Drácula: fruto de um sonho mórbido


Eu li Drácula há cerca de dois anos. Grande livro, sobretudo para um entusiasta da literatura de terror/suspense. Mas só comecei a notar suas peculiaridades após um seminário sobre expressionismo alemão (cinema), onde foi exibido um remake de Nosferatu (1979, Werner Herzog). Como não pude perceber antes a riqueza literária de um livro que reúne lendas eslavas, um personagem que realmente existiu e uma narrativa no mínimo diferenciada?

O irlandês Bram Stoker começou a escrever Drácula em 1890 e, segundo o próprio autor, sua inspiração partiu de um pesadelo onde ele via um vampiro se erguendo de sua tumba. Daí ele começou a pesquisar lendas da Transilvânia e encontrou histórias verídicas de um funesto rei que se deleitava em banquetes enquanto assistia ao empalamento de suas vítimas: imensas estacas eram untadas com óleo e os infelizes com quem ele não simpatizava eram jogados em cima delas (era uma espécie de "seu Lunga" do leste europeu, só que com poderes de um nobre): Vladislav Tsepesh aka Dracula ou simplesmente Vlad, o Empalador.

Vlad Tepes, o empalador
Genial! Já se tinha a inspiração e o personagem perfeitos! A cereja do bolo é a narrativa (achei que fosse pioneira, mas é inspirada no livro Moonstone, do inglês Wilkie Collins). De forma competente, Bram Stoker não descreve a história; os seus personagens o fazem. TODO o livro é composto por manuscritos, diários, relatos em taquigrafia, recortes de jornais, cartas e até gravações de voz (já era possível no fim do séc. XIX). Dessa forma, o autor se distancia do próprio livro, deixando para Jonathan, Mina, Lucy, Van Helsing, Seward, entre outros, a tarefa de envolver o leitor, tornar tudo aquilo verdade para quem lê.

Sobre a história em si...

Jonathan Harker parte para a Transilvânia a trabalho, passar uma escritura de um imóvel na Inglaterra para o nome do Conde Drácula. Sem dar ouvidos à superstição dos nativos, Harker viaja de dia e de noite para adiantar sua chegada ao castelo, a fim de resolver o negócio o mais rápido possível e voltar para os braços de sua noiva, Wilhelmina Murray. No entanto, ele permanece preso no castelo sendo torturado e feito de "escravo sexual" por vampiras. Vlad viaja de barco para a Inglaterra carregando caixões de terra (ele precisa de areia de cemitérios do seu país para continuar "vivo"). Jonathan foge e volta rapidamente, prevendo o perigo que sua amada corria, e une-se a Van Helsing, estudioso de ciências ocultas, e outros cavalheiros para tentar deter o vampiro. O resto só lendo ;)

Não consegui compreender muito bem o motivo que levou o Conde Drácula a se empenhar tanto em sua mudança para a Inglaterra. No livro, logo nos primeiros capítulos, pode-se notar que Vlad colecionava inúmeros volumes ingleses (escritos sobre política, economia, atualidades e costumes), os quais estudava com esmero, esperando atingir tal perfeição na cultura desse país que lhe possibilitasse passar por um autêntico inglês. Expansão do reinado de terror? Talvez, cansado de vitimar simples camponeses supersticiosos, seu interesse tenha partido da idéia de aterrorizar a Europa do conhecimento e da razão, o centro político e econômico da época. Não era a sede de sangue que o impulsionava, mas a ambição de se tornar temido pelas massas novamente, subjugar aqueles que considerava inferiores, tal como fizera com os turcos em vida.

Estudiosos dizem que a personalidade do Drácula era perpassada pela idéia que Stoker tinha de Henry Irving, seu patrão e amigo, e de sua esposa Florence que, ao contrário dos bons costumes ingleses, era autoritária e impositiva. O poder de manipulação do vampiro seria uma reação à vida pessoal do próprio escritor, como se ele de certa forma depositasse seu anseio no personagem. O livro é ousado também na medida em que trata o sexo libidinoso (sem intenção de procriar) dentro de uma sociedade moralista, que tentava se livrar de doenças como a sífilis e a gonorréia. O pretenso domínio de Drácula (que representa o grande número de estrangeiros que se mudaram para a Inglaterra) seria uma volta à imundície e à prostituição e o fim da racionalidade. Daí o fato de Van Helsing ser o contraponto de Vlad, ciência e lenda, razão e sobrenatural... o fim do séc. XIX é o marco, o divisor de águas, o fim dos mitos, dos deuses e seres sobrenaturais e o predomínio da inteligência humana. O imaginário é morto com uma estacada e é decretada a vitória da racionalidade. Será? Ou isso não passa de um sonho mórbido do positivismo?