É provável que crescidos longe da Região Sul pouco conheçam a respeito da poeta Maria Dinorah Luz do Prado – de cujo nome emana poesia. Professora, contadora de histórias e colunista, Maria Dinorah se destacou na produção literária pensada para crianças e adolescentes no Rio Grande do Sul.

O trabalho da escritora carrega singeleza e simplicidade no linguajar arranjados em ricas e criativas construções poéticas, desde sonetos até versos livres. Os temas transitam entre imagens da infância, dramas maternos, homenagens aos filhos, crítica social e muitos outros, em geral com uma abordagem pensada para o público infanto-juvenil – o que não impede que pessoas de qualquer faixa etária desfrutem da obra.

Mas por que uma escritora e ativista cultural reconhecida por artistas do porte de Erico Verissimo, Carlos Nejar, Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade – além de ter conquistado vários prêmios literários em todo o Brasil – é pouco conhecida ao norte dos pampas?

"O legado cultural de Maria Dinorah é certamente muito maior do que seu reconhecimento", conta Patrícia Pitta, mestre e doutora em Teoria da Literatura pela PUCRS e estudiosa do espólio da escritora, falecida em dezembro de 2007. Pitta é organizadora da antologia Maria Dinorah Luz do Prado: que falta que ela nos faz, lançada em dezembro do ano passado. A obra reúne textos publicados, manuscritos inéditos e até fac-símiles de notas escritas à mão por Maria Dinorah. A obra foi editada a pedido dos quatro filhos da escritora: Luiz Carlos, Maria Luiza, Beto e Carmen, responsáveis pela seleção do material depositado no acervo DELFOS da Biblioteca Central da PUC-RS. A cada um foi dedicada uma seção da antologia, onde eles tiveram a liberdade de selecionar os escritos conforme a memória afetiva que guardaram da mãe.

Para Pitta, os críticos de literatura frequentemente circunscrevem Maria Dinorah ao ambiente escolar. No entanto, sua obra é vasta e não cabe nesses limites, embora ela de fato tenha se concentrado em produzir para o público local com o propósito desenvolver suas potencialidades.

"Eu me senti pequena e impotente frente à enorme quantidade de seus manuscritos", relata Pitta. A maior parte do material da escritora disponível na biblioteca jamais foi publicado. "São mais de 200 cadernos com poesias, contos, crônicas, aforismos. Textos que, entre originais e inéditos, levarão anos para serem catalogados, analisados e selecionados". Seu projeto permaneceu ativo entre 2013 e 2015, mas foi paralisado por falta de financiamento.

"O certo é sermos. O resto é covardia" (imagem: reprodução/livro)

O livro

Maria Dinorah Luz do Prado: que falta que ela nos faz tem gosto de saudade. Mesmo para quem nunca ouviu falar da escritora gaúcha, é impossível olhar para versos escritos às pressas em uma página de agenda e não sentir o punho da artista no exato momento em que ela transcrevia sua ideia. "Grande parte da obra de Maria Dinorah é voltada para o leitor infantil, contudo, a sua produção dirigida ao leitor maduro é vasta e bastante festejada", relata Pitta.

Sob a textura sensível dos versos, é possível identificar uma estrutura complexa de metáforas, ritmos, assonâncias e aliterações. Porém, longe de ser uma arte parnasiana, são poemas que acertam em cheio a subjetividade na primeira leitura, pungentes em forma e conteúdo, um casamento singular entre ética e estética. Escritos lúdicos e sérios, claramente escritos por uma alma que buscava tocar outras almas.

Várias facetas de Maria Dinorah estão presentes na antologia; é o primeiro contato ideal para aqueles que não conhecem a escritora e uma edição de colecionador para aqueles que aprenderam a ler passando os olhos pelos versos de Maria Dinorah. Crianças e adultos que nascerão no próximo século deveriam ter contato com sua obra. "O que eu depreendo da obra e da trajetória de Maria Dinorah é que ela se preocupava com o fazer literário muito claramente de duas formas dicotômicas: uma relacionada à sua ânsia existencial, que a impelia a produzir, e outra relacionada à quantidade, qualidade e validade de seu público leitor", considera a pesquisadora.

