A escravidão no Brasil, segundo os escravos


Muito do que se sabe sobre os 300 anos de escravidão no Brasil veio das penas de intelectuais, jornalistas como José do Patrocínio, escritores e homens cultos geralmente criados em casarões. Porém existem inúmeros documentos escritos a punho pelos negros que mostram a terrível realidade do regime escravocrata segundo aqueles que mais sofreram.

São narrativas em primeira pessoa redigidas com algum propósito bem definido, como negociar a liberdade, menos abusos e melhores condições de trabalho. Diferente do que ocorreu nos Estados Unidos, onde escravos libertos eram incentivados a publicarem suas histórias para fortalecer o movimento abolicionista, no Brasil esse ideal não criou raízes entre os negros. Muitos alforriados inclusive compravam outros escravos.

Na América do Norte, o ensino da leitura para interpretação de textos bíblicos por influência do protestantismo atingiu também os escravos. 12 anos de escravidão, publicado há dois séculos por um ex-escravo, virou filme e venceu o Oscar de 2014. Já no Brasil, a maioria dos cativos era analfabeta, o que dificultou a produção documental.

Esses documentos foram recuperados e analisados pelo casal de historiadores norte-americanos Robert Krueger e Alida Bakusis, da Universidade do Estado de Iowa. Em breve, eles deverão lançar a primeira Antologia Escrava do Brasil, reunindo todas as crônicas em primeira pessoa escritas por mais de cem escravos até 1888, ano em que foi promulgada a Lei Áurea. O trabalho é fruto de 30 anos de pesquisas e irá conter também documentos inéditos em arquivos da Torre do Tombo, em Portugal, na África e em capitais históricas brasileiras.

Histórias

No final do século 18, um grupo de cativos da Fazenda Santana, engenho de açúcar localizado em Ilhéus (BA), se revoltou contra o excesso de trabalho e as condições precárias de vida e fugiram para a mata. O quilombo permaneceu oculto por dois anos até ser encontrado pelos capitães-do-mato de Manoel da Silva. Os capachos cercaram o local, bem armados, e exigiram a rendição incondicional dos insurgentes. Então algo inesperado acontece: os escravos propõem um acordo de paz.

“Meu Senhor, queremos paz e não queremos guerra; se meu Senhor também quiser a nossa paz, tem que ser nestas condições, se quiser estar de acordo com o que nós queremos. Em cada semana, tem que nos dar os dias de sexta-feira e de sábado para trabalharmos para nós mesmos, não cortando qualquer um destes dias por ser dia santo (...) A cota diária na fábrica de farinha tem que ser de cinco alqueires planos, pondo suficientes arrancadores para poderem pendurar os panos. (...) A cota diária de cortar cana de açúcar tem que ser de cinco mãos, e não de seis, e de dez canas em cada feixe (...)”.

Manoel de Ferreira, senhor do engenho, cedeu inicialmente ao tratado, receoso de perder mão-de-obra. Mas quando as armas foram abaixadas, os fugitivos voltaram à condição de escravos e o acordo foi esquecido.

Poucos anos antes, em 1770, a escrava Esperança Garcia, católica e casada, escreveu uma carta ao governador do Piauí relatando abusos cometidos pelo capitão Antônio Couto contra ela e seu filho. Sua família havia sido separada com a venda do marido e da outra filha para uma fazenda de algodão, enquanto ela e o filho passaram para o espólio de Couto. Esperança queria reunir a família.

O relato é aterrador.

“(...) Desde que o capitão para lá foi administrar, que me tirou da Fazenda dos Algodões, aonde vivia com meu marido, para ser cozinheira da sua casa, nela passo muito mal. Há grandes trovoadas de pancadas em um filho meu, sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca, e em mim não posso explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez do sobrado abaixo; por misericórdia de Deus, escapei. Estou eu e mais minhas parceiras por confessar há três anos, e uma criança minha e duas mais por batizar. Pelo que peço a Vossa Senhoria, pelo amor de Deus e do Seu Valimento, ponha aos olhos em mim e me mande para a fazenda aonde o capitão me tirou para eu viver com meu marido e poder batizar minha filha”.

Os documentos também incluem testamentos deixados por escravos, alforriados ou não, pouco antes da morte. Junto com a declaração de bens, eles também escreviam uma breve biografia. É o caso de Paullo de Almeida, que se dizia natural do Reino de Angola, foi enviado como escravo para o sertão brasileiro, e comprou a liberdade por seis mil réis. Naturalmente, ele adquiriu seus próprios escravos, conforme deixado em testamento.

“Declaro que possuo mais outro escravo, chamado Pedro, da nação do Congo, ele casado com outra minha escrava, chamada Izabel, da nação Angola, que tem um filho macho crioulo, chamado Domingos, também meu escravo. E assim possuo uma escrava preta chamada Antônia, da nação Angola, que tem uma filha criolinha (sic) chamada Maria, a qual também é minha escrava. E assim também possuo uma criola (sic) chamada Anastácia, a qual esta é filha minha mulher, que a teve antes de casar comigo e eu a apanhar com outro homem.”

Relatos como esse mostram que a escravidão não era apenas uma prática, mas uma instituição social praticamente naturalizada.

Com informações de O Globo