudo o que se lê - segundo Fernando Pessoa - se transforma em influência. Creio que o poeta já nasce poeta no modo de sentir o mundo a contrapelo, de se sentir um exilado, de experimentar a sensação de não estar de todo. O difícil, o mais difícil, é encontrar a linguagem com a qual possa expressar estes sentimentos. Isto custa muitas leituras, muitas reflexões, uma longa jornada noite a dentro.

Em relação aos temas, quais são os aspectos da realidade que mais te inspiram a criar poesias?
Desde a minha estreia em livro, "Gestos lúcidos (1967), a minha poesia se deixou impregnar pelas coisas simples, prosaicas, pelos sobejos de Deus, digamos assim. Daí, investir em núcleos temáticos que, para os mais puristas, podem soar pouco nobres ou sublimes. Enfim, sempre dei uma enfase toda especial àquilo que alguém já considerou "as pequeninas grandes coisas do universo". Que o digam os meus poemas sobre o lápis, sobre a borracha, a propósito da dentadura, da máquina fotográfica, etc. Mas, a par desses temas, tenho outros de extração política, quando concebi poemas a respeito da ditadura militar em plena vigência do arbítrio e da censura institucionalizada.

"O difícil, o mais difícil, é encontrar a linguagem com a qual possa expressar estes sentimentos. Isso custa muitas leituras, muitas reflexões, uma longa jornada noite adentro"

Você foi incluído na antologia dos 100 maiores poetas brasileiros do século, do José Nêumanne Pinto, dentre outras homenagens. Ou seja, foi colocado em um panteão que inclui Augusto dos Anjos, Paulo Leminsky, Drummond e o próprio Mário Quintana, cujo trabalho foi objeto de sua dissertação de mestrado. Como você se sentiu com esse reconhecimento?
Claro que a inclusão do meu poema "camões/lampião" na antologia os "Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século", organizada por Nêumanne, me deixou bastante lisonjeado, sobretudo por figurar, lado a lado, com os chamados poetas federais, embora considere bastante desigual a poesia de Leminski. Bem o sei, na esteira de Bandeira, que não existem poetas perfeitos, mas poemas perfeitos, não obstante existam aqueles cujas obras nem sempre façam jus aos calorosos aplausos da mídia. Mas o que fazer? Os queridinhos da mídia sempre existiram em todos os tempos e lugares. Sob este aspecto, o crítico e poeta Amador Ribeiro Neto, do jornal "Contraponto", está fazendo um trabalho admirável, corajoso, na medida em que se propõe a desmistificar alguns livros de poesia incensados, principalmente, pelos resenhistas do sudeste do país.

Fale um pouco sobre o movimento literário Grupo Sanhauá. O grupo ainda existe?
O Grupo Sanhauá consistiu numa tentativa, creio que bem sucedida, de fazer com que a poesia paraibana entrasse em sintonia com as experimentações vanguardistas levadas a efeito no eixo Rio-São Paulo. Nem por isso, porém, recalcamos o eu profundo, uma vez que não nos submetemos passivamente aos breviários estéticos do concretismo, da poesia práxis, etc. E tanto foi assim que a poesia do grupo, exceção, talvez, da de Marcus Vinícius, sempre se mostrou imagética e metafórica, ingredientes repudiados pelos movimentos de vanguarda de então.

"Os queridinhos da mídia sempre existiram em todos os tempos e lugares"

Como você enxerga a forma como a poesia se situa em meio a outros gêneros literários ligados à prosa. A poesia ainda é "intelectualizada" e exclusiva, enquanto a prosa é mais disseminada (tanto que se transformou no adjetivo "prosaico")?
Creio que a poesia, até mesmo por ser, geralmente, mais ambígua do que a prosa, reivindica um leitor mais especializado, mais familiarizado com a performance do poeta contemporâneo, cujos ardis e sutilezas terminam por passar despercebidos pelos neófitos do gênero.

Recentemente você lançou "A Flor do Gol", um livro de poesias sobre esportes – em um momento bastante propício, aproveitando o ensejo da Copa do Mundo 2014. Fale um pouco sobre esse livro, quando você começou a escrevê-lo?
"A Flor do gol" reúne apenas seis poemas sobre o futebol, mais especificamente a propósito de Didi, Vavá, Jairzinho, Leônidas e Garrincha, este último uma espécie de "gauche" dentro e fora das quatro linhas do gramados. A segunda seção do livro, conforme sugere o próprio título - "A Minha voz dos bichos" - , trata a respeito de animais, tema que explorei à exaustão no meu livo anterior, "Zoo imaginário".Já na terceira seção, "Bricabraque", os temas são bem diversificados. Porém, o que eu ressalto nesse livro mais recente, são os poemas longos e narrativos, a exemplo de "esta lua" e "o gato e o poeta", que se contrapõem ao poeta minimalista que eu quase sempre fui. Aliás, João Batista de Brito e Hildeberto Barbosa Filho registram, no prefácio e na apresentação do livro, este fato novo na minha poesia.

Você acredita que o futebol de hoje – depois do que assistimos do nosso escrete na Copa – ainda é poético, como no tempo de Leônidas, Garrincha e Jairzinho? Ou se distanciou muito do futebol de craques, tal como era descrito por Nelson Rodrigues?
Os jogadores de futebol de hoje não possuem o romantismo dos jogadores do tempo de minha adolescência. Adolescência, aliás, marcada muito mais pela palavra do que pela imagem. Explico-me: não dispúnhamos da televisão, mas do rádio, cujos locutores - um Oduvaldo Cozzi, um Jorge Curi, um Valdir Amaral e tantos outros - faziam com que gerássemos as nossas próprias imagens a partir da voz empostada de cada um deles.

Você está trabalhando em algum outro livro? O que você pode adiantar sobre ele?
Por enquanto, estou entregue ao ócio, embora saiba que o ócio é produtivo. E que a preguiça, como já disse Quintana, é um método de trabalho.

Entrevista realizada para a Revista de literatura e Artes Boca Escancarada