Leia abaixo alguns versos retirados do livro, que pode ser adquirido aqui.

"Eu gosto tanto de brincar de infância
que esqueço, às vezes, o apagar dos dias.
Como se a vida, a derramar distância,
fosse um brinquedo em minhas mãos vazias" (Preocupação, in Hora nua, 1980)

"Tudo quando me emburra
é uma surra.
Tudo quanto me anima
é uma rima.
Tudo quanto me enrola
é uma bola.
Tudo quanto me encanta
é uma planta.
Tudo quanto me invade
é amizade" (Tudo quanto, in Cantiga de estrela, 1984)

"Procuro
uma receita mágica.
Pra dar riso ao Janjão.
Pra farturar o pão.
Pra adoçar a lição.
Pra promover a banda,
remover quem desmanda,
coroar a ciranda.
Procuro um jeito
de ser leve e profundo.
Procuro uma criança
pra comandar o mundo" (Receita, in Coração de papel, 1986)

De maneira inesperada, Bob Dylan – nome artístico de Robert Allen Zimmerman – foi apontado como o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2016, mesma categoria em que concorria a brasileira Lygia Fagundes Telles. De acordo com a Academia, a escolha do cantor se deu por Dylan "ter criado novas expressões poéticas dentro da grande tradição musical norte-americana".

Premiar um músico com o Nobel considerando suas letras como produção literária é algo inédito. Dylan, cujo apelido foi inspirado no nome do poeta Dylan Thomas, tem apenas dois livros autorais publicados – um deles de ficção e outro de crônicas autobiográficas, além de antologias de suas pinturas – mas suas canções têm um respaldo poético e literário perceptível, tal como as músicas de Chico Buarque e Milton Nascimento, por exemplo.

Artista de múltiplos talentos, Dylan também é pintor e desenhista. Algumas de suas obras estão reunidas no livro The Drawn Blank Series e The Brazil Series e foram expostas no Museu Kunstsammlungen, na Alemanha, ao lado das telas de Munch e Picasso.

Infelizmente, algumas das obras referenciadas neste post estão esgotadas ou disponíveis apenas em inglês, mas devem ganhar novas edições em breve. Graças à premiação.

+ 4 livros de Bob Dylan


Tarantula

É o único livro de ficção do cantor norte-americano. Foi escrito em 1966 e publicado oficialmente em 1971. Ao Brasil, só chegou em 1986 em uma edição da Brasiliense, porém as edições mais recentes estão esgotadas; para achar o título em português é preciso catar pelos sebos literários. O livro é um trabalho de literatura experimental que mistura elementos de prosa e poesia, como o fluxo de consciência.

Crônicas, Vol. 1

Reúne crônicas autobiográficas de Bob Dylan. A ideia é que sejam publicados outros dois volumes, porém não há previsão.

The Drawn Blank Series

Antologia de desenhos e pinturas do cantor que foram criados entre 1989 e 1992 durante uma turnê; a primeira publicação saiu em 1994. Em 2006, a curadora do Kunstsammlungen Museum, Ingrid Mössinger, teve contato com o trabalho de Dylan e o convidou para realizar uma exposição no museu alemão. Foi a primeira exposição de arte do cantor. No entanto, Dylan, acostumado a mudar e mexer em seu próprio estilo ao longo da vida, não quer que a série represente todo o seu trabalho como pintor.

The Brazil Series

Após dar por concluída a série Drawn Blank, Dylan começou um novo ciclo para uma exposição em Copenhague, Dinamarca. Em The Brazil Series, o cantor explora cores e texturas que representam sua visão e sentimentos acerca do Brasil, transitando na dicotomia entre fascinação e pobreza.

+ 6 livros sobre Bob Dylan


No direction home: a vida e a música de Bob Dylan

Após um artigo no The New York Times em que apresentava o então desconhecido Bob Dylan ao público norte-americano, o jornalista Robert Shelton foi o único que o cantor permitiu que o acompanhasse durante um bom tempo. O livro fala sobre a carreira de Dylan, seus discos, traz comentários de outros músicos e depoimentos de Dylan.

