Amigos e leitores, como alguns bem sabem, o Livreiro Nômade é um espaço onde eu posso publicar "anotações literárias", como diz o sábio Gumercindo Dorea. Mas este que vos dirige a palavra também derrama em linhas as frustrações, ambiguidades e ironias da vida, escrevendo contos. Algumas práticas e exercícios são postados no Medium. Agora quero algo mais na vera.

Reuni aqueles que considero meus melhores contos e dei início a um projeto para explorar essa coisa de leitura digital de que todos falam. Não posso bancar edição e impressão dos exemplares, e não sou o novo talento autor de hexalogias que vão abarrotar os caixas do mercado editorial. Gosto das sutilezas lascadas do ser humano e suas relações, e é sobre isso que escrevo.

O título do livro é Esfolados, e pode ser lido de graça no Wattpad. Toda semana vou postar um conto novo. O primeiro é Mayara Mortalha, a obituarista, a história da mulher que matava gente escrevendo obituários. Tudo indica que o segundo será uma narrativa em segunda pessoa [teste], e por aí vai, não sei bem quando termina. Parece que é assim que as coisas são hoje, sempre incompletas, em construção.

Dizem que até a gente é assim.


O que fazer diante de uma folha em branco? Essa é a lida diária dos escritores. Em determinadas ocasiões, as palavras surgem aos borbotões e vão se encarrilhando em frases, períodos e parágrafos. Em outras, bem mais comuns, há o que se convencionou chamar de bloqueio criativo. Por dias, semanas a fio, é impossível extrair alguma coisa. Nesse momento, surgem na memória do escritor todos os grandes clássicos que ele já leu, Balzac, Machado, Poe, e aquela sensação de impotência, de que ele nunca irá se comparar aos grandes, portanto não vale a pena se arriscar na mediocridade. Sempre que um escritor pensa dessa maneira, ele morre um pouco.

Só existe um antídoto para reverter a necrose: experiência. Em A arte da ficção, Henry James analisa obras de escritores e estudiosos de literatura do seu tempo, e sugere reflexões que são fundamentais para os escritores de qualquer época. "Escreva a partir da experiência, e só dela", recomenda aos iniciandos da ficção. "Tente ser uma das pessoas com quem nada se perde", sugere. Leon Tostoi, célebre escritor russo, segue pelo mesmo caminho. "Se, então, alguém me perguntasse qual o mais importante conselho que eu poderia dar [...], simplesmente diria: em nome de Deus, pare por um momento, suspenda seu trabalho, olhe ao seu redor", escreveu, em texto presente na coletânea Essays, letters and miscellanies.

A descrição mais minuciosa e completa que pode ser dada a respeito desse assunto foi criada pelo filósofo Nieztche.
"A receita para tornar-se um bom romancista… é fácil de dar, mas executá-la pressupõe atributos que costumam ser negligenciados quando se diz: 'não possuo talento suficiente'. É necessário apenas que se façam cem esboços para um romance, e nenhum deve ultrapassar duas páginas, mas a precisão no emprego de cada palavra é fundamental; deve-se diariamente tomar nota de historietas até que se aprenda a dar-lhes uma forma a mais inventiva e eficaz possível; deve ser incansável em colecionar e descrever tipos humanos e personagens; acima de tudo, deve-se narrar casos para outras pessoas e ouvir os casos que elas têm a narrar, mantendo-se sempre os olhos abertos e os ouvidos atentos para o efeito que estas pequenas narrativas produzem em quem as ouve; deve-se viajar tanto quanto um pintor de paisagens ou de costumes... finalmente, deve-se refletir sobre os motivos dos atos humanos, não desprezar os sinais capazes de fornecer informações sobre eles e colecionar dia e noite todos esses dados. Deve-se persistir neste exercício multiforme durante cerca de dez anos; o que, então, for criado neste laboratório... estará pronto para ser mostrado ao mundo".
De volta a Henry James, o escritor britânico acredita que, da mesma maneira que as pessoas sentem a vida, elas sentem a arte. Portanto, o mérito do escritor não está em ser inventivo ou em buscar enredos mirabolantes. O elixir da escrita está bem mais perto do que se imagina, porque a experiência é o resultado primeiro do diálogo do homem com o mundo ao seu redor. A diferença entre o artista e outros profissionais é que aquele soube desenvolver seu olhar a partir da experiência. "Nenhum romance jamais virá de uma mente superficial", decreta James.

