Em dezembro Mein Kampf será de domínio público


Peter McGee, um editor britânico, tentou publicar alguns trechos do livro proibido de Adolf Hitler, Mein Kampf (Minha Luta) em 2012. Tudo com muita cautela, com comentários de pesquisadores contextualizando cada passagem. Mas a Justiça da Alemanha, como faz com todos os pedidos de republicação da bíblia nazista, indeferiu.

Talvez McGee tenha tentado cedo demais. Em dezembro deste ano, a obra irá entrar em domínio público conforme a própria lei germânica. Isso significa que qualquer pessoa ou empresa poderá reeditar o livro que o ditador escreveu em seus anos de cativeiro e publicá-lo.

É óbvio que existe o receio de as ideias reacenderem sentimentos xenófobos e eugenistas. Especialmente em um contexto político em que a Europa está às voltas com extremistas, o número de muçulmanos cresce rapidamente e a crise econômica dá sinais de que está bem viva na zona do Euro.

A nova edição será publicada pelo Instituto de História Contemporânea, sediado em Munique, que recebe recursos do Estado. A edição está sendo preparada há três anos. Outros escritos e discursos da era nazista foram publicados ao longo das décadas para fins históricos – Mein Kampf é o único que permaneceu oculto. A maior oposição vem principalmente de grupos de judeus e sobreviventes do holocausto.

Exemplares antigos de Mein Kampf são mantidos longe do público em um armário trancado na Biblioteca Estadual da Baviera, que resguarda os direitos comerciais da obra na Alemanha. "Este livro é muito perigoso para o público em geral", lembra o historiador Florian Sepp.

Manter exemplares trancafiados, todavia, é quase um ato simbólico e que tem efeitos restritos apenas ao território alemão. Uma busca rápida no Google indica sites onde versões em português do livro podem ser lidas online.

Quando os primeiros volumes de Mein Kampf saírem do prelo no início do próximo ano, o título deve se tornar um dos mais vendidos no país. Na Índia, o livro é tão popular quanto os de autoajuda; no Japão, existem mangás baseados no escrito. O partido neonazista Aurora Dourada, da Grécia, oferece exemplares livremente em sua própria livraria em Atenas.

A nova edição preocupa entidades de combate ao antissemitismo. "Eu sou absolutamente contra a publicação de Mein Kampf, mesmo com anotações. Você pode fazer anotações sobre o Diabo? Você pode fazer anotações sobre uma pessoa como Hitler? Este livro está fora da lógica humana", afirma Levi Salomon, porta-voz do Fórum Judaico de Berlim para a Democracia e Contra o Antissemitismo.

"Eu entendo que alguns se sentem imediatamente desconfortáveis quando um livro que desempenhou um papel tão dramático é disponibilizada novamente para o público. Por outro lado, eu acho que esta é também uma forma útil de transmitir educação histórica e iluminação: uma publicação com os comentários apropriados, exatamente para evitar que esses eventos traumáticos voltem a acontecer", disse o vice-diretor do Instituto, Magnus Brechtken.

Somente após a inevitável publicação será possível saber se a Alemanha fará as pazes com o seu passado ou se assistirá ao ressurgimento da intolerância.

Com informações de O Globo