A balada de Bob Dylan

Livros biográficos sobre Bob Dylan existem em profusão. Mesmo assim, poucos se repetem. Sempre existe uma faceta diferente na carreira do cantor que pode ser explorada. Em A balada de Bob Dylan, Daniel Mark Epstein apresenta quatro recortes importantes na carreira do cantor – 1963, 1974, 1997 e 2009 – que revelam sua versatilidade frente às transições de gerações e culturas.

O guia do Bob Dylan

O livro é parte de uma série britânica de obras de referência da Penguin Books sobre várias personalidades. O livro, escrito por Nigel Williamson, tem formato de almanaque e, além da biografia do músico, apresenta curiosodades, as 50 músicas essenciais e suas histórias, discografia completa e outras informações que ajudam a conhecer melhor a personalidade do cantor. Livro fundamental para fãs de longa data.

Who is that man? In search of the real Bob Dylan

Quem é o verdadeiro Bob Dylan? O renomado músico incorpora várias personas e significados, ao mesmo tempo em que se mostra discreto – Um novo Elvis, Messias do Folk, Tesouro Nacional ou apenas um Zimmerman de Minessota. O historiador, jornalista e romancista David Dalton fez um perfil à altura de Dylan a partir de depoimentos de pessoas próximas. O livro traz uma nova – ou várias – perspectivas do lendário cantor.

Forever Young

A autoria do livro é atribuída a Bob Dylan, mas sua participação se resumiu a ceder os direitos comerciais das letras para o ilustrador Paul Rogers, que se encarregou de ilustrar as canções. Não se trata de uma biografia exaustiva, mas de um tributo singelo ao cantor folk com o título de uma de suas canções preferidas.

Like a rolling stone

Outra obra de referência com dados precisos sobre a produção de Bob Dylan. O musicólogo e poeta Brian Hilton apresenta todos os álbuns, datas de lançamentos, créditos, duração de cada faixa, músicos que acompanharam Dylan nos respectivos discos, e comentários sobre todas as músicas. Sem dúvida é uma obra que ajuda a compreender o motivo pelo qual Dylan foi laureado pelo Nobel de Literatura.

+ 4 livros que inspiraram Bob Dylan


As vinhas da ira

John Steinback é um dos autores favoritos de Dylan. O músico escreveu um ensaio de 15 páginas sobre a obra-prima do escritor, As vinhas da ira. A trama se passa na Grande Depressão da década de 30 e narra a história de uma família de fazendeiros que são expulsos de terras arrendadas por conta da seca, das dificuldades econômicas e da execução de dívidas pelos bancos. A obra recebeu o National Book Award e o Pulitzer de Ficção, além de ter sido citada quanto Steinbeck recebeu o nobel de Literatura em 1962.

Trópico de câncer

Henry Miller narra em primeira pessoa, com um timbre autobiográfico, aventuras boêmias pela Paris da década de 30 enquanto aventureiro autoexilado. Por conter cenas classificadas como pornográficas, o livro foi proibido no país natal do escritor, os EUA, desde a sua publicação até 1961, quase três décadas depois. Bob Dylan, em uma entrevista à Playboy, apontou Henry Miller como o maior escritor norte-americano.

On the road

Clássico na literatura marginal da geração beat, On the road, de Jack Kerouac, inspirou artistas de vários estilos e épocas. Bob Dylan foi um deles. O livro é escrito em uma prosa espontânea, quase oral, com um estilo próximo ao fluxo de consciência e também com inspiração autobiográfica. Narra a viagem de dois amigos pelas estradas dos Estados Unidos em uma jornada repleta de jazz, drogas, sexo e bebidas. Foi escrito em 1951, mas só chegou a ser publicado pela primeira vez em 1957, após ser rejeitado por várias editoras.

Uivo

"Foram Ginsberg e Jack Kerouac quem me inspiraram", afirmou certa vez Bob Dylan. Uivo, livro de poemas de Allen Ginsberg, outro célebre escritor da geração beatnik, não decepcionou em entrar para a lista de obras censuradas. Apontado como obsceno, é o livro de poesias mais vendido da história dos Estados Unidos, atingindo em pouco tempo a marca de um milhão de exemplares comercializados.