A partir desse pressuposto, a principal característica de um bom romance, aquele que será lido, é a verossimilhança com a realidade. "O ar de realidade é a virtude suprema do romance", afirma. Pode-se argumentar, de maneira contrária, que Tolkien, C. S. Lewis, George R. R. Martin, Moorcock, Terry Pratchett, Douglas Adams e milhares de outros escritores criaram mundos fantásticos e situações distantes da realidade. É uma compreensão equivocada por dois motivos: primeiro, realidade não é algo meramente documental, palpável. O domínio da razão tem limites curtos, há muito que a humanidade não conhece, porém existe – e a realidade que uns conhecem, outros ignoram. Segundo, a interpretação artística da realidade é facultada ao artista. A arte está associada à liberdade, que, por sua vez, está associada com a experiência. Se o leitor observar com cuidado, verá que as relações humanas nos bons livros de Literatura Fantástica são bem reais. Na melhor das hipóteses, essas relações refletem a sociedade; na pior, reflete o que o autor pensa dela.

Mais do que uma palavra à toa, "experiência" é um conceito filosófico. É fruto das respostas consciente e inconsciente do cérebro diante das situações vividas. Filósofos como Hegel, Nietzche e Wilhelm Dilthey utilizaram o termo "Erlebnis" para definir a experiência imediata. O termo significa, precisamente, "estar ainda presente na vida quando algo acontece". É a apreensão do conteúdo que ainda não foi construído ou codificado em símbolos e tradições, portanto é estritamente pessoal. O Dicionário Histórico de Filosofia alemão aponta que o termo Erlebnis "alude à imediatez entre o homem e a vida, à significabilidade do que foi vivenciado a ponto de alterar o caráter global da existência de alguém, e o significado estético, na medida em que não é possível comensurar racionalmente o conteúdo de uma vivência, enquanto nela estamos".

Saindo do mundo etéreo, veja um exemplo abaixo. O texto é da escritora e poetisa Analice Chaves, autora de Setembrices.

Quando cactos de apartamento encontram as folhas de jornal, é sempre um dia especial. Na maioria das vezes, cresceram...
Posted by Analice Chaves on Monday, March 28, 2016

Uma situação comum ganhou novos contornos e significados. Além da imaginação – outro elemento da tríade proposta por Faulkner, ao lado de observação –, a experiência se reflete na humanização da planta, na atribuição de conflitos e características inerentes às pessoas, não a plantas. É o que recomendou Graciliano Ramos à sua irmã, Marili Ramos: "só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. Além disso não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos".

Foi mais ou menos o que eu tentei fazer no texto abaixo. Aliás, exercícios como esses são ótimos para o desenvolvimento da capacidade de observar e narrar as coisas com um olhar próprio. Veja um carro passando pela rua rasgando o asfalto, uma árvore tocando o vento de primavera com os dedos verdes, um morador de rua alimentando seu cão com as próprias mãos. Existe mais ali do que o óbvio.
"A bolha

Multicolorida, baila amorfa conforme a atmosfera empurra dentro e fora. Sua existência é provocada, destinada a separar moléculas errantes de ar, capturadas feito cardume de peixes. Não é rede trançada, entremeada por mãos meticulosas, mas fruto inesperado de uma mistura, alçada aos ventos por uma tarrafa de dois gravetos enlaçados em barbante. Sabe-se de vida fugaz, dura enquanto encerra o cardume, enquanto sustenta a membrana líquida em conflito com o vento, que golpeia debalde em busca do pedaço roubado, conferindo-lhe infinitas e imprevisíveis formas. Grávida indesejada que encerra em si o feto já parido, flutua, ignora por onde. Decompõe a luz econômica do poste, derrama-se em olhares como arco-íris artificial; provoca em crianças e adultos ímpetos de estourá-la, extingui-la, abraçá-la, sorvê-la. Ao toque de uma mão, a membrana se desfaz e o cardume explode em ira e revolta, livre, espargindo gotas do seu cativeiro sobre sorrisos satisfeitos, orgulhosos da condição de libertadores. Aliviados pela resolução de uma tensão insustentável que se desfez como música para os olhos... ou apenas felizes, com desejo de mais."
O desafio do escritor não é apenas aprimorar suas técnicas narrativas – isso vem junto, mas nem de longe é o principal. Antes disso, cumpre aprofundar a si mesmo, permitir-se viver experiências e garantir que elas criem uma erosão tão profunda na alma que não exista outra saída a não ser o papel e a caneta. Conforme defende Henry James, a arte literária reproduz a vida. Não é uma ocupação para pessoas superficiais.


Lygia Fagundes Telles irá representar o Brasil na disputa pelo Nobel de Literatura. É a primeira vez que uma escritora se encarrega de portar o estandarte da literatura brasileira na premiação em Estocolmo. "Lygia é a maior escritora brasileira viva e a qualidade de sua produção literária é inquestionável", disse, em nota, o presidente da União Brasileira de Escritores (UBE), Durval de Noronha Goyos. A entidade a escolheu por unanimidade.

Com 92 anos de idade, Lygia tem uma vasta e bem-sucedida carreira na literatura. Publicou quatro romances, 20 livros de contos e participou de várias antologias e coletâneas. Também trabalha como tradutora e ajuda a adaptar obras literárias para o cinema – como o filme Capitu. Sua premiação mais recente foi o Prêmio Camões, em 2005. Integra a Academia Paulista de Letras (APL) e a Academia Brasileira de Letras (ABL).

A obra da escritora paulista conta histórias de mulheres e pode representar uma chance de o Brasil receber seu primeiro Nobel – embora os critérios da Academia sejam obscuros; escritores do porte de Drummond, João Cabral de Mello Neto e Jorge Amado já foram cotados. Considerando a literatura em língua portuguesa, apenas Saramago venceu um Nobel, em 1998. Por outro lado, 14 franceses já foram laureados. Em 2015, a Academia premiou a jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich, escritora de não-ficção.

Para homenagear Lygia e tornar sua obra mais conhecida entre os próprios brasileiros, consultamos escritores no Brasil inteiro para saber o que eles acham da indicação e quais obras da autora eles recomendam. Confira abaixo.

 Marcelino Freire  escritor; idealizador da Balada Literária e do projeto Quebras.
"Lygia é luz. E joga luz em todos nós."
Lygia é grande. Lygia merece todos os prêmios. Todas as louvações. Lygia é inspiração para todos nós. A Lygia contista, romancista. A Lygia mulher. A Lygia generosa. Ela já foi homenageada na Balada Literária, evento que criei e que existe desde 2006. Lygia, com problemas de saúde à época, fez questão de participar. E de louvar a iniciativa. Lygia é luz. E joga luz em todos nós. Um Nobel para ela é pouco. A ela, todos os corações. Difícil escolher um livro, mas posso dizer do volume de contos A noite escura e mais eu. Sempre adoto os contos da Lygia nas oficinas de criação que coordeno. Os cortes que ela faz nas narrativas, as ironias, o domínio da linguagem, a rica densidade. Lygia é uma das maiores contistas do mundo. Recorro aos contos dela para aprender e apreender com ela. Lygia é clássica e este livro, acima, o clássico dos clássicos.

 Cíntia Moscovich , escritora, jornalista, mestre em teoria literária e ministrante de oficinas de criação literária.
"Foi no conto, essa modalidade tão fascinante quanto sofisticada, que Lygia chegou ao nível da excelência."
Foi com alegria imensa que soube da indicação de Lygia Fagundes Telles para o Nobel. Trata-se de autora delicadíssima, que transitou entre o romance e o conto, tendo-se revelado mestra em ambos os gêneros. Foi no conto, no entanto, essa modalidade tão fascinante quanto sofisticada, que Lygia chegou ao nível da excelência, como demonstrou em Antes do baile verde. Em Seminário dos ratos, o conto Pomba enamorada ou uma história de amor era um dos preferidos de Saramago, e com justa razão. Lygia é dona absoluta de sua técnica e autora de seu tempo, abordando com verdade questões relacionadas ao envelhecimento e à solidão. O Nobel ficaria maravilhoso adicionado à biografia dela.

 Anélia Montechiari Pietrani , professora de Literatura Brasileira da UFRJ e coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura (NIELM).
"O mistério talvez seja a grande palavra de sua poética."
De palavras vigorosas, em uma escrita rigorosa, Lygia Fagundes Telles privilegia protagonistas e coprotagonistas femininas em seus romances e contos – gênero de sua paixão, como já revelou. O mistério talvez seja a grande palavra de sua poética. O mistério não apenas como tema ou como estratégia narrativa que arquiteta suas narrativas, mas também aquele mistério – os mais velhos e insondáveis mistérios – que cerca a vida e suas perplexidades; aquele que move a escrita em suas buscas e reflexões. Suas personagens, em conflito tanto com a realidade exterior limitadora quanto com a verdade interior desejante, nos inquietam lá nos nossos mais temidos abismos e remoem nossas grotas que desejamos bem escuras, o que me faz lembrar cada um dos contos do livro A noite escura e mais eu. Justa a sua indicação ao Prêmio Nobel de Literatura. A literatura de autoria feminina do Brasil, na voz de Lygia Fagundes Telles, merece que sua recepção e leitura sejam ampliadas. O leitor que se deparar com um dos mais belos contos já escritos em língua portuguesa – Apenas um saxofone, que integra o livro Antes do baile verde – e com a personagem Raíza, do romance Verão no aquário, compreenderá.

 Sandro Retondario , escritor e ministrante da Oficina de Criação Literária na Energisa/JP.
"Sem desmerecer outros grandes autores, como Ferreira Gullar, Nélida Piñon e Dalton Trevisan"
Lygia é uma escritora fora de série. Acho justa a indicação para o Nobel – sem desmerecer outros grandes autores, como Ferreira Gullar, Nélida Piñon e Dalton Trevisan, para citar apenas três, que certamente também devem ter sido considerados. Indico dois livros da autora: o romance As horas nuas, leitura muito prazerosa, praticamente uma aula de construção de personagens, e a antologia Melhores contos de Lygia Fagundes Telles, que traz A caçada e A estrutura da bolha de sabão, dois contos incluídos no livro Os cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi.