*Agradecimentos ao jornalista André Cananéia pela ajuda na curadoria.

Já mencionei em outro post os motivos pelos quais eu considero vantajoso participar de uma oficina de literatura. O Brasil tem ótimos escritores que também atuam como instrutores de oficinas. Além disso, aprendemos não só a escrever melhor, como também a ler melhor, algo raro no Brasil hoje. Nosso país, todavia, é extenso e nem sempre há uma oficina de literatura nas cercanias. Na verdade, elas são mais comuns em bolsões metropolitanos como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. E mesmo nas grandes cidades, não é todo mundo que tem tempo para se deslocar, participar do encontro e entregar todas as atividades toda semana.

Para dialogar com esse público não tão restrito, profissionais da escrita passaram a oferecer a modalidade à distância. "A grande vantagem de uma oficina online, como qualquer curso online, é que o participante faz quando e de onde quiser", garante o jornalista e escritor Marcelo Spalding, diretor da Metamorfose Cursos. Para contornar a ausência do contato com os estudantes, a estratégia é oferecer outros serviços, como avaliação crítica dos textos produzidos – no mercado, é um trabalho que custa caro –, criação de antologias com os contos produzidos na oficina e edição dos escritos dos alunos interessados em publicar.

Sempre tive interesse, por essas e outras razões, em participar de uma oficina de criação literária a distância, mesmo já tendo passado por uma presencial. Surpreendentemente, não foi tão fácil encontrar pelos meios tradicionais, considerando meus critérios e exigências de qualidade. Por isso, a questão da credibilidade também foi levantada, já que nem precisa rodar muito para encontrar especialistas em lero-lero. Uma boa oficina não se concentra em aspectos motivacionais, mas em métodos, técnicas e recomendações de escrita que só podem ser dominados com olhos nos livros e bunda na cadeira.

Um exemplo: você sabe o que é um texto literário, e o que pode ser considerado como literatura? Em geral, a essa pergunta surgem respostas polarizadas, que oscilam entre um purismo artístico quase parnasiano e o vale-tudo do tipo "o que importa é ter leitores". A estética é importante, e quem escreve deve saber o mínimo sobre ela. Caso contrário, a tentativa de um texto literário será um enrolado de clichês, palavras mal empregadas e situações inverossímeis. E sim, mesmo histórias sobre elfos e dragões precisam ter verossimilhança.

Por fim, exercícios, bons exercícios. Um deles cheguei inclusive a publicar. Boa parte dos assuntos estudados eu já sabia pela prática. Outros foram novidade para mim. É o caso do planejamento de histórias. Ao contrário de muitos escritores, sou meio incapaz de estruturar narrativas longas. Tenho paixão pelas palavras, narrativas curtas, o conto definitivamente é o meu gênero. No entanto não faz mal construir o enredo de um romance, e quando eu o fizer, não será pela intuição. O aprendizado da oficina vai me ajudar nesse aspecto.

Outras experiências

Jussara Lucena, pedagoga e advogada, só começou a escrever depois da aposentadoria. Começou com uma oficina presencial na sua cidade. Em seguida decidiu realizar uma oficina à distância. "A oficina do Marcelo oferecia tanto a teoria quanto a prática, bem como orientação e dicas para escrever. Meu aproveitamento foi muito bom, aprendi muito, o que me valeu como base para um bom desempenho em outras oficinas literárias de que participo", afirma. Ela já escreveu para publicações no Brasil, em Portugal e no Uruguai, além de ter um livro próprio de contos, publicado pela editora que o próprio Spalding criou para ajudar seus alunos a transformarem seus textos em livros.

Já o analista de sistemas Alexandre Marques procurou a oficina quando já estava com o livro praticamente concluído. Nunca foi escritor de carreira nem havia participado de oficinas, seu contato com a literatura se dava apenas pelo prazer de ler. Decidiu narrar um episódio que aconteceu na sua vida e transformar isso em um romance. "Todos que participaram ou ouviam a história diziam a mesma coisa: 'isso é um livro'. Um dia, tomei coragem e corri atrás. Até então eu só havia escrito artigos acadêmicos", lembra. "Como o valor era baixo e eu nunca tinha participado de nada parecido, entrei de cabeça", conclui.