 Patrícia Dantas , escritora.
"A literatura da autora transita entre a profundidade e a fineza sutil dos nossos universos inteiros."
Lygia Fagundes Telles surpreende pela capacidade humana e misteriosa de saber entrar e esmiuçar a mais alta performance da vida: a linguagem da existência. Sua indicação ao Nobel de Literatura abre portas para conhecermos melhor sua produção e acreditar que a literatura da autora transita entre a profundidade e a fineza sutil dos nossos universos inteiros. Ciranda de Pedra e Antes do baile verde são os dois livros dela que me fizeram refletir e questionar a condição e o estado em que somos colocados diante das incontáveis situações em que predominam os sentimentos contraditórios que moram dentro da gente quando somos obrigados a atingir o limite humano.

 Caio Riter  escritor, professor e doutor em literatura pela UFRGS.
"Lygia: o viés do sensível."
Autora de livros de contos e de apenas quatro romances, Lygia Fagundes Telles é grande. Sua literatura conversa com seu tempo, com o humano que deve ser resgatado em nós. Para tal, coloca seus personagens em situação de passagem. A maioria deles em estágio ritualístico, na busca de superar obstáculos a fim de seguirem em frente, de se tornarem outros: novos ou renovados. Para tal, em sua arquitetura literária, subverte a lógica do real, muitas vezes flertando com o inverossímil, com o fantástico, e colocando o verismo em xeque. Lygia faz da literatura sentimento: sabe narrar, mais afeita à essência do narrado, à trama subjacente ao dito, do que a certos virtuosismos linguísticos tão em moda e que pouco dizem ao leitor. Em linguagem simples e direta, sem abrir mão do viés do sensível, Lygia Fagundes Telles cria – quer nas narrativas curtas, quer nos romances – personagens densos, tensos, repletos da dor e da surpresa do existir. Autora que, por isso mesmo, merece representar o Brasil – e a literatura como um todo – no Nobel. Lygia extrapola fronteiras: fala de sua aldeia sem deixar de contemplar o humano, que é, sabemos, universal. Difícil selecionar alguns livros de Lygia, para quem é seu leitor contumaz, defendeu tese de doutorado sobre sua obra e coleciona edições de sua obra. Vamos à tarefa: árdua, mas extremamente prazerosa.

Romances
As meninas (1973)
As horas nuas (1989)

Contos
Antes do baile verde (1970)
Mistérios (1981)
A noite escura e mais eu (1995)
Invenção e memória (2000)

 Robertson Frizero  escritor, dramaturgo e tradutor.
"Lygia é a contista do fantástico, que mistura imaginação e memória, tomando a infância como período de assombros."
Que venha o Nobel para Lygia Fagundes Telles! O reconhecimento da Academia Sueca daria maior visibilidade a uma de nossas grandes autoras em atividade, já traduzida em mais de oito idiomas, mas ainda pouco conhecida das novas gerações. Sua obra é essencial dentro da trajetória das escritoras brasileiras – seu uso do fluxo de consciência e do discurso indireto livre para fazer aflorar em seus textos os sentimentos e pensamentos das personagens femininas abriu caminhos hoje explorados por inúmeras autoras surgidas nas últimas décadas. Além de seus romances de ousadas escolhas narrativas, Lygia é também a contista do fantástico, que mistura imaginação e memória, tomando a infância como período de assombros; somam-se ainda temas como a fragilidade das relações amorosas, a hipocrisia social e a opressão das mulheres. Junto com sua contemporânea Clarice Lispector, Lygia inaugurou uma nova literatura brasileira escrita por mulheres. Obras que recomendo:

Romance
Ciranda de pedra (1954)
As meninas (1973)

Contos
Antes do baile verde (1970)
O segredo (2012)

 Miriam Mambrini  escritora

Gosto muito dos livros da Lygia Fagundes Telles. Ela conta histórias, isso me agrada. Ela escreve sem grandes firulas literárias, de maneira acessível mas nunca rasteira, e fala da vida brasileira, de nossa gente, de nossa maneira de ser. Ultimamente, com surpresa, ouvi alguns comentários sobre semelhanças entre meu estilo e o dela, o que me deixou orgulhosa. Deve ser uma semelhança de almas, pois  certamente minha inspiração não veio de seus livros. Quanto à indicação ao Nobel, foi outra agradável surpresa. Ela não costuma ser citada como um dos monstros sagrados de nossa literatura, Mas a meu ver está à altura, por exemplo, de Alice Munro e tem chance de chegar lá. Indico os livros As meninas, antológico romance que retrata as principais ideias e destinos de uma geração através de três jovens, e Antes do baile verde, uma coletânea de grandes e inesquecíveis contos.

Em Fernando Ammon Valle, a literatura transborda sobre a vida e funde-se a ela como uma mancha indelével. Conheça o trabalho do escritor e leia trechos inéditos de seu novo livro.

Queria ser jornalista. Ou fazer alguma coisa que envolvesse escrita. De Humanas. Acabou sendo encaminhado pela área de Exatas, virou Analista de Sistemas com uma carreira sólida em multinacionais e grandes empresas brasileiras. Mas a engenharia não sufocou a literatura. Pelo contrário: o lado artístico sobrepujou o lógico, e mesmo quando escreve linhas de código, Fernando Ammon Valle se imagina criando uma história. "Faço muita análise semântica, muita modelagem de dados, como gosto de dizer, transformo informação em conhecimento. Considero-me, às vezes, um "escritor" de sistemas", conta. "Não está tão distante assim do mundo das palavras".
O primeiro livro foi escrito quando o autor tinha 14 anos de idade. Foi publicado na biblioteca do colégio onde estudava, coisa pequena, simples. Índios Coloridos veio pouco mais de uma década depois, e foi distribuído em todo o Brasil. O pequeno livro de contos reúne historietas escritas em vários momentos na vida do escritor, desde seus sete anos – o simbólico Minha Rua – até a vida adulta. Mais dezesseis anos separam Índios Coloridos do seu segundo e, até agora, último livro, o romance O Caminho do Pólen. O teor existencial está presente em ambos.

Em entrevista concedida por e-mail, Fernando fala sobre a divisão entre trabalho e escrita, suas influências literárias e compartilha versos inéditos que serão publicados no livro Colheita, ainda sem data prevista para chegar às prateleiras. No final, ele compartilha sua visão sobre o ofício da escrita em um depoimento pungente.

Livreiro Fale um pouco sobre sua formação pessoal, como leitor e escritor, e por que você decidiu se tornar administrador de sistemas.

Fernando Ammon Valle – Minha formação como leitor e escritor começou nas salas de aula do Colégio Nossa Senhora do Rosário, em São Paulo, onde estudei treze anos. Ao terminar o primeiro colegial, pensava em ser jornalista e, naturalmente, fiz a opção pela área de Humanas. Já naquela época, gostava muito de ler, escrever, filosofar... Como as turmas eram pequenas e apenas dois colegas haviam manifestado interesse pela mesma área, a turma de Humanas foi cancelada, obrigando-me a escolher entre Exatas e Biológicas. Sair do colégio não estava nos planos. Anos antes, meu pai contraíra Alzheimer e, para que meu irmão mais novo e eu continuássemos no colégio, minha mãe pleiteou meia bolsa de estudos. O Rosário aceitou. Quando meu pai faleceu, o colégio nos acolheu como uma família. Saí do Rosário diretamente para a faculdade de Processamento de Dados. A partir daí, pouco a pouco, construí minha carreira na área de Informática, exercendo as funções de Programador, Analista de Sistemas e Arquiteto de Informação. Atualmente, trabalho como Especialista de Dados em uma empresa multinacional. Apesar do trabalho, nunca parei de escrever. Ainda jovem, fui muito incentivado por minha mãe, por meus irmãos e por um grande amigo que também escreve e que chegou a me emprestar seu computador pessoal para que eu digitasse e imprimisse meus primeiros poemas. Sobre minha relação com computadores, costumo dizer que não está tão distante assim do mundo das palavras. Trabalhando em minha área, faço muita análise semântica, muita modelagem de dados, como gosto de dizer, transformo informação em conhecimento. Considero-me, às vezes, um "escritor" de sistemas.

Índios Coloridos, teu primeiro livro, foi uma experiência literária, um conjunto de exercícios criativos? Como foi o processo de desenvolvimento dos contos e como você identificou uma temática que ligasse todos?

Na verdade, o primeiro livro que escrevi, com começo, meio e fim, foi um romance infanto-juvenil, publicado em capítulos semanais na biblioteca do colégio. Concluí o livro aos 14 anos, época em que comecei a reunir exercícios de língua portuguesa feitos durante as aulas – incentivados, aliás, pela professora que me acompanharia até a publicação de Índios e que, anos mais tarde, faria a revisão técnica de O Caminho do Pólen. Guardava todas as redações – com muitos conselhos e correções de estilo – em uma pasta de plástico, junto com alguns desenhos e vários textos livres, escritos à mão ou datilografados. Um dia, não me pergunte como, os textos emergiram da pasta para o livro de contos, um após o outro, em ordem cronológica. Além da intenção de produzir a coletânea, acredito que o que liga os contos é, simplesmente, a maneira como cada um se destacou do conjunto da pasta para compor o subconjunto. Quando, anos mais tarde, fui convidado para participar da coleção Novos Caminhos, da Editora Didática Paulista, apresentei a coletânea de contos e também o romance infanto-juvenil. Para minha surpresa, o editor gostou dos dois e permitiu que eu decidisse qual seria publicado. Escolhi Índios por ser mais "despretensioso" ou, dito de outra forma, menos "premeditado". Além disso, pensei que seria especial publicar Minha Rua, conto baseado numa redação que escrevi com apenas sete anos e que preserva alguns trechos do texto original.