Realizar o curso à distância também é uma opção útil para quem trabalha o dia inteiro ou não tem condições – e vontade – de se locomover ao local dos encontros presenciais. "Moro numa cidade do interior, um pouco distante de centros maiores e tenho a minha ocupação profissional que ocupa grande parte do meu tempo, além da minha vida em família", relata o administrador Adnelson Campos. Ele conta que seu conhecimento literário se resumia ao que foi aprendido nos bancos escolares e por sua própria curiosidade. Quando inscreveu seu primeiro texto em um concurso, foi selecionado e quis aprimorar seu trabalho como escritor. "Tive acesso a uma série de informações que nem imaginava que encontraria, e isso me permitiu ampliar a minha visão sobre a escrita", diz.

Vaidade

Por outro lado, existem problemas comuns às duas modalidades. Um deles é a vaidade dos alunos. "A maior dificuldade é lidar com a frustração. Tem gente que faz oficina para ser elogiado, para ter seu texto chancelado", conta Marcelo Spalding. Ele enfatiza que uma oficina é um momento de aprendizado, onde o aluno pode aprender a fazer melhores escolhas para sua história. "Não há certo em errado em literatura, ou há pouco de certo e errado, é tudo uma questão de estética, de convenções", explica.

Aprendizado

Para quem resiste às críticas, o aprendizado é garantido. "Todo mundo que participa de uma oficina literária aprende a ler melhor, começa a perceber os aspectos técnicos do texto, da linguagem. Isso eu considero fantástico, pois nos permite escrever melhor não só literatura, mas qualquer tipo de texto", ressalta o instrutor. "O propósito da oficina é instrumentalizar o participante a decidir o que é melhor ou não para o seu texto, tomar consciência de suas decisões técnicas, como narrador, personagem, entre outros aspectos", detalha Spalding.

Fechando

Como quase tudo na vida, o aproveitamento de uma oficina de criação literária à distância depende, em quase toda a sua totalidade, do aluno. Participar de uma oficina de literatura é uma etapa fundamental na carreira de qualquer escritor – até dos mais experientes. Você já cursou alguma? Deixe seu relato nos comentários.

Esse é um post escrito por mim em parceria com Marcelo Spalding, diretor da Metamorfose Cursos.

Anton Chekhov foi um dos maiores escritores. Sua especialidade era a escrita de contos, embora também se arriscasse na dramaturgia. Escrevia para arregimentar uns caraminguás e pagar sua faculdade de medicina, mas evoluiu e criou inovações formais que passaram a nortear a escrita de contos. Formou-se, mas até hoje é mais reputado como escritor do que como médico. "A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante", dizia. Publicou quase 200 contos, cinco novelas, dois ensaios e 14 peças. Histórias como A corista e Angústia dão um vislumbre da capacidade narrativa do russo.

Também escreveu cartas, como era de costume no século 19. Numa delas, endereçada ao seu irmão mais velho, o pintor Nikolai Chekhov, Anton fala sobre o seu ideal de pessoa civilizada. Nikolai era talentoso, porém alcóolatra, e frequentemente Anton lhe escrevia cartas com conselhos e recomendações. Ambos morreram precocemente vítimas de tuberculose, Nikolai aos 31 anos e Anton aos 44. Em tempos onde o ódio grassa e o extremismo mata cada vez mais, vale a pena relembrar o motivo de vivermos em sociedade e como essa convivência pode ser pacífica e produtiva.

O excerto abaixo foi traduzido daqui. Essa e outras cartas podem ser lidas no livro A life in letters (Penguin, 2004, 226 p.). Infelizmente não tem versão em português.