No livro, é possível notar uma influência do realismo mágico que também se manifesta em O Caminho do Pólen. Como foi o teu primeiro contato com escritores como Cortázar, Borges e Gabriel García-Márquez e como eles influenciaram teu estilo?

Cem Anos de Solidão, de Gabriel García-Marquez, foi a pedra fundamental. Eu já havia lido Bergier e Pauwels, Cortázar e Borges, já me considerava um escritor "irracional"... Histórias de Cronópios e de Famas marcou muito minha adolescência e, possivelmente, inspirou a narração das dúvidas de Euclásio. Apenas depois que li Cem Anos, entretanto, enveredei deliberadamente pelo realismo mágico. Lembro que, ao terminar de ler o livro, admiti para mim mesmo que não conseguiria escrever de outra forma.

Ainda no livro de contos, você estabelece uma dualidade entre a figura silvícola do índio e a selva de pedra, a cidade. Como você juntou essas duas figuras? Essa dualidade cresceu junto com o escritor ou você absorveu de outro lugar?

Meu pai era natural de Bragança Paulista, uma cidade do interior de São Paulo, onde passou a infância e a juventude. Morando na capital, anos mais tarde, sentia saudade da vida no campo e da proximidade com a natureza. Curiosamente, usava muito a expressão “selva de pedra” e, sempre que possível, nos levava para conhecer suas “origens”. O pai de meu pai, que não conheci, também escrevia e, autor publicado, chegou a receber o título de “Poeta da Saudade”. O Major Francisco de Assis Valle ainda é considerado um dos expoentes literários de Bragança e, em seus textos, exaltava a simplicidade e as belezas do mundo natural. Como meus ancestrais, frequentemente, sinto-me oprimido pela cidade grande. Então, junto com minha família, fujo para as montanhas, uma cachoeira ou uma praia deserta. Além disso, sempre me interessei por costumes e lendas indígenas. O Caminho do Pólen, a propósito, é uma alusão a um mito Navajo sobre “a beleza do caminho sagrado para o centro”, com o qual tive contato lendo Joseph Campbell.

Em O Caminho do Pólen você decidiu enveredar pela espiritualidade e busca interior, estilo Sidarta, de Herman Hesse. Você diria que é uma obra mais madura do que Índios Coloridos? Ou apenas diferente?

Acredito, sim, que O Caminho do Pólen seja minha obra mais madura. Mais elaborada, mais densa, mais profunda. Herman Hesse, aliás, é outra influência, talvez Khamsin personifique Sidarta. Quando concluí o conto Janelas, do livro Índios Coloridos, senti que um novo ciclo de criação se iniciava. Mas, naquela época, havia descoberto uma veia pulsante, irrequieta, citando Cecília Meireles, com “sangue eterno e asa ritmada”. Alguns versos brotaram da velha pasta e me levaram por um caminho sem volta: três volumes de poesia intensa, prosaica, verborrágica. Novo esforço de coletânea, nascia Colheita (ainda não publicado). E, então, fui convidado a escrever crônicas semanais para um pequeno jornal de São Paulo. Aceitei o convite e, com o auxílio de Machado de Assis e de minha futura esposa, pouco a pouco, comecei a destilar textos "realistas" sobre as manchetes do próprio noticiário. Ato de rebeldia, no meio das crônicas, surgiu um conto fantástico, que dediquei a García-Márquez e publiquei no jornal com o título Cacos de Vidro. Era o embrião de O Caminho do Pólen. Meses depois, o livro tomou forma e, exaurido, abandonei o jornal. Levei dezesseis anos para concluir o romance. No início, apenas senti que precisava escrever sobre a busca de Euclásio, sobre "conhecer o mundo" e "retornar". Mais tarde, descobri-me buscando a mim mesmo. Quando percebi onde chegaria o livro, duvidei que conseguiria terminá-lo.

Mesmo com a vida profissional devorando o tempo, ainda sobra alguma coisa para a literatura? Você consegue ler e escrever diariamente, manter uma rotina?