Pessoas civilizadas devem, acredito, satisfazerem os seguintes critérios:

1. Elas respeitam seres humanos como indivíduos, e, portanto, são sempre tolerantes, gentis, corteses e amenas. Elas não fazem cena por causa de um martelo ou um apagador extraviados; elas não fazem você sentir como se elas estivessem te concedendo um grande benefício quando convivem com você, e jamais fazem escândalo quando partem [...]

2. Elas têm compaixão pelos outros, não importa se são mendigos ou gatos. O coração delas sofre a dor do que está oculto a olho nu [...]

3. Elas respeitam a propriedade das outras pessoas, e, portanto, pagam as dívidas.

4. Elas não são desleais e temem mentiras como temem fogo. Elas não mentem mesmo nos assuntos mais triviais. Mentir para alguém é um insulto, e o mentiroso diminui diante dos olhos da pessoa para quem ele mentiu. Pessoas civilizadas não fingem ser melhores do que são; elas se comportam nas ruas da mesma maneira que se comportam em casa, não tentam se gabar para impressionar seus filhos [...]

5. Elas não se esforçam para provocar a simpatia dos outros. Elas não usam os sentimentos de outras pessoas para serem notadas e mimadas. Esse tipo de coisa é utilitarismo barato, é vulgar, manjado e falso [...]

6. Elas não são vãs. Elas não perdem tempo com a bijuteria da adulação de celebridades, permitindo-se apertar a mão de um bêbado, a exagerada cordialidade da primeira pessoa que veem no balcão, são a alma e a vida do bar. Eles consideram frases como 'eu sou um representante da imprensa' – o tipo de coisa que só escutam de jornalistas inferiores – um absurdo. Se elas recebem alguns centavos por seus trabalhos, não fingem que ganham 100 rublos ao ostentarem seus feitos, e elas não se vangloriam de serem qualificadas para serem admitidas em lugares onde outras pessoas não são [...] Verdadeiros talentos se sentam nos lugares mais escuros, se misturam com a multidão, evitam a ribalta... Como [Ivan] Krylov dizia, o barril oco faz mais barulho do que o cheio [...]

7. Se elas têm talento, valorizam-no. Orgulham-se dele. Elas sabem que têm uma responsabilidade de exercer uma influência civilizada nos outros, ao invés de sair com eles sem rumo. E elas são delicadas em seus hábitos [...]

8. Elas trabalham desenvolvendo sua sensibilidade estética. Pessoas civilizadas não apenas obedecem basadas em seus instintos. Elas exigem mens sana in corpore sano (n. e. corpo são, mente sã).

E por aí vai. É assim que pessoas civilizadas são. Ler Pickwick e aprender um discurso de Fausto de cor não é suficiente se seu propósito é se tornar uma pessoa verdadeiramente civilizada e não afundar a um nível mais baixo daqueles que o cercam.
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Desde 1986, a Somália vive uma guerra civil. Este ano completam-se 30 anos do início da Revolução Somali, quando o ditador socialista islâmico Siad Barre passou a atacar os clãs em nome da unificação da autoridade governamental. Décadas antes, a Somália passaria por dois processos de ruptura: a independência na década de 1960, com a adoção do modelo econômico socialista, e o alinhamento brusco com os Estados Unidos em 1977, depois que a União Soviética cessou o apoio financeiro. Em 1991, Siad Barre cai e a Guerra Civil começa oficialmente.

Uma janela da história, do ponto de vista monocromático, masculino e colonialista norte-americano, foi exibida no filme Falcão Negro em Perigo (2001), onde militares realizam uma operação mal-sucedida na capital Mogadíscio. Nadifa Mohamed, em O pomar das almas perdidas (Alaúde/Tordesilhas, 2015, 296 p.), revela a história por outros ângulos e acrescenta novos matizes, passando ao largo do olhar colonialista com que o ocidente percebe a África e seus conflitos.

O livro narra a história de três mulheres distintas em idade, hierarquia social e origens. Deqo é uma criança órfã, oriunda de um campo de refugiados e que consegue se virar nas ruas para sobreviver. Kawsar é viúva de um militar bem-sucedido e com pequenos investimentos imobiliários que permitem uma vida confortável e independente; seu caráter foi profundamente marcado pelo suicídio da única filha. Filsan é uma oficial do exército com um alto status social; abandonada pela mãe, psicologicamente assediada pelo pai e ansiosa por sua aprovação, passa a reproduzir a truculência à qual se acostumou. O cenário da história é Hargeisa, a segunda maior cidade da Somália, incrustada em uma região desértica cercada por colinas. A trama se passa no final da década de 80.