Rem acu tetigisti! Eu costumava dizer que, se não tivesse que trabalhar ou se pudesse trabalhar menos, teria concluído O Caminho do Pólen em dois ou três anos. Lembro que muitas ideias para o livro me ocorriam durante a semana, de manhã cedo, quando não tinha tempo para escrever. No caminho para o emprego, ainda entusiasmado com o fluxo criativo, fazia planos para trabalhar no romance quando chegasse em casa. Mas, envolto em projetos e problemas rotineiros, depois de uma jornada exaustiva, tinha pouca energia para me dedicar às palavras. Era desanimador sentir a inspiração esvair-se ao longo do dia e, à noite, combalido, não conseguir avançar um único parágrafo. Para não perder os insights, registrava tudo em pequenos blocos de anotações que, anos depois, me ajudariam a costurar um roteiro consistente, sem fios soltos ou inverossimilhanças. Frustrante também era, aos finais de semana ou durante as férias, não me sentir inspirado ou produzir muito pouco, forçando-me a escrever. Hoje, quando penso no processo criativo e nas muitas tentativas de conciliar inspiração, expiração e transpiração, reconheço que não encontrei, ainda, uma fórmula ideal. Como não posso me dedicar exclusivamente à literatura, eu diria que, em meu caso, o que funciona é um misto de combustão espontânea (revelação) e incêndio criminoso (ação), mesmo que o resultado, às vezes, não seja satisfatório. Fiat lux!

Estou me forçando a escrever.
Digo isto para mim mesmo
como se confessasse
um crime.
Estou confessando um crime.
O escritor escreve:
prendam o escritor!
(Colheita, Teoria e Prática).

Uma vez iniciado o processo criativo, é preciso alimentar o fogo, esculpi-lo e avivá-lo, cuidando para que ele não se apague. Acredito que o mesmo, de certa forma, vale para a leitura. Ainda sofrendo com a falta de tempo, leio espontaneamente jornais, revistas, alguns blogs e o que estiver ao meu alcance, mas também me obrigo a visitar com frequência meus muitos livros de cabeceira.

O próximo livro já está a caminho, ou você não costuma se fazer esse tipo de cobrança, gosta de deixar o tema brotar e amadurecer?

Não se trata de “cobrança”... Apenas sinto uma espécie de incômodo, um princípio de angústia, se fico muito tempo sem escrever. No momento, estou finalizando a revisão de Colheita e, embora cultive ideias para outros romances, incluindo continuações para O Caminho do Pólen, não tenho escrito com muita frequência. De vez em quando, ouço a Musa cantarolando, ao longe... Não tenho dúvidas de que, cedo ou tarde, estarei novamente diante de uma folha em branco, soprando as brasas da próxima fogueira, reavivando a centelha interior.

Por que você escreve? Muitos autores têm ideias diferentes sobre o próprio ofício, gostaria de saber a sua.

Na introdução de Colheita, comparo o despertar de um poeta a “uma espécie de castelo do Graal em que todos os artistas esbarramos um dia: você não pode viver sem ele depois que já esteve lá, mas você está perdido e não sabe reencontrá-lo, e precisa conviver com isso.” Já pensei muito sobre a pergunta "por que escrevo?". Ao longo dos anos, tentei respondê-la de algumas maneiras diferentes. Em Índios Coloridos, há um conto narrado em primeira pessoa, intitulado A Lei. Nele, estou diante do espelho, sentindo-me "triste e cinzento" – um estado de espírito, aliás, tipicamente associado a inspirações literárias. Em determinado momento, o duplo do autor começa a contar uma história "repetida". O conto segue: "Eu então fiz com que ele parasse. Era isso o que tinha para dizer? Eu já conhecia a lei. Estamos vivos para aprender, não é isso? Seja você mesmo e a lei fará o resto. Naturalmente, as pessoas com as quais você pode aprender alguma coisa vão se aproximar de você. As outras então se afastam, é isso?" Posso dizer que, até hoje, a lei sempre funcionou comigo, sempre me aproximou das pessoas "corretas". Creio que um dos motivos para isto está em seu pragmatismo, em sua aparente simplicidade. Por outro lado, quão simples é ser "você mesmo"? Quão simples é conhecer a si mesmo, agir com espontaneidade sincera e, assim, atrair para si os encontros e as situações ideais? Fiz esta introdução para concluir que, em primeiro lugar, escrevo para me conhecer melhor. Isto ressoa em:

Não escrevo para os que me conhecem
Nem para os que me entendem.
Não escrevo para os que conheço
Nem para os que entendo.
Para quem escrevo?
Para o vento que soprou este grão de areia
em meus olhos.
Para este grão de areia que o vento soprou
em meus olhos.
Para estes olhos.
(Colheita, Insisto)