Durante uma celebração organizada pelo governo no estádio da cidade, Kawsar e um pequeno séquito de senhoras presencia a agressão de um grupo de oficiais a uma criança. Deqo, por sua vez, que foi retirada do campo de refugiados para se apresentar com um grupo de dança ao representante do governo, consegue fugir após a intervenção de Kawsar. Esta conhece pela primeira vez a realidade das prisões somalis e eventualmente é torturada e aleijada por Filsan – que havia sido assediada momentos antes por um dos homens mais poderosos do governo. Essa é a primeira tangente na cadeia de acontecimentos que une as três personagens. Daí em diante, cada um segue sua própria jornada até o reencontro no bangalô azul de Kawsar, onde se inicia o desfecho do livro.

Nadifa Mohamed nasceu em Hargeisa, mas só viveu durante cinco anos na Somália. Pouco antes da eclosão dos primeiros conflitos, sua família se mudou temporariamente para Londres. No entanto, com a iminência da guerra, a estadia se tornou permanente. Já adulta, estudou política e história na Universidade de Oxford. O pomar das almas perdidas é seu segundo livro, lançado em 2013. O primeiro, intitulado Black mamba boy (sem edição em português) – baseado, em parte, nas histórias narradas por seu pai, marinheiro mercante – foi publicado em 2009.

A prosa de Nadifa Mohamed é competente. Ela utiliza a voz da narração na terceira pessoa de modo que o leitor se sinta próximo ao personagem. Cria descrições realistas sem prescindir de símbolos e metáforas, o que enriquece a narrativa sem deixar o leitor perdido – como o marcante trecho abaixo, que mais parece um disparate, caso o leitor não esteja atento ao contexto. Bons livros têm uma frase que o encerram. O trecho que encerra O pomar das almas perdidas, eu diria, é esse.
"Os soldados vão devolver a rua ao deserto, desligar as estrelas, matar os cachorros e apagar o sol em um poço".
A história também somatiza os efeitos do sofrimento e da guerra. Em romances menos competentes, a dor da mulher em relação aos conflitos bélicos resume-se à solidão deixada pelo marido que foi à luta, o leito vazio, o pranto e o luto. Nadifa relata com crueza a dor física, palpável, visível e malcheirosa manifesta no corpo, bem como a sexualidade e os desejos femininos. O corpo é a fonte de alegria e dor, prazer e morte. Não há nada de passivo na mulher; elas podem segurar o porrete ou ter os ossos partidos tanto quanto qualquer homem. Matar e serem mortas. A imagem do corpo como o recipiente de uma força natural é recorrente.
"Seu corpo está se desgarrando de seu controle, tentando se afastar dela, ou pelo menos é o que lhe parece".
O sangue, por sua vez, revela a fragilidade da vida e a rapidez com que ela pode se apagar. O corpo de um adulto saudável comporta entre quatro e seis litros de sangue. Se uma artéria for rompida e dois litros de sangue deixarem o corpo, o coração dispara e pode pifar em qualquer instante. Se o sangue deixa o corpo, não há esperança. A metáfora é bem trabalhada no final do livro, quando Filsan testemunha o assassinato de estudantes por meio da total drenagem do sangue para abastecer os estoques destinados aos soldados feridos.

Em todos os aspectos, O pomar das almas perdidas é um ótimo livro, principalmente para leitores acostumados com os gêneros ficção histórica, não-ficção ou até biografia. As personagens são trabalhadas com esmero artesanal, cada uma delas poderia ter, de fato, existido. Nada na trama sobra ou constitui elemento à toa que só serve para compor o arco. Aquelas pessoas poderiam ser nós, por isso não podemos ignorá-las. O único ponto pouco satisfatório foi o desfecho. Mas não pretendo arruinar a experiência dos leitores.