Sinceramente falando, todos os meus escritos são como espelhos para mim. Inspiração, expiração, reflexão... "Quando, finalmente, Tempestade apareceu em sua vida, Euclásio sabia que não era o momento. Precisava terminar a grande escultura que havia começado, desbastá-la até atingir sua essência e ver nela sua própria alma refletida" (O Caminho do Pólen). Ao ler o que escrevo, aprendo sobre mim mesmo, questiono minhas certezas, meus princípios, meus caminhos. E, naturalmente, cresço. Acredito que a segunda resposta para a pergunta "por que escrevo?" seja quase óbvia: para compartilhar o que vivi, o que (penso que) conheço. Embora não controle nem entenda completamente o processo criativo – meus próprios textos têm mensagens ocultas para mim –, acredito que "devemos passar nossa luz adiante, repartir nossas fogueiras, iluminar nossas idas e voltas" (O Caminho do Pólen). Como escritor, confesso que isso sempre me aflige: que o que tenho a dizer, por mais hermético que seja, faça sentido para o leitor. Quando isto acontece, sinto que completei o círculo, que atingi o centro, não importa onde. E, finalmente:

Tempo passa e sento-me e escrevo.
Mas, por que escrevo?
Talvez por tantos motivos
que não os saberia escrever.
Talvez por um motivo só,
único,
inescrutável.
O que eu seria se não escrevesse?
Um sonhador
que atravessou desertos
e subiu montanhas
e finalmente chegou
onde sempre esteve.
Escrevo para chegar
onde sempre estive.
Quero chegar sempre.
Quero retornar com um sorriso
e o brilho de uma estrela no olhar.
(Colheita, Vega)

Encerrando a entrevista, gostaria de compartilhar algumas curiosidades sobre o nome do personagem principal de O Caminho do Pólen. Muitas pessoas me perguntam sobre a escolha de Euclásio, um nome “tão incomum”, “tão intrigante” – considere, por exemplo, que os demais personagens têm nomes de vento. Em primeiro lugar, escolhi Euclásio pela etimologia da palavra, “boa fratura”, em grego. Trata-se de uma pedra rara e preciosa, com coloração zonada (frequentemente azul) e clivagem perfeita. Nitidamente, Euclásio fica dividido entre o misticismo de Khamsin e a racionalidade de Sirocco, sendo levado a questionar suas crenças e a decidir sobre o próprio caminho. “Vou com os ventos”, tramava... Em segundo lugar, agradou-me a sonoridade do nome, em contraste com Alísio e Etésio, seus irmãos. Posteriormente à publicação do livro e aos questionamentos dos leitores, para minha surpresa, ocorreu-me que: o nome começa com “Eu”, aludindo ao ego e à busca solitária do personagem; o nome termina com “o”, aludindo ao círculo que simboliza a conclusão da jornada; o nome tem oito letras, aludindo ao símbolo do infinito e às possibilidades infinitas encapsuladas na finitude da vida; o nome possui todas as cinco vogais do alfabeto; e, finalmente, é um anagrama para “Eu li caos”.

Talvez eu tenha sido um pouco ambicioso demais no ano passado. Dos quase 40 livros que prometi ler, mal cheguei à metade. Porém quase todos foram resenhados aqui, no Livreiro Nômade; é um bocado de trabalho, por isso não dá para ler como uma draga. A lista de leitura para esse ano inclui todos aqueles que não li em 2015 e mais alguns. Os maiores desafios são Ulysses, de James Joyce, e Guerra e Paz, de Tolstoi.

–Lido–

Carmilla, a vampira de Karnstein – Sheridan Le Fanu

–Lendo–

O livro no Brasil – Laurence Hallewell
Sete monstros brasileiros – Bráulio Tavares
Noites egípcias e outros contos – Púchkin
Zodiac – Robert Graysmith
A narrativa de Arthur Gordon Pym – Edgar Allan Poe

–Os próximos–

No coração das trevas – Joseph Conrad
Zodiac unmasked – Robert Graysmith
Sidarta – Herman Hesse
Sobre a escrita – Stephen King
Star wars [volume único] – George Lucas
O primo Basílio – Eça de Queirós
A outra volta do parafuso – Henry James
As crônicas de Nárnia – C.S. Lewis
O senhor dos anéis [trilogia] – J.R.R Tolkien
As brumas de Avalon [tetralogia] – Marion Zimmer Bradley
Retrato do artista quando jovem – James Joyce
Ulysses – James Joyce
Usina – José Lins do Rego
A aventura do Livro: do leitor ao navegador – Roger Chartier
A nudez de Laura – Ana Paula Cavalcanti
Impresso no Brasil: dois séculos de livros brasileiros – Aníbal Bragança e Márcia Abreu [org.]
Cerimônias satânicas – T.E.D Klein
Contos fantásticos brasileiros – Bráulio Tavares [org.]
78 rotações: crônicas – Bráulio Tavares
Guerra e paz – Tolstói
Antologia da literatura fantástica – Jorge Luis Borges